"...Para o meu amor passar"
Até meados dos anos 1980, a avenida Paulista, em São Paulo, concentrava as sedes das principais empresas que operavam no país e, assim, figurava como ícone do capitalismo brasileiro.
Mas, mesmo a famosa avenida não ficou imune à perversa lógica do mercado imobiliário, que foi deslocando o pólo empresarial para outras regiões paulistanas.

Durante a década passada, empresas e profissionais liberais fundaram a Associação Paulista Viva, organização que tem como objetivo evitar o abandono da região e reafirmar sua importância na história e no futuro da cidade.

Entre as realizações da Paulista Viva, uma das que tiveram maior repercussão foi a promoção de um concurso de idéias para o redesenho da avenida, com o intuito de melhorar sua qualidade urbana.
O arquiteto José Magalhães foi o vencedor.
 

No primeiro semestre de 2002, na esteira de
uma série de reportagens de tevê que apontavam os problemas urbanos da avenida, a Paulista Viva, estimulada pela prefeita Marta Suplicy, encampou a idéia de realizar votação entre os freqüentadores do local para eleger um novo tipo de piso a ser implantado nas calçadas da Paulista.

Tanto o paisagismo quanto o mobiliário urbano original possuem projetos específicos, assinados por profissionais respeitados. Foram parceiros no trabalho, no início dos anos 1970, a arquiteta
Rosa Grena Kliass
e o escritório Cauduro e Martino. Em ensaio-crônica sobre a avenida publicado
em PROJETO 78, de 1985, com o título “E afinal o que é, hoje, a avenida Paulista?”, a arquiteta e crítica Ruth Verde Zein, refere-se a ele com sutileza: “Tomando-se o meio da avenida [...] pode-se numa mirada de 360 graus, num raio de poucas dezenas de metros, encontrar de tudo: [...]. Além da profusão de fios, postes, pinus caudurensis e vasos de Rosa estratégicos na vã tentativa de mudar hábitos de pedestres”.

Voltemos a 2002. Entre os materiais colocados para a votação popular, o piso de blocos intertravados de concreto em tons natural, grafite e salmão saiu vencedor, com 803 votos. O mosaico português, piso atual, não estava entre as opções oferecidas aos eleitores. A arquiteta Rosa Kliass, contrária à escolha, protestou junto à prefeita. Seu colega, João Carlos Cauduro não considera adequado o piso escolhido na votação popular. “Trata-se de material indicado para áreas planas, sem interferências”.

Em meados de agosto, a assessoria de imprensa da Sempla-Secretaria Municipal de Planejamento informou que, por causa de cortes orçamentários,
um relatório indicaria mais à frente quais seriam as prioridades da avenida. A tendência da secretaria, porém, parece ser pela recomposição do piso original, um sinal de respeito aos autores.
Mas como se sentirão aqueles que votaram pela mudança nas calçadas da avenida?

Texto resumido a partir de reportagem
de Adilson Melendez
Publicada originalmente na revista PROJETODESIGN
Edição 271 Agosto 2002

 
Avenida Paulista, na calçada oposta à do Masp.
Trabalho em parceria de Rosa Kliass e Cauduro e Martino
 
José Magalhes, Martha Suplicy e Baeta Neves (Paulista Viva)
no dia da votação sobre o novo piso para a av. Paulista
Foto: Isabela Martini
 
A proposta mais votada, que gerou protestos
de Rosa Kliass e Cauduro
Foto: Isabela Martini
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