Brasil + 500
Mostra do Redescobrimento no Ibirapuera, São Paulo
Arte Barroca,
uma “geografia feita de devoção”
 

Mostra preferida dos visitantes, brasileiros e estrangeiros, Arte Barroca, conta com inusitada cenografia criada por Bia Lessa, a versátil diretora de teatro, ópera, cinema e vídeo, responsável também pelo segmento artístico do pavilhão do Brasil na Expo 2000, em Hannover, Alemanha.

É, também, a que desperta maior polêmica. No início de junho, quando esteve em São Paulo e visitou o Ibirapuera, o arquiteto suíço Mario Botta declarou que era a exposição mais brilhante que ele já vira. Botta fez questão de revê-la em companhia do também arquiteto suíço Luigi Snozzi, que ficou igualmente impressionado.

Ocupando parte do térreo e o mezanino do Pavilhão da Bienal, num total de 4 700 m2, este módulo ostenta espaços cenográficos de percursos inventivos, com curvas, retas, pontes e alturas alternadas.

No primeiro espaço, a cobertura de parte da rampa e a colocação da entrada por baixo do mezanino proporcionaram o desejado aspecto estranho e escuro que cercava as imagens saídas das igrejas portuguesas para, em porões dos navios, vir para o Brasil. Com as expressivas esculturas do século 17 mostradas entre troncos de árvores, com pouca luminosidade, forte cheiro de madeira e música barroca de fundo, o visitante é levado à ambientação desejada pela artista. Esse salão escuro aumenta o impacto dos espaços seguintes.

As imagens aparecem entre o esplendor festivo de flores roxas e amarelas de papel crepom, feitas pelos presos da penitenciária do Carandiru, de São Paulo. As roxas, com as imagens mineiras, lembram o Brasil de Corpus Christi, da Semana Santa; e as amarelas, o esplendor dourado do barroco da Bahia, de Pernambuco e do Maranhão.

Ocupar o pavilhão de linhas puras e ousadas criadas por Oscar Niemeyer foi um grande desafio tanto para Bia Lessa quanto para os demais cenógrafos. A cenografia do módulo Arte Barroca foi delineada a partir das primeiras conversas com a curadora Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira. Bia se inspirou na história do barroco no Brasil e na religiosidade peculiar do brasileiro, “que subverte a tradicional concepção do Deus que pune e do homem que tem culpa” e aproxima-se do sagrado com intimidade. Santo Antônio é um exemplo típico, afirma a cenógrafa: quando não atende a promessa de encontrar o noivo desejado, sua image é colocada de cabeça para baixo.

O arquiteto Paulo Mendes da Rocha, responsável pelo plano diretor da Mostra do Redescobrimento, pela coordenação dos trabalhos de recuperação da Oca e do restaurante e pela cenografia dos módulos Arte Moderna e Arte Contemporânea - participou das decisões iniciais do projeto para Arte Barroca. Mas a responsabilidade da arquitetura foi entregue ao arquiteto Pedro Mendes da Rocha (seu filho) e equipe (os arquitetos Laura Carone Cardieri, projeto de arquitetura e montagem; Fernando Prandi, maquete eletrônica; Eduardo Spinazzola, Cristina Sverzuti e Pedro C. R. Santos; e os estudantes André Wissenbach e Daniel Nogueira Maekawa).

Juntamente com os arquitetos, a cenógrafa definiu a localização da catedral, para a colocação das imagens em retábulos, embaixo da rampa do pavilhão, onde o pé-direito alcança 14 metros. Bia Lessa considera seu trabalho mais de geografia que de cenografia - uma “geografia feita de devoção”, diz, “para que as pessoas pudessem ver cada obra separadamente, e não em conjunto, como já foi feito várias vezes - e muito bem-feito”. Segundo Pedro Mendes da Rocha, a mostra subverte a arquitetura do prédio, criando uma outra, com a lógica da seqüência desejada pelo projeto.

Dois anos de pesquisas
Conhecedora profunda do barroco brasileiro, a curadora (e historiadora) Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira optou por uma temática única, de imagens religiosas - 350 de todo o Brasil. Junto com a assistente Fátima Justiniano, Myriam pesquisou durante dois anos todo o acervo do país. Leia mais

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Na Oca, objetos indígenas encontram a floresta

 
Santana Mestra, imagem maranhense do século 18,
em madeira policromada. Museu de Alcântara-MA
 
Imagens articuladas para procissão de Pentecostes,
século 18, em madeira policromada e dourada
 
Retábulo rococó, século 17, em madeira policromada
e dourada. Colégio Caraça, Santa Bárbara-MG
 
Cristo crucificado, século 18, madeira policromada.
Museu de Arte Sacra de São Paulo
 
Anjo tocheiro, século 18, madeira policromada e dourada. Museu da Inconfidência, Ouro Preto-MG
 
Vista panorâmica do módulo Arte Barroca
Fotos: DENISE ANDRADE
 
Planta 1ª bloco
1. Entrada / 2. Porão / 3. Percurso de flores / 4. Catedral
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