Interface Digital Endereçável para Iluminação

Torre João Salem

Cenas de iluminação por controle remoto
Os pontos de controle se comunicam por radiofrequência, tornando possível funções como ligar/desligar luminárias, dimerizá-las e até acionar cenas de iluminação por controle remoto
Sistema de iluminação digital sem fio
O projeto de luminotécnica da Torre João Salem optou por sistema digital de gerenciamento de iluminação sem fios, com protocolo de comunicação. Os reatores são dotados de microprocessadores inteligentes, que armazenam informações e possibilitam a dimerização, a criação de cenas e a redução de até 80% no consumo.

Entre as premissas que orientaram o desenvolvimento da proposta luminotécnica para a Torre João Salem, edifício da categoria triple A, localizado na avenida Paulista, em São Paulo (leia reportagem na seção Arquitetura desta edição), estão a eficiência energética, o conforto e a valorização dos ambientes, com aplicação dos recursos mais avançados de iluminação. O projeto, elaborado pelo escritório Mingrone Iluminação, levou em consideração os diferentes tipos de ambientes (pavimentos-tipo, andares dúplex e áreas comuns), já que o prédio tem diversas situações de entrada de luz natural, devido às fachadas, umas mais protegidas da luz solar, outras mais expostas.

De acordo com Antônio Carlos Mingrone, cada área teve uma abordagem distinta. “Onde a luz natural se mostrava aproveitável, a iluminação artificial foi projetada como um suplemento da primeira. No caso das áreas comuns sem disponibilidade de luz natural, foram empregadas soluções de iluminação de baixo consumo de energia, como leds e lâmpadas halógenas dicroicas de última geração”, explica.

No processo de especificação, a escolha recaiu sobre o sistema Interface Digital Endereçável para Iluminação (Dali, da sigla em inglês Digital Adressable Lighting Interface), da Osram, que atendia às exigências de um edifício triple A. Com o uso de tecnologia digital e sem fio, ele faz o gerenciamento de iluminação e permite total controle nos vários ambientes do prédio. Os pontos de controle se comunicam por radiofrequência, tornando possível o acionamento de diversas funções, como ligar e desligar luminárias, dimerizá-las, acionar cenas de iluminação e também persianas e cortinas.

Dessa maneira, a automação do prédio permite controle automático por meio de sensores que “avisam” quando há maior quantidade de luz natural, fazendo com que o sistema reduza o consumo das lâmpadas, com economia de energia. Nas áreas próximas às janelas, onde existe maior incidência da luz solar, pode-se programar o sistema para manter sempre o mesmo nível de iluminação no ambiente , reduzindo a quantidade de luz quando o sol estiver mais forte e aumentando-a quando estiver mais fraco.

ECONOMIA DE ENERGIA
O sistema permite obter uma redução significativa na energia elétrica gasta pela iluminação, além de um ganho adicional devido ao menor esforço do ar-condicionado, pois, com menos luz artificial, menor é o calor gerado. “Pode-se chegar a até 80% de economia global, se combinarmos ainda sensores de luz e de presença e a utilização de lâmpadas economizadoras, e levarmos em conta a facilidade de alteração de layouts das salas”, sugere Ricardo Benucci, gerente de produtos da Osram do Brasil.

Algumas das funcionalidades oferecidas pelo sistema Dali são o acionamento e desligamento de luzes, a dimerização e a criação de cenas, através de controle remoto e controles de parede. O usuário aperta o botão correspondente à função desejada, para, por exemplo, ligar as luminárias de determinado grupo ou acionar uma cena previamente armazenada para o ambiente. Dessa maneira um sinal de radiofrequência, conhecido como “telegrama”, é enviado à central de automação, propagando-se pelo ar, sem necessidade de fios.

