Iluminação
A luz é preciosa
Luminotécnica é uma arte que concilia conhecimento técnico, gosto pessoal e aspectos emocionais. Economia também é fundamental
 

"O maior desafio do arquiteto que desenha a luz está em conseguir bons resultados nos aspectos subjetivos", afirma Esther Stiller, arquiteta com 30 anos de experiência em lighting design. Alcançar resultados positivos depende diretamente de uma grande série de variantes, como tipo de ambiente, tempo de permanência no local, acuidade visual média dos usuários, compatibilidade com a linguagem arquitetônica, restrições físicas à instalação do sistema projetado, possibilidade de compor a luz artifical com a natural ou os recursos capazes de oferecer a melhor iluminação com o menor dispêndio de energia. Esses são apenas alguns dos fatores que devem ser analisados antes que o profissional se coloque diante do computador para calcular o número de lâmpadas, seu tipo e a angulação dos fachos que serão utilizados, diz Esther.

Segundo o arquiteto Antônio Carlos Mingrone, representante do Brasil na Comissão Internacional de Iluminação (CIE), a luminotécnica não tem soluções padronizadas. "Isso é positivo porque dispensa o rotineiro e ajuda a conquistar avanços a cada projeto", avalia. Para ele, tudo começa com o espaço que receberá a luz: "É preciso ter uma clara identificação do que e como será iluminado". O designer Guinter Parschalk concorda. "A luz em si é invisível, o que vemos é o objeto iluminado e a fonte luminosa. A luz depende totalmente da matéria e reage de forma diferente com cada tipo de material", diz ele, chamando a atenção para a importância de conhecer essa multiplicidade de efeitos.

Um exemplo: segundo a lighting designer Rosane Haron, os fast-foods costumam ter, intencionalmente, iluminação mais fria, o que induz o cliente a fazer sua refeição rapidamente e sair do local. Um restaurante com iluminação ambarizada, mais cênica e aconchegante, estimula o bate-papo, a descontração e, portanto, a permanência. "E com isso as pessoas consomem mais", lembra Rosane. Esses podem ser os pontos de partida para vários projetos de restaurante, mas as diferentes condições de cada espaço, considerando a diversidade de objetos, destaques, dimensões e intenções, fazem com que cada trabalho seja único.

O mesmo vale para as lojas, embora em todas elas o projeto de iluminação tenha a finalidade básica de atrair o cliente. De acordo com Parschalk, pode-se abusar da cenografia nos displays fixos e na vitrine porque isso desperta a curiosidade e quem passa acaba entrando para ver o produto com mais detalhes. Porém, as áreas internas devem receber cuidados como luz adequada para circulação ou iluminação homogênea de nível elevado nas araras e expositores, de forma que seja possível verificar a qualidade e o acabamento dos produtos. Mingrone e Esther lembram também que é essencial garantir boa iluminação nos setores de caixa e preenchimento de cheques, evitando ofuscamento, reflexos e efeitos que causem fadiga visual aos funcionários que passam ali horas seguidas.

Segundo Parschalk, um local bastante delicado é o provador, onde o cliente verifica se a roupa condiz com sua imagem. "Esse espaço exige o máximo de homogeneidade, para não gerar sombras e ofuscamento, que desvalorizam a fisionomia do cliente e a roupa", alerta. "Tecnicamente, é melhor usar iluminação do tipo camarim, com difusores por rebatimento que evitam sombras e reflexos e lâmpadas fluorescentes de nova geração, que garantem bom índice de reprodução de cores (IRC)."

Em escritórios, o projeto luminotécnico depende de uma série ainda maior de fatores, como layout, atividades realizadas, número de microcomputadores, quantidade de salas fechadas, tipos e cores de acabamento, entre outros. "Se o programa é previamente estabelecido pelo layout, a iluminação também deve ser vinculada a esse desenho. Mas no escritório do tipo landscape, onde se prevêem mudanças na disposição física e a ocupação é genérica, o melhor é trabalhar com uma média uniforme", diz Mingrone. O lighting designer Gilberto Franco entende que o melhor resultado aparece quando arquitetura e luminotécnica são desenvolvidos conjuntamente, independentemente do tip de escritório: "A integração dos projetos é fundamental", afirma.

Em termos técnicos, o ideal para escritórios é trabalhar com luz difusa e poucos contrastes. Mas isso não significa dar tratamento monocórdico ao conjunto. "Zonas diferenciadas, observando-se sempre as exigências das normas, tornam o espaço mais dinâmico e estimulante", completa Mingrone. Franco concorda. "Sempre é possível criar áreas diversificadas, em salas de espera ou de estar de uma empresa, por exemplo". Além da luz de trabalho, os escritórios que exigem grande interação necessitam de uma iluminação suave na face das pessoas. "Isso torna o ambiente mais agradável e melhora a comunicação", afirma Franco.

