| |
| Nem
museu, nem centro cultural |
|
|
 |
Com a transferência
da sede da Prefeitura de São Paulo para o edifício
Patriarca, no centro da cidade, o Palácio das Indústrias,
que hoje abriga
o gabinete da prefeita, será repassado à
Anhembi Turismo e Eventos. A empresa municipal pretende
transformar a edificação num misto de centro
de exposições e de artes, talvez anexando
a vizinha Casa das Retortas.
“O Palácio das Indústrias será um
local para exposições mais glamurosas ou
delicadas”, diz o arquiteto Marcelo Ferraz, que, junto
com André Vainer e Marcelo Suzuki, está
trabalhando no projeto para alterar a atual ocupação
do histórico prédio. De certa forma, a edificação
retoma seu objetivo original.
Projetada por Domiziano Rossi (do escritório Ramos
de Azevedo) para abrigar exposições de produtos
agrícolas e industriais, a construção
dos anos 1920 é exemplo da arquitetura eclética.
Em 1947, foi ali instalada a Assembléia Legislativa,
que ficou no local por 21 anos.
Na década de 1970, plena ditadura militar, o palácio
foi ocupado por repartições da Secretaria
de Segurança Pública. |
| |
|
Em 1992, a então prefeita Luíza
Erundina transferiu para a região do parque D.
Pedro II a sede da administração municipal,
que até então ocupava um edifício
no parque Ibirapuera. Para isso, a arquiteta Lina
Bo Bardi - junto com Ferraz, Vainer e Suzuki - desenvolveu
um amplo projeto que compreendia a restauração
do Palácio das Indústrias. Planejado para
sediar a prefeitura, o conjunto não teria o funcionamento
adequado sem o anexo projetado, que não foi construído.
Na edição 138, de fevereiro de 1991,
a revista PROJETO publicou o trabalho, sobre o qual
Lina escreveu: “Este projeto credencia o Palácio
das Indústrias a ser um pouco de tudo aquilo
que numa capital é maior, mais poético
(grandes espaços, praças verdes parcialmente
a céu aberto, loggias quatrocentescas que serão
teatros e espaços de reuniões) e, em proporção,
menos caro e mais animado”.
A má vontade do prefeito seguinte, Paulo Maluf,
com o local e o desvirtuamento de seu uso emperraram
a seqüência da construção.
Um auditório capaz de acomodar 400 pessoas
foi transformado em área de trabalho com
divisórias: o chefe de uma seção
tinha como sala a cabine de som de tradutores.
A cozinha - “com estrutura semelhante à
do Sesc Pompéia”, afirma Ferraz - nunca foi utilizada.
O sucessor de Maluf, Celso Pitta, igualmente nada fez
para implementar o projeto de Lina.
A atual prefeita, Marta Suplicy, também
não tem maior simpatia pelo edifício,
que está localizado numa área degradada,
embora tenha sido um belíssimo parque no início
do século XX.
Tanto que, no início do ano passado, chegou a
consultar o arquiteto Isay Weinfeld sobre mudanças
para melhorar as condições de trabalho
no local.
A Anhembi imagina para o local eventos e exposições
relacionados à moda e ao design. A expectativa
é que o conjunto esteja funcionando entre o final
de 2002 e início de 2003.
Texto editado a partir de reportagem e pesquisa
de Adilson Melendez
Publicada originalmente na revista PROJETODESIGN
Edição 265 Março 2002
|
|
|
 |
| Palácio das Indústrias:
uso inadequado em três administrações |
| |
 |
| Vista do Palácio
e do Parque D.Pedro II no início do século
XX. Abaixo, a maquete do projeto de Lina Bo, com o edifício
anexo |
| |
 |
O Projeto
(Um texto de Lina Bo Bardi sobre a renovação
do Palácio das Indústrias)
"A idéia fundamental do projeto
da Sede da Nova Prefeitura de São Paulo
no Parque D.Pedro II é a rigorosa preservação
dos caracteres peculiares do edifício
do Palácio das Indústrias, isto é: a
típica Arquitetura Eclética que marcou
a constituição da Itália em "Regno lndependente",
de 1870 até os anos 20, que se seguiram
à I Guerra Mundial.
Esta arquitetura foi chamada de Arquitetura
Eclética pelo relançamento de todos
os estilos arquitetônicos, que vão desde
a Antiguidade Egípcia até a Idade Média,
até a Renascença, até o Barroco, o Neoclassico,
até se constituir num ecletismo que
serviu à construção de fábricas e quartéis,
estações ferroviárias, grandes mansões
e pequenas "villettas" e bairros inteiros
de cidades como Roma, Florença, Nápoles,
enfim, da Itália inteira, de Turim até
o extremo sul do país. O Palácio das
lndústrias resume este curioso e interessante
período da atividade arquitetônica do
"Novo Regno de Itália", com suas merlas,
"loggias", torreões, fontes etc.
Enfim, o Palácio das lndústrias é "gracioso",
representa bem uma época importante
para São Paulo, com suas inserções americanas
(as simpáticas vacas no lugar dos leões
campantes, o que é notável e original,
dando uma nota exótica e um pouco dissonante),
e merece bem uma rigorosa atenção na
concepção da Nova Grande Prefeitura
de São Paulo, que o insere com respeito
e dignidade no importante limite do
Parque D. Pedro II com o Brás.
Foi usado para a restauração do Palácio
das Indústrias e sua ambientação urbanística
na nova área do Parque D. Pedro II,
o método da "Restauração Científica",
que permite agir no mundo da Modernidade
com o rigor e o respeito pela História
do Trabalho dos Homens." |
|
|
|
|