Fantasma urbano
No número 1411 da rua da Consolação, São Paulo, no centro do terreno hoje ocupado por um estacionamento, o mato na grande cratera esconde as fundações daquele que deveria ter sido o edifício-símbolo do Grupo Fenícia. Dessa corporação fez parte, em determinada época, a indústria de alimentos Etti, mas a sua face mais visível é a Arapuã, conhecida rede de lojas de eletrodomésticos.

Prédios inacabados, com estruturas ou obras semi-abandonadas, são comuns em São Paulo - e alguns desses esqueletos longevos foram, de certa forma, até assimilados à paisagem da capital. A sede do TRT-Tribunal Regional do Trabalho, por exemplo,
é célebre por sua trajetória associada à corrupção.

Outras obras inacabadas, apesar de não carregarem estigma tão negativo, representam incômodo urbano. Inclui-se aí aquela que seria a sede da concessionária de energia Eletropaulo, na marginal do rio Pinheiros.
 

Menos comum é que situações dessa natureza ocorram em conjuntos comerciais ou em sedes de empresas, como no prédio do Grupo Fenícia.
A construção, cuja frente volta-se para a rua Bela Cintra, foi abandonada em fase preliminar.
Ela seria destinada ao teatro-auditório, um dos pontos integrantes do ambicioso projeto elaborado pelos arquitetos Tito Lívio Frascino e Vasco de Mello, mostrado na edição 103 de PROJETO, em setembro de 1987, na reportagem intitulada “Solidez numa linguagem arquitetônica durável”. Decorridos 15 anos da publicação, deve-se lamentar que o trabalho não tenha ido adiante: ainda hoje, a proposta formal do conjunto exibe qualidade superior a dezenas de outros construídos em anos recentes.

Tito Lívio conta que os mais de 30 mil m2 de área construída prevista já eram uma proposta mais modesta em relação à idéia original do grupo, que planejara construir um complexo administrativo na marginal do rio Tietê, onde posteriormente foi erguido um hipermercado.

Marcantes no edifício projetado eram os brises desenhados em diagonal na fachada oeste, para proteger o prédio da insolação. Frascino recorda que o desenho - “um tapa-olho” - também atendeu a um pedido do proprietário do grupo, Jorge Simeira Jacob, que não desejava que o prédio tivesse uma de suas faces completamente aberta para o Cemitério da Consolação, situado do outro lado da rua.

Superstição? A verdade é que o brilho ostentado pelo grupo durante boa parte dos anos 1980 veio sendo progressivamente empanado a partir da segunda metade da década passada. Sua principal empresa, a Arapuã, perdeu o viço, enfrentando problemas financeiros que a levaram à concordata.

O terreno hoje é arrendado por uma rede de estacionamentos, mas continua sendo de propriedade da Arapuã, para quem foi adquirido pelo engenheiro Marco Antônio Simões de Oliveira, diretor-superintendente da Construtora Lotus, uma das empresas remanescentes do Grupo Fenícia.

Por ironia, defronte a um cemitério, a estrutura e as fundações assemelham-se a uma gigantesca sepultura violada.

Texto resumido a partir de reportagem
de Adilson Melendez
Publicada originalmente na revista PROJETODESIGN
Edição 269 Julho 2002

 
A sede do Grupo Fenícia foi projetada na década
de 1980 por Tito Lívio e Vasco de Mello
 
Em 2002, construção abandonada e terreno
arrendado para rede de estacionamentos
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