Há 15 anos, o Rio já tinha
planos para a sua zona portuária
Ascensão, apogeu e decadência.
Em geral, essa tem sido a história das civilizações. Com as cidades, esse roteiro parece se repetir. Dentro delas, determinadas regiões exibem as cicatrizes desse fenômeno de forma mais rápida e contundente. É o caso do centro de São Paulo, que entrou em colapso nos anos 70 e hoje exige enorme grande público e privado para sua recuperação.

A situação não é muito diferente nas imediações da zona portuária no Rio de Janeiro, onde os antigos armazéns são hoje testemunhas de um passado dinâmico e glorioso. Desocupados, alguns desses prédios têm sido utilizados na montagem dos carros alegóricos das escolas de samba. Outros, mais próximos da linha do mar, são ainda empregados nas atividades portuárias. Um deles passou por mudanças e vem sediando atividades culturais, informa o arquiteto Antônio Correa, diretor da Divisão de Urbanismo do IPP-Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos.
 

Entra governo, sai governo, surgem propostas para recuperar aquela região. Uma das mais recentes foi desenvolvida já na atual gestão do prefeito César Maia, sob a chancela do IPP. Coordenado pelos arquitetos Augusto Ivan de Freitas Pinheiro, à epoca diretor de Urbanismo, e Nina Maria de Carvalho Rabha, o Plano de Revitalização da Área - Porto Rio tem como objetivos a valorização do patrimônio cultural da região, a requalificação de seus espaços urbanos, a melhoria do acesso e sua reativação econômica.

A iniciativa é elogiável. Suas metas, no entanto, poderiam ter sido antecipadas caso um trabalho elaborado no fim da década de 1980 tivesse avançado. Na edição 108, de março de 1988, PROJETO relatava a seus leitores a iniciativa na reportagem “Rio restaura armazém A para levar cultura ao porto”. O texto informava que a socióloga Helena Severo - atual titular da Secretaria da Cultura do Estado do Rio de Janeiro - era a a coordenadora da implantação do Armazém Cultural, como foi denominado o trabalho. O projeto de reciclagem era de autoria do arquiteto Fernando Burmeister
(já falecido), então diretor regional da Secretaria de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e que foi também presidente nacional do IAB.

Da equipe faziam parte os arquitetos Álvaro Pessanha e Tereza Baña. “Em menos de um ano, o Rio de Janeiro deverá ganhar um novo e amplo espaço cultural”, afirmava a reportagem, baseada na expectativa de seus mentores. Teatro, galeria de exposições de artes plásticas, espaço cênico para grandes espetáculos de música e dança, além de restaurantes, bares, livraria, auditório e um centro de memória, se distribuiriam no armazém de 6 mil metros quadrados. O trabalho apresenta semelhanças com o do atual Porto Rio, do qual consta a inserção de uma área chamada Cidade do Carnaval.

“Foi uma experiência pioneira”, avalia Pessanha, atualmente na Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Turismo do estado. Ele recorda o empenho de Helena no sentido de estabelecer parcerias com empresas privadas para viabilizar a implantação do projeto. O desprendimento da coordenadora não foi suficiente para que a proposta decolasse.

Mas, de certa maneira, o espírito de armazém-geral ainda ronda aquela área. Afinal, a zona portuária foi escolhida para receber o Museu Guggenheim-Rio (leia mais a seção Debate).

Texto resumido a partir de reportagem
de Adilson Melendez
Publicada originalmente na revista PROJETODESIGN
Edição 276 Fevereiro 2003

 
Avenida Barão de Tefé e vizinhanças.
Um dos pontos abordados no projeto Porto Rio
 
Armazém Cultural: projeto de Fernando Burmeister para
depósito na região portuária do Rio foi elaborado há 15 anos
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