Velhos problemas para
uma nova avenida
Dos seis edifícios comerciais publicados em ARCOweb entre 25 de setembro e 1° de outubro de 2003, metade se localiza na avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo, ou muito próximo dela. São construções implantadas no prolongamento sul da avenida, que, como já se previa há uma década, tornou-se pólo de alto interesse para o mercado imobiliário.

O mesmo processo ocorreu no trecho inicial da via, desenvolvido durante a primeira metade dos anos 1970 - época do milagre brasileiro e dos anos de chumbo -, e tornou a Faria Lima uma espécie de sucessora da avenida Paulista, com suas dezenas de prédios administrativos.
 

Há boa arquitetura no novo trecho da avenida? Eventualmente sim, mas, em geral, o resultado deixa a desejar. Em entrevista publicada na edição 276 de PROJETODESIGN (fevereiro de 2003), o arquiteto Gian Carlo Gasperini colocou o dedo na ferida. Avaliando a atual arquitetura brasileira, alfinetou: “Em período que acho extremamente ruim, de 1970 a 1980, procurou-se introduzir no país o que havia de pior no mundo inteiro, principalmente nos Estados Unidos. A avenida Paulista está aí para testemunhar isso. E esses resultados terríveis estamos vendo agora na nova Faria Lima”. Comparando, Gasperini afirmou que a sucessora é, sem dúvida, pior que a original.

Os novos trechos da Faria Lima ganharam contornos a partir de 1993, quando o então prefeito Paulo Maluf tirou do papel a idéia de prolongar a avenida, conforme já era previsto em lei municipal de 1968. Texto publicado em PROJETO DESIGN 162, de abril de 1993, retratou o início de uma das mais acaloradas polêmicas urbanísticas dos últimos anos na cidade. Informava a reportagem que o autor do projeto, arquiteto Júlio Neves, havia sido ousado, pois, em vez de limitar a ampliação no sentido dos bairros Itaim e Pinheiros, de acordo com a lei, decidira estender o que então chamava de Bulevar Sul até a Vila Olímpia.

Os arquitetos Jorge Wilheim (atual secretário municipal de Planejamento) e Siegbert Zanettini, entre outros, foram ouvidos pela revista. Wilheim considerava engenhosa a proposta para a execução do projeto, com as empresas privadas sendo convidadas a antecipar o valor relativo ao potencial construtivo que usariam acima do permitido pelo zoneamento. Da análise de Zanettini, que se opunha ao projeto, constava mordaz comentário: “Além do interesse dos empreendedores, (...) há o projeto específico e idiossincrático de um candidato à Presidência a curto prazo. É pressa de novo. Para quê? Já comentam que o novo traçado liga a Faria Lima a Brasília”.

Reafirmando opinião expressa há dez anos, Wilheim considera ainda hoje importante o objetivo da operação. “Urbanisticamente, deve-se ter, paralela a toda avenida expressa, como é o caso das marginais, e em ambos os lados, uma via local de boa capacidade, em toda a sua extensão”, afirma. “Para cumprir sua função, a Faria Lima deverá prolongar-se até a ponte João Dias e, do outro lado, até a Vila Leopoldina”, acrescenta. Wilheim faz, no entanto, reparos à inexistência de estacionamentos debaixo da pista de tráfego que permitiriam atender ao previsível aumento de demanda.

Para Zanettini, não se consumou o principal objetivo do projeto, que seria a melhora do trânsito. “A avenida cortou a Vila Olímpia em duas metades e destroçou a vida urbana local. Temos aqui, atualmente, uma Vila Madalena mais sofisticada”, avalia.

Texto resumido a partir de reportagem
de Adilson Melendez
Publicada originalmente na revista PROJETODESIGN
Edição 283 Setembro de 2003

 
Parte nova da avenida Faria Lima, sentido oeste
 
Prolongamento sul da avenida Faria Lima
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