Na Torre João Salem foram utilizados os reatores Dali integrados ao sistema de automação predial do edifício. Mas os prédios sem esse recurso podem usar a central de controle do próprio sistema. “Na verdade, o Dali é uma interface, um protocolo de comunicação. A principal característica é que cada reator é endereçado individualmente. É quase como se cada ponto de iluminação possuísse um IP ou endereço”, informa Benucci. Os reatores são dotados de microprocessadores embutidos, com inteligência e capacidade de armazenamento de informações. “Trata-se de um sistema de inteligência distribuída em cada ponto de iluminação - não numa central de controle -, que envia aos dispositivos os comandos de dimerização, criação de cenas e redução de consumo de acordo com a quantidade de iluminação natural, entre outras funções”, explica Benucci.

CABEAMENTO REDUZIDO
O sistema também reduz a necessidade de uso de fios e cabeamento, pois, como a iluminação é controlada pelo protocolo, os comando de liga/desliga e dimerização podem ser acionados através de um botão sem fio, que se comunica diretamente com a central. “Esses botões utilizam a tecnologia EnOcean e não necessitam de baterias ou pilhas, já que a potência necessária para enviar o sinal é gerada a partir da energia de apertar o botão”, acrescenta Benucci. Portanto, ele garante, o cabeamento é simples, necessitando apenas dos cabos de energia (fase, neutro e terra) e mais dois cabos de comunicação Dali, que não possuem polaridade e podem ser instalados sem sofrer interferências.

O fato de os reatores serem endereçados individualmente dispensa a definição de circuitos elétricos antes da instalação, pois isso será feito por meio de programação. A central de controle recebe o “telegrama”, identificando a função a ser acionada, e através do par de fios Dali envia de forma digital os comandos necessários para as cargas (equipamentos auxiliares do sistema conectados às luminárias). Cada carga, por sua vez, possui um endereço específico e inteligência localizada, que identifica se aquele comando enviado pela central de controle foi endereçado a ela ou não e, em caso positivo, realiza a tarefa especificada.

CONFORTO LUMÍNICO
Na Torre João Salem, a redução do consumo de energia elétrica, a possibilidade de dimerização e a criação de cenas foram pontos importantes para a especificação. “Esses eram os pressupostos estabelecidos pelo programa de necessidades sob o ponto de vista luminotécnico”, destaca Mingrone.

Hall de entrada
No hall de entrada, as luminárias Paul Henningsen, fabricadas pela Targetti Poulsen, na Dinamarca, embutem lâmpadas de multivapores metálicos, com tubos cerâmicos e temperatura de cor quente
Sistema adotado na torre João Salem
O sistema adotado na torre, que utiliza tecnologia digital sem fio, faz o gerenciamento de iluminação e permite total controle nos vários ambientes do prédio
Áreas de trabalho
As áreas de trabalho têm luminárias dotadas de lâmpadas fluorescentes compactas, mais eficiêntes em termos de economia de energia e níveis de iluminância requeridos pelo projeto
Sensores de luz
Sensores de luz detectam quando há maior quantidade de luz natural e enviam comandos para a central de automação, reduzindo o consumo das lâmpadas
Gráfico de consumo
Reator dimerizável do sistema DALI
O reator dimerizável do sistema DALI reduz a necessidade de cabeamento, pois funciona com sinais de radiofrequência que, enviados à central de automação, propagam-se pelo ar, sem necessidade de fios

Ele definiu o conforto lumínico necessário para a realização das tarefas dos usuários do edifício. “Consideramos em projeto não só o atendimento dos níveis de iluminância prescritos por norma, como também buscamos o equilíbrio correto de luminâncias diretas e indiretas, para a satisfação psicológica dos usuários, considerando a estética interior e exterior produzida por essa arquitetura”, destaca o engenheiro.

Os tipos de lâmpada especificados nos diversos ambientes, a temperatura da cor e o Índice de Reprodução de Cores foram parâmetros do projeto. Para os subsolos, a opção foi por luminárias blindadas e lâmpadas fluorescentes tubulares T8, com temperatura de cor fria (4 mil kelvins), ótimo índice de reprodução de cor e vida útil de 7,5 mil horas.

