Conseguirá a arquitetura redimir a triste história do Fórum Trabalhista?
A imagem do inacabado edifício do Fórum Trabalhista de São Paulo, situado na Barra Funda, zona oeste da capital, permanecerá por muitos anos vinculada à figura do juiz aposentado Nicolau dos Santos Neto, preso na Polícia Federal em São Paulo, acusado de desvio de parte do dinheiro destinado às obras do prédio.

O fantasma do edifício - emblema de práticas condenáveis na administração pública - atormentou durante cerca de quatro anos a administração federal e o próprio TRT, sem que
se conseguisse exorcizá-lo. Sem crucifixo nem água benta, mas com o passado de ex-funcionário do Banco do Brasil e uma carreira de mais de duas décadas como juiz trabalhista, Francisco Antônio de Oliveira - que até meados de setembro presidiu o TRT paulista - candidatou-se à tarefa.

E no início de setembro de 2002 as obras do complexo foram reiniciadas. Se mantido o cronograma, deverão estar concluídas até 2004.
 

O atraso, nesse caso, terá sido de “apenas” oito anos - a previsão era que o fórum estaria pronto em 40 meses, quando reportagem sobre ele foi publicada na edição 158 de PROJETO, em outubro de 1992. Sob o título “Um projeto pioneiro na área da Justiça”, o texto informava que a proposta dos arquitetos Décio Tozzi e Karla Albuquerque seria implantada em terreno de 12 mil m2, dividido em dois blocos com 18 andares, quatro subsolos e cobertura. “O hall central, concebido como elemento integrador de todas as funções do fórum, constitui-se na praça da Justiça, arborizada e com luz natural”, descrevia.

A matéria continha ainda observação do próprio juiz Nicolau dos Santos Neto, a respeito da existência de 20 juntas de primeira instância aprovadas que não funcionavam por falta de espaço.
Na concorrência
, a Incal Incorporações superou 28 concorrentes. Agora, as obras serão realizadas pela Construtora OAS, que venceu concorrência com o preço de R$ 54,9 milhões - pouco mais de 1/3 do que se apurou como serviços superfaturados e desvio de verbas na etapa interrompida em 1998.
Os trabalhos serão seguidos por uma equipe de engenharia do Banco do Brasil e por assessores da Comissão de Acompanhamento de Obras do TRT.
É nítida a preocupação do tribunal em tornar transparente o processo da nova construção.
Em seu site (www.trt02.gov.br), estão disponíveis diversas informações sobre a obra, incluindo dados sobre a concorrência, orçamentos etc.

Para o arquiteto Décio Tozzi, a arquitetura pode contribuir no sentido de redimir a fatídica história do complexo. Durante cerca de seis meses, Tozzi fez ajustes no projeto para que a nova concorrência fosse realizada. Além disso, ele acompanhará a execução.

Por fim, um alerta: O TRT ocupa hoje cinco edifícios na área central de São Paulo, três deles próprios. Ainda que não possuam maior relevância arquitetônica, em um momento em que o centro de São Paulo procura recuperar o brilho perdido, é bom também chamar a atenção para o fato de que eles talvez mereçam um destino diferente de apenas engrossar a lista de prédios desocupados na região.

Texto resumido a partir de reportagem
de Adilson Melendez
Publicada originalmente na revista PROJETODESIGN
Edição 272 Outubro 2002

 
Maquete do projeto de Décio Tozzi e Karla Albuquerque (1992)
 
 
Perfil das torres inacabadas, na região da Barra Funda,
região central de São Paulo.
Obras foram retomadas em setembro de 2002
veja também
  Aflalo & Gasperini, 40 anos - Fundado em 1962, o escritório completou 40 anos com a energia de dois jovens de 20
  Vergonha na fachada do Crea-SP - Logotipo gigante na fachada do edifício aumenta a poluição visual e o caos urbano
  Urbanismo - Votação popular é contestada na renovação urbana da av. Paulista
  Sesc Pompéia, 20 anos - Projeto tornou-se paradigma da arquitetura para o lazer
  Sede do Grupo Fenícia - O fantasma do projeto jaz em São Paulo
  A triste história de mais um concurso: desta vez em Votorantim -
 
patrocínio   informe publicitário
     
Índice Notícias Agenda Fórum Envie por e-mail