No ano em que
a morte de Flávio de Carvalho completa três
décadas - ele faleceu em 4 de junho de 1973 -,
um de seus mais significativos projetos (e dos poucos
que foram construídos) pode, finalmente, vir a
ser recuperado. Trata-se da casa modernista que ele projetou
em Valinhos, no interior de São Paulo, para sede
da fazenda Capuava, de propriedade de sua família.
A proposta é da psicóloga Heloísa
de Carvalho Crissiúma, parente do artista e proprietária
de clínica de terapias alternativas para a recuperação
de portadores de necessidades especiais, instalada naquele
local.
A intenção de Heloísa é utilizar
o imóvel como base para atividades educacionais
e artísticas que constituem parte dos tratamentos
realizados na clínica. Pela natureza de seu temperamento,
não se deve supor que Carvalho ficaria insatisfeito
com a alternativa.
Afinal, o heterodoxo, o inusitado e a provocação
eram suas características mais peculiares - entre
outros “agitos culturais”, vestiu saia, sandálias
de couro e blusão de náilon para caminhar
pelas ruas paulistanas em meados da década de 1950,
numa performance que recebeu o nome de Experiência
nº 3. |
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Após a morte do artista, o
imóvel foi ocupado até 1986, mas praticamente
não teve manutenção.
Em 1982, ele havia sido tombado pelo Condephaat,
o que, do ponto de vista de conservação,
nada acrescentou.
Na edição 120 de PROJETO DESIGN,
de abril de 1989, o jornalista Nildo Carlos Oliveira,
na seção Atos & Fatos, chamava a atenção
para o precário estado do imóvel.
“A denúncia é grave. Mas tudo é
compreensível nestas terras do Brasil. Trata-se
da casa modernista de Flávio de Carvalho,
situada em Valinhos, SP. Ela se encontra completamente
abandonada, embora esteja tombada desde 1982 pelo
Condephaat. Há rachaduras nas paredes da edificação,
que hoje parece um amontoado de ruínas. O que
fazer?”, indagava o jornalista.
A resposta, embora não definitiva, ocorre com
atraso. Porém, a recuperação
ainda é possível.
A casa tem cerca de 600 metros quadrados, onde se distribuem
seis quartos, cozinha, living, quatro banheiros e dois
aposentos ao fundo de cada ala - um deles, uma sala
ancestral onde se depositavam móveis e objetos
familiares fora de uso.
A planta assemelha-se ao desenho de um avião.
Projetada pelo artista-arquiteto em 1929, a casa
é considerada um dos marcos da arquitetura moderna
no país. Sobre ela, Luiz Carlos Daher escreveu,
em seu livro Flávio de Carvalho - Arquitetura
e expressionismo (Projeto Editores Associados):
“Na sede da fazenda Capuava, tudo se mistura e transforma
a vida particular em uma festa calculada”.
Desde 1982, ano do tombamento, tentativas de recuperar
a edificação foram ensaiadas, mas nenhuma
foi adiante. A empreitada da herdeira de Carvalho não
será das mais fáceis. As plantas do
imóvel, por exemplo, não foram
localizadas na prefeitura de Valinhos e tampouco no
Condephaat.
Se não conseguir viabilizar a recuperação
- cujas obras, acredita a psicóloga, podem ter
início até o final do ano e devem ser
custeadas tanto pela proprietária quanto por
eventuais patrocinadores -, Heloísa diz que
cogita outro destino para o imóvel. Prefere,
no entanto, não revelá-lo no momento.
Texto resumido a partir de reportagem
de Adilson Melendez
Publicada originalmente na revista PROJETODESIGN
Edição 281 Julho de 2003
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