Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas

A fim de adequar a tradicional feira nordestina, prefeitura carioca retoma obra no Pavilhão São Cristóvão conforme projeto cenográfico controverso

Reforma cobrirá com lona fachada de pavilhão projetado por Bernardes
Devidamente paramentado com chapéu de vaqueiro e metido numa fantasia de boi-bumbá, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, anunciou no final de janeiro o início das obras de reforma do Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, em São Cristóvão. O espaço é considerado pela prefeitura um dos equipamentos culturais mais importantes da cidade.

A prefeitura informou que investirá nas obras 11,6 milhões de reais. Entre as intervenções, estão previstas melhorias na infraestrutura, a cobertura das ruas internas por lonas e a construção de um anfiteatro junto à praça dos Repentistas. A fachada do pavilhão também vai mudar: será recoberta por um painel de lona com desenhos inspirados nas rendas do Nordeste.

O cenógrafo João Cardoso, da TV Globo - que é parceira do município na revitalização do espaço -, informou ter buscado para o projeto ícones fortes da região, “algo que também tivesse relação com o Rio de Janeiro e com a importância do Centro de Tradições Nordestinas para a cidade”. Essa é uma das razões para que a cobertura dos palcos lembre a forma de um chapéu de boiadeiro.

Antes de tornar-se o espaço dos nordestinos no Rio, o equipamento era conhecido como Pavilhão São Cristóvão, empreendimento privado construído no final dos anos 1950, a partir de projeto do arquiteto Sérgio Bernardes. Anteriormente à inauguração do Riocentro, na década de 1970, era ali que se realizavam as grandes exposições na capital fluminense. Quando o palco desse tipo de evento se deslocou para a Barra da Tijuca, o pavilhão entrou em declínio e fechou.

Até que, em 2003, o prefeito César Maia resolveu transferir para lá a feira nordestina que ocorria nas ruas próximas. Inicialmente, porém, cogitou-se implantar ali um empreendimento com centro de convenções, hotel, estacionamento e shopping center. Notícia sobre o tema, com o título “Sérgio Bernardes revisitado”, foi publicada por PROJETO DESIGN na edição 243, de maio de 2000. “As obras não deverão interferir na linha arquitetônica da edificação”, informava o texto, acrescentando que elas seriam realizadas com a supervisão do próprio Bernardes. A proposta não foi adiante.

Para acolher o Centro Luiz Gonzaga, o Pavilhão São Cristóvão foi reformulado tomando como base projeto do escritório Archi 5, do Rio de Janeiro. “Misto de restauro do modernismo e arquitetura social - tivemos que realizar assembleias com mais de 400 barraqueiros nordestinos -, o projeto nos dá muito orgulho”, diz o arquiteto Bruno Fernandes, sócio do estúdio. Ele observa, no entanto, que a intervenção recebeu contribuições que considera espúrias. “E que nos irritaram muito, como, por exemplo, o chapéu de vaqueiro nordestino e o chapéu de cangaceiro nos palcos”, exemplifica. “Tomara que tirem”, torce. Pelo andamento do boi-bumbá, o arquiteto vai ter motivo para novamente se agastar.



Texto de Adilson Melendez
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 373 Março de 2011
Na atual proposta de revitalização, a fachada do pavilhão será recoberta por painel cenográfico alusivo às rendas nordestinas
Na atual proposta de revitalização, a fachada do pavilhão será recoberta por painel cenográfico alusivo às rendas nordestinas
Face externa do Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, no Rio de Janeiro, conforme projeto do escritório Archi 5
Face externa do Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, no Rio de Janeiro, conforme projeto do escritório Archi 5