Mansão Matarazzo

Desenhado por Aflalo & Gasperini, edifício com escritórios e shopping center deve finalmente ocupar o disputado terreno na Avenida Paulista

Equipamentos de sondagem estacionados no lote onde deverão ser construídos o shopping e a torre de escritórios
Equipamentos de sondagem estacionados no lote onde deverão ser construídos o shopping e a torre de escritórios
Alvará da prefeitura libera shopping e torre no terreno da mansão Matarazzo
Em vez de automóveis, como até semanas antes, máquinas e equipamentos para sondagem espalhavam-se, nos últimos dias de abril, pelo terreno da avenida Paulista, 1230, em São Paulo. Nada, porém, que permitisse identificar o que seria construído no local, um amplo estacionamento que, como sabe boa parte dos paulistanos - pelo menos os mais maduros e atentos -, um dia abrigou a suntuosa moradia do clã Matarazzo.

A movimentação naquela meia quadra, se não confirma, ao menos indica que começariam a ser construídos no terreno a Torre Matarazzo e o shopping Cidade de São Paulo, complexo concebido em conjunto pelas empresas Camargo Corrêa Desenvolvimento Imobiliário (CCDI) e Cyrela Comercial Properties. A assessoria de comunicação da CCDI assegura, no entanto, que não existe prazo para o início das obras.

A informação de que se implantaria ali o empreendimento já era conhecida, pois a intenção das empresas fora anunciada no final de 2006, quando adquiriram o terreno de 13 mil metros quadrados dos descendentes da família Matarazzo. Mas a notícia de que a prefeitura concedera o alvará para a execução foi publicada inicialmente na edição de 28 de março do jornal O Estado de S. Paulo, em reportagem de Patrícia Cançado, intitulada “Um terreno nobre e enroscado”.

O projeto arquitetônico do conjunto é do escritório Aflalo & Gasperini. Se não passou por novas mudanças, o prédio comercial deverá ter 13 pavimentos e será integrado a um shopping center com cinco pisos e sete subsolos de garagem (cerca de 1,6 mil vagas).

O nome da família que morou no imóvel antes ali existente foi mantido no batismo da torre de escritórios. Mas da residência nada restou - construída em 1896 e demolida em 1996, ela a rigor nunca despertou maior interesse arquitetônico, ainda que seu tombamento tivesse sido cogitado e que a ex-prefeita Luíza Erundina manifestasse, nos primeiros anos de seu mandato (de 1989 a 1993), a intenção de transformá-la no Museu do Trabalhador.

Revista Projeto nº 121Artigo: tentativa de implodir a mansão era “ato de barbárie” contra o patrimônio
Artigo na revista: tentativa de implodir a mansão era “ato de barbárie” contra o patrimônio

Entre os que cerravam fileiras pela preservação estava Ayrton Camargo da Silva, então arquiteto da Companhia do Metropolitano. Na edição 121, de maio de 1989, PROJETO DESIGN publicou o texto “Patrimônio cultural: impunidade e corporativismo”, no qual Camargo da Silva argumentava que o episódio da mansão (a família tentara, meses antes, implodir a residência) era a síntese de outros atos de barbárie cometidos contra o patrimônio cultural.

Além de informar sobre a concessão do alvará, a reportagem de O Estado de S. Paulo relata a existência de um conflito jurídico entre membros da família Matarazzo (que teriam recebido 40% do valor combinado no ato da venda; os outros 60% seriam pagos em área construída) e os empreendedores, motivado, sobretudo, pelo atraso na conclusão das obras. A disputa promete ir longe.

Texto de Adilson Melendez
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 376 Junho de 2011