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A
qualidade dos projetos de interiores atingiu
nessa década nível jamais visto, tornando-se praticamente
uma especialização da arquitetura. Os interiores de
escritórios também tiveram uma fase bastante fértil.
Para isso contribuíram a instalação no país de empresas
multinacionais, as agências de publicidade e, já
no final da década, o surgimento dos espaços que abrigam
a chamada nova economia - basicamente, firmas ligadas
à Internet.
As lojas de mobiliário e decoração, implantadas
em sua maioria em São Paulo, distinguem-se das demais.
A primeira grande loja construída no período foi a Formatex
(1989/91), de tecidos, projetada pelo escritório CVS
Arquitetos, com volume de concreto que lembra as obras
do japonês Tadao Ando. Mas o maior destaque fica com
a Forma (1988/93; PD 175), de Paulo Mendes da
Rocha. A loja, que comercializa mobiliário internacional,
possui dois pisos sobre pilotis, permitindo ao térreo
liberado servir de estacionamento. O projeto demonstra
a engenhosidade do arquiteto, com a sutil interação
de concreto e metal na estrutura.
Cláudio Bernardes e Paulo Jacobsen são responsáveis
pelo belo projeto de loja de móveis House Garden
(1995; PD 196). A Tok & Stok possui espaços bem
desenvolvidos (1998/99; PD 231). O projeto-base, desenhado
por Felippe Crescenti, definiu o critério para a instalação
de outras unidades da rede em todo o país. Uma área
comercial que apresentou crescente demanda pelo trabalho
de arquitetos foram as livrarias e lojas de CDs, especialmente
as megastores. O destaque paulistano fica por conta
do Ática Shopping Cultural (1995/97; PD 210)
- de Paulo Bruna e Roberto Cerqueira César -, que posteriormente
foi vendido para a cadeia francesa Fnac e passou por
adaptações, como a colocação de filtros nos vidros,
que eliminou a transparência entre interior e exterior.
A Cultura,
tradicional livraria de São Paulo, também investiu em
novas unidades, com projeto de Aurélio Longo em uma
loja e de Fernando Brandão em outras duas, entre elas
a megastore do Shopping Villa-Lobos (1999/2000;
PD 250). A loja de discos Mirage (1997/98;
PD 218), de Allan Malouf e Edison Hiroyama, em São Paulo,
é outro bom exemplo.
As grifes brasileiras de vestuário ganharam a mídia
internacional e os pontos-de-venda transformaram-se
em grandes vitrines das marcas - Ellus, Forum,
G e Zoomp, entre outras - e do desenvolvimento
dos projetos de arquitetura. Nesse concorrido mercado
atuam profissionais como Carlos Alexandre Dumont, Ronaldo
Saraiva e Marcos Bertoldi, entre outros. A Uma
(1998; PD 231), de Márcio Kogan, seguindo a tendência
internacional de agrupar serviços às lojas, construiu
um pequeno restaurante ao lado do ponto-de-venda.
Na capital paulista, considerada o centro da gastronomia
do país, a velocidade de abertura e fechamento de restaurantes
é impressionante: poucos duram mais de meia década.
Entre os principais projetos dos anos 90 está o Mr.
Fish (1992/95), de Batagliesi e Carvalho, cuja desenho
lembra um galpão de zona portuária. O Gero (1993),
irmão mais novo e despojado do Fasano, é um dos mais
bem-sucedidos da década. Os tijolos de demolição usados
no premiado projeto de Aurélio Martinez Flores tornaram-se
depois uma febre no setor. Flores é responsável também
pelo projeto do restaurante chinês Gweilo (1997/98;
PD 224). Outro trabalho marcante é o Mastroiani
(1995/96; PD 203), de Roberto Ravioli, um arquiteto-restaurateur.
O conceito do espaço teve início com o desenho da filial
Consolação da Bros Pizzaria (1990/91).
Já o Spot (1995) - que ocupa o lugar do Praça
Paulista (1988/89), premiado projeto de Luiz Fernando
Rocco e Fúlvio Nanni - foi repaginado por André Vainer
e Guilherme Paoliello, responsáveis também pelo novo
Ritz (1999/2000). O Cantaloup (1995/96; PD 209)
é outra singular proposta do gênero. O espaço, projetado
por Arthur de Mattos Casas, transformou uma antiga fábrica
em um belo espaço para a culinária contemporânea. Casas
é responsável por diversos trabalhos no período, como
o Yellow Giraffe (1994) e o Café Teatro
(1998). Na mesma linha insere-se o Tambor (1995/96;
PD 209), de Felippe Crescenti, que tira partido do nome
do restaurante, criando um grafismo próprio. O arquiteto
foi responsável pelo projeto do antológico Nabuco
(1993), também em São Paulo.
Fora do eixo gastronômico paulistano, destaca-se Belo
Horizonte, com seus talentosos arquitetos de interiores.
A Padaria Bononi (1995/96; PD 198), de Freuza
Zechmeister, ocupa de forma inteligente uma antiga construção.
A arquiteta é autora de outros espaços gastronômicos,
como o Café Ideal (1990/91). O bem desenhado
Saatore (1998/99; PD 236), de Amarilis de Siqueira
e Andréa Manetta, utiliza pratos e garrafas na ambientação.
Em Ouro Preto, Éolo Maia e Jô Vasconcellos transformaram
o porão de uma casa histórica no Piacere (1996/97;
PD 224).
Nos escritórios, predominam a nova economia e
as finanças. Escritórios sofisticados também foram uma
demanda de profissionais liberais, com destaque para
os advogados: as bancas Demarest (1994/95;
PD 217), de Sérgio Pileggi, e Machado
Associados (1999; PD 248), de Dante Della Manna,
são bons exemplos. As agências bancárias passaram
por intensa transformação, tornando-se postos de auto-atendimento.
Grandes escritórios de arquitetura mantidos pelas instituições
financeiras, como a Itauplan, foram extintos. Ainda
no mercado financeiro, a empresa de trading Contibrasil
(1994; PD 177) instalou-se em espaço criado por Rogério
Batagliesi, Hélio Carvalho e César Hirata. Entre os
projetos para multinacionais, destaca-se o da Asia
Motors (1995), do escritório Piratininga Arquitetos,
que possui grande volume de trabalho na área. Os projetos
diferenciados têm como principal alvo os interiores
de agências de publicidade, setor que recebeu grandes
investimentos com a entrada de sócios estrangeiros.
As agências personificam os clientes ideais para os
arquitetos: o espaço deve fazer parte da imagem de criatividade
exigida dessas empresas. O escritório de arquitetura
NPC realizou diversos projetos nessa área: S & A
Associados (1996; PD 196), ADD (1995; PD 196), Young
& Rubican (1997/98; PD 226) e Grey
Brasil (1999/2000; PD 248). No final da década,
a grande novidade foram as empresas ligadas à Internet
- a chamada nova economia -, com a pretensão de, em
um ambiente no qual predominam os jovens, inovar os
conceitos de trabalho. Os destaques são a Itanet
(1998/99; PD 240), cujos espaços foram desenhados por
Kiko Salomão. A empresa, com sede paulistana, controlava
a Zip.net e foi a grande vedete deste setor: com investimento
inicial de 8 milhões de dólares, foi vendida por 300
milhões. Outro espaço interessante é o iG
(2000; PD 249), de Vainer e Paollielo, em São Paulo,
com desenho limpo e contemporâneo, lembrando um espaço
fabril.
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