Avenida Berrini

Da pré-invenção à reinvenção em menos de 40 anos

Eco Berrini, desenhado pelo escritório Aflalo & Gasperini. Uma fração da torre ocupa lote surgido da implosão do prédio de Bratke e remembrado a outro, em sua lateral
Eco Berrini, desenhado pelo escritório Aflalo & Gasperini. Uma fração da torre ocupa lote surgido da implosão do prédio de Bratke e remembrado a outro, em sua lateral
Avenida Berrini, da pré-invenção à reinvenção em menos de 40 anos
No texto “Círculo de giz”, publicado em PROJETO DESIGN 139, de março de 1991, a arquiteta Ruth Verde Zein afirmava que a avenida Luís Carlos Berrini, na zona sul de São Paulo, fora pré-inventada na década de 1970. Passadas menos de quatro décadas da gênese da via - o mais recente centro de expansão comercial da capital -, talvez se possa afirmar que, antes de finalizada, a Berrini começa a ser reinventada.

Um dos primeiros exemplos desse fenômeno de reinvenção da avenida é o edifício Eco Berrini, que está sendo erguido no local. O empreendimento, que terá área construída superior a 50 mil metros quadrados, foi projetado pelo escritório Aflalo & Gasperini Arquitetos. Com 35 andares, deve marcar indelevelmente o skyline da região, onde há anos os prédios parecem enfrentar-se na disputa pela atenção das empresas e pelo olhar dos transeuntes.

De propriedade da Prosperitas Investimentos, uma gestora de fundos de crédito privado e private equity, a torre é do tipo AAA, classificação que o mercado imobiliário utiliza para designar construções que oferecem alto padrão de conforto e tecnologia, aliado a lajes de grande extensão - os andares-tipo do Eco Berrini ultrapassam os 1,5 mil metros quadrados de área. Faces envidraçadas com marcação horizontal definem, em linhas gerais, a plástica da edificação, que, num recorte em seu coroamento, contará com um jardim.

Esse episódio da reinvenção da Berrini está se dando sobre as cinzas de outra construção, numa espécie de autofagia urbana. A justificativa para isso é que alguns edifícios, embora nem tão antigos, não mais oferecem a estrutura predial e tecnológica demandada pelas grandes corporações. No caso do Eco Berrini, um pedaço de seu corpo ergue-se sobre o lote surgido da implosão, em fevereiro de 2008, de um prédio projetado em 1980 pelo arquiteto Carlos Bratke e originalmente ocupado pela sede da Philips do Brasil.

Na edição de número 62, de abril de 1984, a revista PROJETO DESIGN publicou reportagem sobre o edifício. O texto dizia que, de início, o empreendimento não estava destinado a uma empresa específica. No entanto, a Philips adquiriu-o quando era ainda um esqueleto estrutural, com a intenção de instalar ali sua sede. Para isso, levou em conta tanto a localização quanto as condições físicas do edificação. Condições físicas que, como se pode discutir agora, tornaram-se obsoletas em menos de 30 anos.

O edifício Eco Berrini, que está sendo construído pela Hochtief do Brasil, tem sua conclusão prevista para o final do ano de 2010. Durará 40 anos? Afinal, como escreveu o cantor e compositor Caetano Veloso, na letra da canção “Fora da ordem”, “aqui tudo parece que era ainda construção e já é ruína”.



Texto de Adilson Melendez
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 358 Dezembro de 2009
O edifício ocupado pela administração da Philips do Brasil foi projetado por Carlos Bratke em 1980 e implodido no primeiro semestre de 2008