Popular ou populista?
Como parte de uma proposta elaborada pela Secretaria de Planejamento e Gestão, o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, anunciou, no final de agosto, a intenção de erguer um megacentro administrativo, onde estariam reunidas todas as secretarias estaduais e autarquias - o conjunto poderia acomodar 30 mil servidores.

A construção integra lista com 30 grandes projetos que, entre outros itens, prevê investimentos em segurança e infra-estrutura, levando asfalto e água tratada a 100% das cidades mineiras, por exemplo. O objetivo principal do governo é recolocar o estado no caminho do desenvolvimento.

O governador não esconde a ambição de ser lembrado como um Juscelino Kubitschek contemporâneo. Já que se identifica tanto com o ex-presidente, encomendou o projeto do Centro Administrativo adivinhem a quem? Ao arquiteto Oscar Niemeyer, profissional ungido e preferido por JK. O complexo administrativo deverá ser implantado em terreno de 600 mil metros quadrados, junto ao Aeroporto Carlos Prates, em Belo Horizonte.
 

Ainda que, até meados de novembro, a equipe de Niemeyer só tivesse recebido o programa e o contrato não tivesse sido assinado – como informa o arquiteto Jair Valera, que integra o time do projeto –, especula-se que o complexo ocupará 50% do terreno. “Será a maior obra arquitetônica de Minas Gerais nos últimos 50 anos”, ufanou-se o governador, segundo reportagem do jornal Folha de S.Paulo de 26 de agosto último.

A intenção de Aécio Neves é chegar a JK, mas sua idéia poderia perfeitamente ter sido colhida na seara de outro ex-presidente: Jânio Quadros. No seu retorno à cena política como prefeito de São Paulo, em 1986, após ausência de mais de 20 anos, Jânio também escolheu Niemeyer para desenvolver imenso projeto de reurbanização às margens do rio Tietê, ao longo de 18 quilômetros.

PROJETO 86, de abril de 1986, tratou do assunto na reportagem “Contratação de Niemeyer abre polêmica e divide arquitetos”. Na Carta do Editor daquela edição, Vicente Wissenbach comentou a contratação do arquiteto e a considerou, antes de tudo, um golpe publicitário do prefeito Jânio Quadros. E previu seu destino: “O trabalho realizado pela equipe de Niemeyer irá para as já lotadas mapotecas da prefeitura”.

Discutia-se - como agora também ocorre em Minas - se o arquiteto deveria ou não aceitar a encomenda e se estava correto contratá-lo. Ele aceitou, e até uma nota de apoio a sua iniciativa, assinada pelo PCB, foi publicada na imprensa - Niemeyer contava na empreitada com uma equipe de arquitetos atuantes em São Paulo, entre eles Ruy Ohtake e Júlio Katinsky.

Na época, a revista colheu do arquiteto e professor da FAU/USP Benedito Lima de Toledo a seguinte avaliação: “O projeto, em sua essência, não difere muito da idéia de Paulo Maluf de fazer uma nova capital. A prefeitura não tem recursos sequer para indenizar o que já desapropriou em outras regiões”.

Quase 20 anos depois, a polêmica mudou de local, mas o personagem Niemeyer continua no centro dela. O arquiteto Sylvio de Podestá (leia entrevista nesta edição), por exemplo, escreveu uma carta aberta ao arquiteto em que, em determinado trecho, alerta-o sobre o que considera um risco: “(...) incomoda o fenômeno que, de uns tempos para cá, vem se repetindo em todo o país: prefeitos, governadores, secretários de Cultura e até amigos que se utilizam de seu nome para aparecer na mídia nacional e, pior, para avalizar suas ações e seus governos - muitas vezes medíocres, ou medrosos, ou simplesmente indefensáveis”.

Texto resumido a partir de reportagem
de Adilson Melendez
Publicada originalmente na revista PROJETODESIGN
Edição 286 Dezembro de 2003

 
Atual sede do governo mineiro, na praça da Liberdade,
em Belo Horizonte. Niemeyer desenvolve proposta
de um novo Centro Administrativo para Minas Gerais
 
Ilustração satiriza proposta de Jânio Quadros para São Paulo
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