Crea, cruz credo!
No primeiro semestre deste ano, a Emurb - Empresa Municipal de Urbanização, de São Paulo, realizou concurso público de projeto para reordenar e recuperar o Largo da Batata, situado na zona oeste da capital paulista, em trecho da valorizada avenida Brigadeiro Faria Lima.

Pedestres, ambulantes, barracas, veículos e ônibus disputam espaço no local, que, como quase toda a cidade, depara-se ainda com um grave quadro de poluição visual.

No concurso, a equipe liderada pelo arquiteto Tito Lívio Frascino venceu a competição. Caso o cronograma traçado pela prefeitura seja cumprido, nos primeiros meses de 2003 serão iniciadas as obras.

Vizinha ao largo, na própria avenida, está a sede regional do Crea-Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia, responsável por regulamentar e fiscalizar o trabalho dos arquitetos, entre outros profissionais.

Há cerca de três meses, em meio àquele caos urbano, a construção chama a atenção de quem passa por ali. A empena lateral do prédio recebeu um enorme outdoor com o logotipo da entidade, o que, por um lado, facilita sua identificação, mas, por outro, contribui decisivamente para agravar a poluição visual.
 

Além de incômodo à visão, o gigantesco banner acentua o triste quadro da fachada principal do edifício. Essa condição já havia sido diagnosticada no início da década de 1990. Foi nesse período que o Crea, então presidido pelo engenheiro João Abukater Neto, realizou, em conjunto com o IAB-SP, concurso para o tratamento plástico externo do prédio.

Na edição 159 (dez.1992), PROJETO informava que a arquiteta Xênia Pires Hauk, de Santo André-SP, tivera seu projeto escolhido pelo júri. “Pensei numa linha pós-moderna, mais high-tech, que remetesse
à concepção de coisa industrializada”, afirmava Xênia a respeito de seu trabalho.

A arquiteta também supunha que o novo visual ajudaria a identificar o edifício com a futura urbanização do largo da Batata. “Aprovei o projeto na prefeitura e desenvolvi o executivo”, informa Xênia, que continua a conciliar arquitetura e artes plásticas.

Ela recorda que acordos de doação de materiais
(estrutura, alumínio, concreto) foram fechados, mas, com a troca de presidente na entidade, o trabalho caiu no esquecimento. A atual fachada não é pós-moderna, muito menos high-tech - mas continua deteriorada.

E a “descoberta” da lateral como um outdoor não melhora a imagem. Na opinião do arquiteto Rogério Batagliesi, do escritório Batagliesi & Associados, esse uso do espaço "é uma imensa estupidez..

O outdoor não apresenta proporção, não leva em consideração o espaço urbano e demonstra, mais uma vez, a incompetência do Crea”, afirma. Para Batagliesi, que integra o Fórum da Paisagem, representando a ADG - Associação dos Designers Gráficos e a Asbea - Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura, o Crea-SP, em vez de colaborar com a recuperação urbana, agride a cidade com a intervenção.

Professor do Departamento de Projeto da FAU-USP, na disciplina programação visual, o arquiteto Minoru Naruto, que atuou como consultor no concurso de 1992, também condena a iniciativa da seção paulista do conselho. “O outdoor interfere de maneira significativa na fruição da paisagem”, avalia Minoru.

Quanto ao Crea-SP, fizemos várias tentativas de contato, sem sucesso. Continuamos aguardando.

Texto resumido a partir de reportagem
de Adilson Melendez
Publicada originalmente na revista PROJETODESIGN
Edição 273 Novembro 2002

 
 
Empena lateral do edifício do Crea-SP, usada como outdoor
 
Tratamento proposto por Xênia Pires Hauk para a sede do Crea-SP: projeto escolhido em concurso realizado em 1992
 
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