Poupatempo derruba burocracia e,
no matadouro, abate espaço cultural
Colocar em funcionamento no segundo semestre de 2006 o quarto Poupatempo na capital paulista é o que está se propondo o governo estadual. A unidade da Lapa, bairro da zona oeste de São Paulo, será implantada na rua Guaicurus, em imóvel atualmente ocupado pela sede da subprefeitura e pelo Espaço Cultural Tendal da Lapa. Estima-se que o Poupatempo no local possa atender diariamente cerca de 6 mil pessoas.
 

O Poupatempo é uma das mais bem-sucedidas iniciativas governamentais, pois oferece, num único local, com presteza e bom atendimento, dezenas de serviços públicos, desde a emissão de documentos pessoais até a venda de ingressos para peças de teatro. Imagine-se o que isso significa para habitantes de uma cidade que, até então, esperavam meses para conseguir uma simples carteira de identidade.

Se não matou de vez a burocracia, o Poupatempo aplicou um golpe que a levou ao knock down (expressão inglesa utilizada no boxe, quando o pugilista cai mas se reergue e continua a lutar). Se mantiver o padrão de atendimento dos outros postos, o futuro Poupatempo Lapa poderá continuar a golpear os integrantes dessa teia tenebrosa.

No entanto, o anúncio da nova unidade abateu - ironicamente, em edificação onde funcionou até 1927 o segundo matadouro paulistano - um centro cultural. O precário espaço, denominado Tendal da Lapa, foi criado nos anos 1990, época em que passou a ser utilizado pela subprefeitura. Na edição 153, de junho de 1992, PROJETO DESIGN abriu espaço em suas páginas para uma discussão que buscava definir a vocação para aquele local. Na ocasião, Lúcio Gomes Machado questionava o uso para fins culturais. “A função de entreposto de abastecimento não está totalmente descartada da vida urbana e o Tendal poderia voltar a ela, não estocando carne, mas outros gêneros alimentícios”, considerava.

Pelo projeto atual, o espaço não armazenará nenhuma espécie de gênero alimentício - talvez só uma pequena despensa com o lanche dos funcionários. Um acordo incomum entre a prefeitura e o governo estadual, celebrado em fevereiro, permitirá que o imóvel seja destinado ao Poupatempo. O estado, por sua vez, vai transferir à prefeitura um edifício, na região central, que anteriormente pertencia ao Instituto de Previdência do Estado de São Paulo (Ipesp). Desocupado desde 1998, o prédio de 18 andares será reformulado para abrigar um anexo da vizinha Biblioteca Mário de Andrade. Com isso, está decretada a morte do projeto de ampliação desenvolvido por Fábio Penteado, óbito antecipado pela revista na coluna Curtas da edição 304, de junho de 2005, e ratificado no número 313, do último mês de março.

Texto resumido a partir de reportagem
de Adilson Melendez
Publicada originalmente na revista PROJETODESIGN
Edição 314 Abril de 2006

 
Aspecto atual do antigo matadouro, atualmente ocupado pelo Espaço Cultural Tendal da Lapa e futuro Poupatempo. A prefeitura paulistana assegura que o centro cultural será
transferido para um galpão ao lado
 
Antiga propriedade do Ipesp, o edifício de 1950 tem 18 andares e será remodelado para servir de anexo à Biblioteca Mário de Andrade
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