Parschalk dá algumas dicas que ajudam a evitar reflexos, contrastes e ofuscamento em escritórios. Acabamentos brilhantes, como tampos de vidro nas mesas, causam reflexos desconfortáveis e pisos escuros criam um contraste cansativo no campo da visão periférica, ele esclarece. A escolha de luminárias adequadas evita o ofuscamento da visão e os reflexos nos monitores: as de refletores parabólicos evitam o reflexo em um sentido; as duplo-parabólicas, em dois, tornando-se, portanto, ideais em projetos que exigem espaços flexíveis. Segundo o designer, luminárias de linhas lineares comprometem a flexibilidade do layout ambiental, impondo restrições. "As de formato quadrado e, principalmente, as circulares dão mais homogeneidade e simetria, facilitando as mudanças no escritório", ele completa.

No design, as luminárias devem colocar função e desempenho antes da estética. "Algumas luminárias bonitinhas só servem para disfarçar a falta de um trabalho de luz", diz Esther. É importante tomar cuidado na hora da escolha para evitar modelos que reproduzem originais, quase sempre estrangeiros. "Há fabricantes que copiam formas mas não outras qualidades do produto, como ótica, engenharia, cálculos, tipo de anodização, curvaturas que refletem ou dispersam a luz e a especificidade do material", alerta Parschalk.

Texto resumido a partir de reportagem
de Nanci Corbioli
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 255 Maio 2001

 
Área de estar na presidência da Bolsa de Mercadorias & Futuros, em São Paulo: ambientação intimista, definida
pela combinação de luz indireta e abajures com incandescentes comuns. Na sanca, fluorescentes de nova geração de 28 W,
que proporcionam o mesmo fluxo luminoso de uma de 32 W
e com economia de energia elétrica. O projeto é de Athié/Wohnrath e a luminotécnica, de Gilberto Franco
Foto: Andrés Otero
 
Salão social do Jockey Club paulistano: projeto de restauro
de Felippe Crescenti. A lighting designer Rosane Haron usou falsas clarabóias com fluorescentes de 32 W e 3 000 K, cercadas por PAR 38 com foco no centro da mesa. O contraste com o piso escuro dá mais brilho e glamour ao conjunto
sem ofuscar as pessoas. No contorno do ambiente, AR 111
Foto: Luís Fernando Macian
 
Escritório Paramount Têxteis, São Paulo: arquitetura
de Paula Mattar Arquitetos Associados e luminotécnica
de Guinter Parschalk. Para a área de circulação, spots
com halógenas dicróicas de 50 W e facho de 38o; no
escritório, as luminárias quadradas duplo-parabólicas empregam quatro lâmpadas fluorescentes tubulares de 16 W
Foto: Guinter Parschalk
 
Escritório do site What's Up, em São Paulo, projeto de interiores de Pileggi Arquitetura e luminotécnica de Rosane Haron. Luminárias com controle de ofuscamento e halógenas PAR 30 com IRC de 100% , recuadas em relação ao refletor de vidro translúcido, destacam o piso de resina brilhante que marca a circulação do conjunto, sem causar reflexos nem fadiga visual
Foto: Luís Fernando Macian
 
Arquitetura de interiores e iluminação desenvolvidas em conjunto no escritório da Alterbrain, de São Paulo, com projeto de Athié/Wohnrath e luminotécnica de Gilberto Franco. Cada luminária modulada pendente usa três lâmpadas fluorescentes de nova geração, de 32 W e 4000 K. Alinhadas com as mesas, elas fornecem iluminação indireta por rebatimento no teto. Suas chapas perfuradas criam luz difusa e homogênea que ilumina suavemente o rosto das pessoas, favorecendo a comunicação
Foto: Andrés Otero
 
Loja Häagen-Dazs, Shopping Center Iguatemi, São Paulo, arquitetura de Paula Mattar Arquitetos Associados e luminotécnica de Guinter Parschalk. A a homogeneidade
da iluminação geral é dada pelas luminárias especiais
de 70 cm x 80 cm que usam vidro jateado com projetor
e lâmpadas halógenas de 300 W. Nos spots, halógenas dicróicas Titan de 50 W e facho de 38 graus
Foto: Guinter Parschalk
 

REPRODUÇÃO E TEMPERATURA DA COR
Na escala de cores, vermelho e amarelo representam tonalidades quentes, enquanto o azul é uma cor fria. Mas se o assunto é a temperatura de cor das lâmpadas, o raciocínio é exatamente o contrário.

