Jean-Pierre Tortil

Restaurante Giuseppe, Rio de Janeiro

Plantas, cortes e fachadas
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O terraço dos fundos foi incorporado ao restaurante com a criação da cobertura envidraçada
Dualidade entre interiores modernos e ambiência antiga
O francês Jean-Pierre Tortil realiza uma aproximação literal à arquitetura. Seus interiores surgem da narrativa criada durante a fase de conceituação do projeto, a fim de que se estabeleça um conjunto de referências visuais determinantes dos setores do programa. No restaurante Giuseppe, implantado no Leblon, esse método de trabalho evocou a ambiência antiga italiana contraposta ao interior moderno, sofisticado.

A proporção da edificação favorecia a relação dualista. Comprido e com pé-direito elevado, o restaurante está em sintonia com a convivência entre elementos de naturezas visuais distintas, como detalhes rebuscados e materiais industriais, simples.

Piso e paredes apresentam texturas intrincadas. No primeiro, a área de entrada é marcada pela paginação delicada de pequenas pastilhas cerâmicas, que se repetem em toda a área de influência do bar. Já as paredes tiveram processo artesanal de construção, uma vez que resultam da sobreposição de pedras de formas irregulares e por vezes provenientes de demolição, escolhidas no local a partir de testes realizados em toda a extensão longitudinal do restaurante. Uma a uma, as pedras eram colocadas temporariamente, redimensionadas e finalmente assentadas, segundo diagramação concebida simultaneamente pelo arquiteto.

O pequeno jirau ganhou posição de destaque, sinalizada pela escada metálica
O recuo da entrada foi tratado como uma varanda, protegendo os interiores do ruído externos

Essas superfícies receberam iluminação indireta e linear, criada pela lighting designer Mônica Lobo. Ela forma quadrados e retângulos inspirados no desenho do grande espelho do bar junto à entrada - uma referência a Mondrian, explica o arquiteto - e funciona como contraponto à textura e à irregularidade do revestimento de pedras.

Na parte posterior do lote, em que o restaurante tem a largura duplicada, entram em cena as grandes vitrines criadas por Tortil. Seu desenho teve origem no enfrentamento de um ponto negativo dos interiores, ou seja, no embate sobre o que fazer com o grande pilar central de sustentação do mezanino. Chegou-se a pensar na eliminação do jirau e de seu pilar, mas, em vista da perda de lotação dela resultante, a opção adotada foi oposta: utilizá-lo como elemento cênico, uma ampla vitrine vertical e oblonga que guarda as taças usadas no restaurante. Iluminada e revestida internamente com espelho, ela funciona também como grande luminária, que tem como referência a arquitetura da tradicional confeitaria Colombo, no Rio de Janeiro. “Essas histórias e evocações criam referências coletivas, as pessoas se sentem em casa no restaurante”, explica Tortil.

Também o mezanino se apresentava como desafio, em virtude do pé-direito reduzido. O arquiteto, então, revestiu-o externamente com gradil feito de tela metálica, na cor grafite, de modo que a expectativa de se entrar em local menor do que ele efetivamente é criasse efeito contrário. Nesse sentido, vale destacar a cobertura envidraçada do terraço nos fundos, perceptível desde o mezanino.

Em todo o restaurante, as telas metálicas e o tratamento aparente da tubulação de ar-condicionado contrabalançam, com sua imagem industrial, os detalhes sofisticados dos interiores.


Texto resumido a partir de reportagem
de Evelise Grunow
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 342 Agosto de 2008

Arquiteto de interiores e designer de móveis e objetos, Jean-Pierre Tortil é natural de Paris, França. Atualmente é diretor da The Feeding Station Company, empresa de consultoria de arquitetura de interiores e design. Foi colaborador da arquiteta Andrée Putman entre 1992 e 1995, realizando trabalhos em países como Estados Unidos, Londres e Itália, entre outros. Desde 2001 atua também no Brasil, em projetos de cenografia teatral, interiores residenciais, comerciais e mobiliário
Vista em direção do terraço dos fundos
Mobiliário moderno e instalação aparente do ar-condicionado contrastam com detalhes dos interiores
A iluminação indireta das superfícies irregulares cria interessante contraponto
Vista em direção da entrada, com destaque para as luminárias de tecido, envoltas por chapa metálica
Chegou-se a discutir a remoção do jirau...
A entrada do restaurante
abriga amplo bar
... mas ele se tornou elemento determinante da setorização