Já em locais como o hall de entrada, onde o ambiente deve ser aconchegante e ao mesmo tempo sereno, foram utilizadas luminárias pendentes, com design inusitado, dispostas no salão de pé-direito duplo. “Dotadas de lâmpadas de multivapores metálicos, com a nova tecnologia de tubos cerâmicos e temperatura de cor quente - 3 mil kelvins -, possuem boa reprodução de cores e maior estabilidade da tonalidade de cor ao longo de sua vida útil, de 12 mil horas”, explica Mingrone.

SISTEMAS FLEXÍVEIS
Na sala de reuniões do térreo, Mingrone adotou dois sistemas diferentes, que flexibilizam a utilização do espaço. Para reuniões de caráter mais formal, o projeto especificou a luminária com lâmpadas fluorescentes tubulares T5 (temperatura de cor fria de 4 mil kelvins), alta eficiência energética (104 lm/ W) e vida útil de 18 mil horas. Nas reuniões informais, indicou luminárias discretas com lâmpadas dicroicas (3,1 mil kelvins), com nova tecnologia economizadora de energia, menor emissão de calor e vida útil mais longa, de 4 mil horas.

Os halls de elevadores de cada pavimento contam também com dois sistemas. O de luminárias embutidas no teto, dotadas de lâmpadas dicroicas (3,1 mil kelvins) com facho fechado (24 graus de abertura), e os projetores embutidos no piso com leds, na cor branca, que proporcionam uma iluminação cenográfica, além de ser uma solução com baixíssimo consumo de energia. “Em horários de menor fluxo de pessoas, apenas os projetores com leds podem permanecer acesos”, diz Mingrone.

Nos pavimentos-tipo, as áreas de trabalho têm luminárias apropriadas, com lâmpadas fluorescentes compactas longas, mais eficientes em termos de economia de energia e níveis de iluminância requeridos, com temperatura de cor fria (4 mil kelvins), que proporcionam um ambiente adequado ao trabalho de longa permanência, mantendo o estado de atenção. Nos sanitários, há luminárias com lâmpadas dicroicas (3,1 mil kelvins), economizadoras de energia, com 4 mil horas de vida útil, compondo um ambiente mais casual.

SOFTWARE DE DIMENSIONAMENTO
De acordo com Migrone, o dimensionamento luminotécnico dos ambientes da Torre João Salem foi feito a partir da aplicação de software específico, visando o atendimento das particularidades de cada um. Isso determinou a especificação das diferentes luminárias e suas respectivas fontes de luz.

Outra preocupação do projeto era evitar o ofuscamento direto e o indireto nas salas, que serão ocupadas por distintos tipos de usuários, pois os conjuntos estão destinados à locação, o que implica diferentes tipos de empresas com variadas opções de layout. “As luminárias especificadas são as verdadeiras responsáveis por garantir um excelente grau de controle para evitar o ofuscamento direto. Quanto ao indireto, o ideal é evitar superfícies altamente reflexivas, para que não se criem condições desfavoráveis nesse aspecto”, recomenda Mingrone.

Entre as soluções de maior impacto no projeto de luminotécnica, Mingrone destaca a iluminação adotada no hall de entrada do prédio, onde foram utilizadas luminárias desenhadas por Paul Henningsen, fabricadas pela Targetti Poulsen, da Dinamarca. “As fachadas, tão particularmente concebidas pela arquitetura, de acordo com suas diferentes orientações, mereceram também tratamento diferenciado, com o uso de aparelhos de iluminação da Philips, dotados de leds de grande intensidade luminosa, que à noite dão forma aos contornos da torre.”


Texto de Heloisa Medeiros
Publicada originalmente em FINESTRA
Edição 57 Junho de 2009