Segundo Guinter Parschalk, a luz de tom amarelado tem temperatura de cor mais baixa, sendo associada ao nascer e ao pôr-do-sol, momentos que marcam o início e o fim das atividades do dia. A luz branca azulada, de temperatura de cor mais elevada, corresponde à luminosidade do meio do dia e está relacionada aos períodos de maior produtividade. "Na Europa já é possível ver escritórios em que é feita uma composição de lâmpadas halógenas e fluorescentes.

Elas funcionam simultaneamente pela manhã. O dimmer vai diminuindo a halógena gradativamente até ficar somente a luz branca. No final do dia, a halógena volta. Isso significa um respeito ao relógio biológico e faz com que o funcionário se sinta bem no ambiente de trabalho e tenha bom rendimento profissional", explica. Quanto mais alto o Índice de Reprodução de Cores (IRC) de uma lâmpada, mais similar ao natural a cor vai parecer aos olhos humanos.

O IRC de 100% aparece nas halógenas e nas incandescentes, lâmpadas de alto consumo, grande dissipação de calor e baixo rendimento. As fluorescentes de nova geração têm IRC de 85%, o que é considerado satisfatório, enquanto as de vapor metálico apresentam IRC de 80%.

 
 

ETAPAS DE UM PROJETO
Esther Stiller trabalha com três parâmetros básicos que se aplicam a todos os seus projetos, mudando apenas o peso que cada um tem conforme as necessidades do ambiente e as expectativas do usuário:
1) O aspecto emocional, que inclui atração visual, é prioridade em espaços como lojas ou restaurantes.
2) O conforto visual - controle de reflexos, brilhos e ofuscamento, além de cuidados com contrastes - é fundamental em locais onde as pessoas permanecem por horas seguidas.
3) A economia de energia, que ganhou maior importância após a crise energética de 2001. Mas mesmo fora das crises, a conservação de energia é fundamental em projetos de maiores dimensões ou de grandes redes, de forma que o somatório do consumo tenha menor impacto no conjunto.

Compreender o universo do projeto
· Atentar para as condições de visão dos usuários
· A linguagem luminotécnica deve ser compatível com a arquitetura
· Observar restrições decorrentes de sistemas embutidos nos forros
· Observar restrições decorrentes das características do meio ambiente
· Av
aliar as condicionantes de custo de implantação e de operação

Conceber o sistema

· Conhecer as expectativas dos usuários
· Definir requisitos luminotécnicos segundo as funções exercidas em cada ambiente
· Utilizar recursos da informática para prever os cenários, com perspectivas de cada ambiente
· Definir os fachos luminosos que desenharão o cenário
· Checar a adequação dos fachos quanto aos requisitos luminotécnicos
· Checar a conveniência do custo unitário do equipamento ao custo global da obra
· Checar a eficácia do equipamento segundo requisitos operacionais
· Definir um repertório de equipamentos que possa ser aplicado em todo o projeto

Projetar o sistema

· Calcular o sistema somente depois de ter avaliado todas as questões anteriores

Acompanhar a implantação do sistema
· Etapa importante para que tudo saia conforme o esperado

Avaliar os resultados
· Conheça os erros e acertos na execução de um trabalho

QUESITOS BÁSICOS

1. Desenvolver um projeto atribuindo o devido peso a três fatores básicos: conforto visual, luminotécnica e economia de energia.

2. Avaliar se a quantidade de luz (iluminância, medida em lux) é adequada às atividades exercidas no ambiente

3. Promover a correta distribuição das iluminâncias no campo visual para garantir conforto ao usuário

4. Promover o controle de brilhos de fontes luminosas e superfícies iluminadas para não causar deslumbramento (excesso de brilho que reduz a capacidade visual) e evitar reflexões veladoras
(reflexo da lâmpada no papel ou na tela do computador)

5. Quando o projeto exigir contrastes de luz e sombra, cuidar para que haja uniformidade de luminância sobre superfícies de trabalho, como caixa de loja ou balcão de demonstração

6. Tomar cuidado ao trabalhar com contrastes e zonas de sombra

Fonte: Esther Stiller

Mais informações sobre lâmpadas e luminárias nos sites:
itaim.com.br lumini.com.br osram.com.br lalampe.com.br philips.com.br ge.com.br
 
veja também
  Premiação Iald 2001 - Os melhores projetos de iluminação segundo a Associação Internacional de Lighting Designers
  Ansorg - Showroom da Vitra, Clerkenwell, Inglaterra
  Bartenbach Lichtlabor - Iluminação de Agência Bancária, Áustria
  6º Lighting Design - São Paulo, 6 a 8 de novembro de 2000
  Premiação Iald 2000 - Os premiados pela Associação Internacional de Lighting Designers
  Neide Senzi e Plínio Godoy - Iluminação do Parque Hopi Hari
 
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