Exposição Iluminar
São Paulo
   
 
  1 Na entrada, as luminárias Eclisse, de Vico Magistretti, e o nome da exposição, em luzes embutidas e recortes no gesso
2 Detalhe da luminária Ufo, de Verner Panton. A peça, criada em 1975, é um dos destaques da Via Láctea
3 A sala Via Láctea tem proporção retangular e lados arredondados. Na extremidade direita, nichos azuis elevados se contrapõem ao cobre do piso e das bases expositivas. A luz estática reforça o tom escuro da cenografia
       
 
Percurso de luz e escuridão
 
Em percurso que começa e termina na escuridão, passando pela luz total, convivem Via Láctea, seres fantasmagóricos e a fantasiosa passagem do ovo à pedra. Há ainda a colônia de insetos, zona de queimada, floresta de bulbos animados e, finalmente, o corredor sombrio e polifônico que conduz à saída. Esta é a Iluminar, mostra sobre design da luz, que o Museu de Arte Brasileira/Faap apresenta até 2 de maio de 2004, em São Paulo.

Na entrada, um nicho horizontal aberto no painel de gesso negro e levemente arredondado acomoda as luminárias Eclisse, de Vico Magistretti, e serve de base para o título da exposição. A palavra Iluminar é escrita com recorte e luzes embutidas; através de dimerizadores, acompanha o movimento seqüencial de luz criado por Maneco Quinderé para as belas peças do designer italiano.

A próxima sala é a Via Láctea, “início da história que os curadores nos pediram para contar e onde exploramos ao máximo o conceito de espaço infinito”, diz Humberto Campana, responsável pela cenografia da exposição junto de seu irmão Fernando. Com intenso azul-escuro aplicado a luminotécnica e paredes, a cenografia concentra esforços na porção aérea: nichos elípticos, dispostos em direções oblíquas, elevam luminárias de autores como Le Corbusier, Alvar Aalto, Ron Arad, Verner Panton e Ingo Maurer, entre outros.

A profundidade dessas aberturas individualiza os delicados efeitos de luz de cada peça - que Fernando define como “objetos luminosos mais do que objetos para iluminar” - e ainda proporciona interessante contraponto à YaYaHo, instalação linear de Maurer localizada no extremo oposto.
 
Luminária Shine, do israelense Arik Levy
 
A instalação YaYaHo, de Ingo Maurer,
classificada pelo autor como produto de dois designers:
ele mesmo e aquele que a instala
       
   
  No corredor, o recorte do forro cria linha imaginária de
alinhamento entre as luminárias da seção Fragmentação
  Na sala laranja, cerca de 360 circuitos comandados por computador dão movimento alternado às lâmpadas
       
  As instalações de Maurer são cubos suspensos, iluminados interiormente e vedados por tecidos translúcidos nas cores branca, vermelha e azul. Eles contêm luminárias feitas com papel, em homenagem ao designer japonês - também presente na mostra - Isamu Noguchi, e, devido à posição central, tornam-se divisores da circulação.

Assim, encaminham o visitante, na lateral esquerda, para as luminárias da Fragmentação, espaço que apresenta forro recortado para criar o alinhamento inferior entre as peças suspensas, e na direita para a Articulação. Para esta seção, os Campanas criaram uma espécie de grande mesa de trabalho, também revestida por cobre, em que a densidade e o proposital desalinhamento entre as luminárias traduz a idéia que os designers denominaram de colônia de insetos.

Um dos grandes destaques da Iluminar é a sala central totalmente branca, inspirada na forma elíptica oval. Externamente, ela é revestida por plástico transparente, utilizado em supermercados para embalar frutas e verduras. Em seu interior, conta a evolução do desenho do abajur, “do ovo à pedra”, explicam os Campanas, através de nicho que se abre e se fecha em desenho sinuoso.

Ao final desta sala principal está o Paraíso das Lâmpadas. A instalação, que tem como autores os Campanas e Ingo Maurer, apresenta de forma bem-humorada um jardim em que os personagens são as próprias lâmpadas, sem revestimentos nem cúpulas. Comandos computadorizados, criados por Quinderé, criam surpreendente dinâmica de luz.
 
 
Vista da instalação Milky Way, de Maurer:
os três cubos suspensos abrem a grande sala laranja
       
 
Detalhe interno da instalação Milky Way, que presta homenagem às luminárias de papel de Isamu Noguchi   No lado externo da sala Fantasmas e Ectoplasmas,
luminárias de Isamu Noguchi. O revestimento com
plástico transparente cria forte efeito cenográfico
       
 
  A seção Articulação, chamada pelos Campanas de colônia de insetos
       
  A rarefeita ocupação do piso destaca a criação de espaço fluido, que induz à circulação através de pequenas praças, definidas a partir da cuidadosa disposição de bases expositivas arredondadas e com cantos pontiagudos. Elas abrigam luminárias de mesa e outras peças de grande dimensão, e são revestidas por chapas de cobre, assim como todo o piso elevado da mostra.

O material possui forte carga simbólica por ser condutor de eletricidade.

Um gargalo circular faz a transição para a grande sala da Iluminar, que agrega as instalações principais de Maurer e as seções Fantasmas e Ectoplasmas, Fragmentação e Articulação.

O ambiente é totalmente diverso da Via Láctea, principalmente pela intensificação da iluminação e aplicações da cor laranja, que, em conjunto com o piso, “conferem ar de grande fogueira, de queimada”, observa Humberto Campana.

A exposição Iluminar tem cenografia de Fernando e Humberto Campana, arquitetura de Pedro Mendes da Rocha e André Wissenbach, iluminação de Maneco Quinderé, trilha musical de Daniel Ciampolini, instalações especiais do alemão Ingo Maurer, curadoria dos franceses Sarah Vignon e Stéphane Corréard, coordenação geral de Dominique Besse.

E reúne 250 luminárias criadas entre 1920 e 2004, vindas sobretudo de museus e colecionadores europeus. O elo entre as múltiplas nacionalidades da Iluminar é a idéia de atrair o olhar do visitante por meio da emoção, da cenografia espetacular.

“É assim que o público brasileiro vê”, resumem os prestigiados irmãos Campana. Eles criaram anteparos elípticos para dividir a mostra em cinco seções especiais e mantiveram os elementos que constituem o diferencial de sua obra: uso irreverente e autoral de materiais cotidianos, colorido intenso e habilidade para o desenho orgânico.

A exposição termina com um corredor escuro de 25 metros de comprimento, em que o visitante pode acompanhar depoimentos em vídeo de importantes designers internacionais e, ainda, a instalação virtual Sparkler, de Arik Levy.

Texto resumido a partir de reportagem
de Evelise Grunow
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 290 Abril de 2004
 
O recorte sinuoso do interior da sala central conta
a trajetória do abajur
 
Alternância de cores na exposição:
no centro, a sala dos Fantasmas e Ectoplasmas é branca;
ao fundo, o Paraíso das Lâmpadas é verde
 

Vista do trecho final da exposição: de volta ao escuro

       
   
  A Floresta das Lâmpadas reune luminárias
feitas a partir da manipulação das próprias lâmpadas
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