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São dois universos paralelos e complementares, a loja no térreo e o spa no pavimento inferior. Juntos, eles somam quase 700 metros quadrados de área construída, além de outros tantos metros dedicados a superfícies decorativas. Cada parede, assim, foi tratada no sentido de extrair-se o máximo de efeitos a partir de base enxuta, um procedimento comum às atuações individuais das habilidosas criadoras que são a octogenária Andrée Putman e a estilista franco-brasileira Anne Fontaine. Texturas naturais e artificiais, pedras, madeiras e tecidos, portanto, são protagonistas dos interiores, ao lado dos arranjos de luz. No térreo, esses elementos criaram ambiência sofisticada, recorrente em áreas dedicadas à alta-costura, com muito espaço vazio, poucas cores e brilho controlado, embora marcante.
A loja é setorizada em duas áreas. Uma delas é a galeria de entrada. Posicionada lateralmente no imóvel, ela abriga a variedade de produtos da marca e é pontuada por molduras abobadadas, representativas da arquitetura austera e formal do entorno. Evidencia-se ali um dos elementos simbólicos agenciados por Putman no projeto. A parede lateral interna conforma uma espécie de biblioteca vertical dos tecidos que Anne pesquisa em suas criações, como linho, algodão, organza e seda. Vê-se a dobra desses grandes panos, num desenho alusivo à modelagem empreendida pela estilista enquanto concebe suas camisas diretamente sobre manequins.
O visitante passa, então, ao grande salão emoldurado pela vitrine da fachada. Nele, o piso branco da entrada é substituído por madeira paginada em malha quadrada, e o ambiente ganha a interferência de efeitos decorativos. No centro, uma luminária escultórica, feita com papel machê, dissimula lâmpadas sob pequenas folhagens, enquanto lateralmente um trilho suspenso e com desenho sinuoso sustenta tiras em tons dourados. Na outra lateral, o contraponto é estabelecido através da parede de pedra azul, em tom escuro, com textura ranhurada. Ela utiliza material proveniente da província belga de Hainaut e abriga sutil queda d’água que se desenvolve ao longo da escada de acesso ao spa. Esse elemento natural foi eleito pela designer de interiores e pela estilista como elo simbólico entre a loja e o spa, de forma que, no subsolo, a água se transforme em estreito curso a sinalizar o acesso às salas individuais de atendimento.
Prevalece no pavimento inferior, de setorização densa e intrincada, a ambiência onírica, resultante sobretudo da interação de luz colorida, superfícies brancas e outras feitas com arranjos de pedras naturais. Tudo parece flutuar ou estender-se indefinidamente no spa. As salas de atendimento têm a forma de caixas assimétricas - feitas com madeira pintada de branco -, levemente suspensas e com arestas dissimuladas pela implantação de visores verticais. Eles criam interessante efeito ao tornar visíveis as várias cores com que se iluminam os interiores. Destaca-se a costura entre a luz cambiante e as grandes superfícies revestidas com pedras. Por vezes, como na recepção e na sauna, o mármore em tons marrons enfatiza o caráter orgânico do spa; nas áreas de tratamento, a junção da iluminação azul com as pedras em mesma tonalidade cria efeito dramático e tecnológico.
Texto resumido a partir de reportagem
de Evelise Grunow
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 340 Junho de 2008
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