Casa de ferreiro
Em tempos de acirrada disputa por trabalhos, a oportunidade de desenvolver o projeto para a futura sede do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do Estado de São Paulo deve ser recebida com entusiasmo.

E isso certamente acontecerá, caso chegue a resultados concretos a sondagem efetuada pelo Crea/SP junto ao Instituto de Arquitetos do Brasil/Departamento de São Paulo - no final de agosto, membros da Câmara de Arquitetura do conselho informaram ao IAB/SP que aquela entidade estuda a idéia de realizar concorrência para construir novas instalações na capital paulista.

“O Crea/SP vai realizar o antigo sonho de construção da sua sede no terreno da avenida Marquês de São Vicente. É nossa intenção que ela esteja inaugurada e em condições de funcionamento em dezembro de 2004, para que lá se realize a primeira plenária de 2005. O IAB/SP foi convidado a participar da organização desse processo”, diz o presidente do Crea/SP, engenheiro José Alonso.
 

A concorrência ainda não se tornou pública. Mas sabe-se que as empresas interessadas em participar da obra deverão apresentar, como parte de sua proposta, o projeto de arquitetura. Aparentemente, não há nada impróprio nesse procedimento.

O arquiteto Gilberto Belleza, presidente do IAB/SP, afirma que, embora seja fórmula pouco empregada no Brasil, reunir no mesmo pacote construção e projeto de arquitetura é prática admitida pela União Internacional de Arquitetos (UIA).

Seria ético o IAB/SP participar desse processo? A questão surge a partir de fatos dos quais PROJETODESIGN é testemunha. Em julho de 1978, ainda em seus tempos de jornal Arquiteto, foi publicada reportagem que tinha como título “Concurso do Crea/SP: dos 116, um projeto brasileiríssimo”.

O texto informava: “Com um novo recorde em participação, o concurso promovido pelo Crea/SP para o anteprojeto de sua sede premiou, entre os 116 trabalhos apresentados, o do arquiteto paulista Ubyrajara Gilioli”.

No momento em que a construção deveria ter começado, mudou a diretoria do conselho e o início das obras foi adiado.

Dez anos depois, retomada a intenção da entidade, Gilioli foi chamado para atualizar sua proposta às necessidades do órgão - na verdade, tratou-se de um novo projeto. Outra vez o processo foi interrompido, quando o Crea/SP optou por adquirir o edifício comercial onde hoje está instalado.

Na edição 24, de outubro de 1980, PROJETO estampava em sua capa: “Os projetos dos concursos (não honrados) para os Creas do DF e São Paulo”.

Belleza diz que o IAB/SP ainda não tem posição oficial sobre o assunto. Porém, há membros da diretoria contrários ao que consideram a “legitimação” do processo, caso o instituto dele participe. É o caso do arquiteto Antonio Carlos Sant’Anna, vice-presidente do IAB/SP, para quem esse procedimento não seria ético.

Presidente do IAB/SP à época do concurso, o arquiteto Pedro Taddei afirma que, em hipótese alguma, como insinua o Crea/SP, projeto e obra podem se misturar. “O projeto norteia a obra”, destaca. Taddei lembra ainda que o Crea está vinculado ao governo federal e deve, portanto, obedecer às normas da lei 8 666, que “proíbe a realização de concorrências sem, ao menos, um projeto preliminar”.

Texto resumido a partir de reportagem
de Adilson Melendez
Publicada originalmente na revista PROJETODESIGN
Edição 284 de Outubro de 2003

 
Nova sede do Crea/SP.
Segundo projeto de Ubyrajara Gilioli - 1998
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