Capelas revelam a espiritualidade
de um arquiteto que se diz agnóstico
Ao fazer o anúncio do famoso prêmio, Thomaz Pritzker, presidente da Fundação Hyatt, disse que “Mendes da Rocha demonstrou um profundo entendimento de espaços e escalas através da grande variedade de edifícios que projetou, de residências particulares, complexos de moradia, uma igreja (...)”. Embora tenha sido divulgado no dia 10 de abril passado, o pronunciamento já necessita de revisão.
 

Na realidade, o correto seria dizer duas igrejas. Mas não se trata de desinformação do patrono do prêmio: a segunda edificação religiosa desenhada por Mendes da Rocha não foi divulgada em nenhuma publicação.

Trata-se de um pequeno templo no Recife, que deve estar concluído ainda no primeiro semestre deste ano e foi projetado em colaboração com o arquiteto Eduardo Colonelli. Consagrada a Nossa Senhora da Conceição, a capela ocupa, na terreno da Cerâmica Brennand, espaço onde antes existiu um casarão do século 19, do qual só restaram algumas paredes em alvenaria de pedra e tijolos. O arquiteto Jorge Passos, da capital pernambucana, é o responsável pelo restauro e consolidação da parte remanescente.

A intervenção promoveu a recuperação dessas ruínas, utilizando-as como um invólucro da nova edificação. O resultado final é uma mescla de alvenaria, concreto e vidro - com o fechamento da capela independente das paredes de tijolos e pedras - originando uma composição simples, mas de intenso vigor plástico, capaz de acomodar cem pessoas. A capela possui ainda áreas para coro e sacristia.

O artista plástico Francisco Brennand, membro da família proprietária da cerâmica, já foi pauta de PROJETO DESIGN. A capa do número 117, de dezembro de 1988, estampava o museu que ele mantém naquela cidade (“um dos mais expressivos espaços artísticos dessa terra”, nas palavras do arquiteto Geraldo Gomes da Silva), ao qual agora se juntará a capela de Paulo Mendes da Rocha.

Essa é a segunda obra de Mendes da Rocha no Recife. Há poucos anos, ele desenhou o edifício- garagem de um centro comercial no núcleo histórico da cidade. A primeira capela projetada pelo arquiteto, aludida por Thomaz Pritzker, é a consagrada a São Pedro, a qual também convive com uma construção mais antiga, o Palácio Boa Vista, em Campos do Jordão, SP (leia PROJETO DESIGN 128, dezembro de 1989 ). São trabalhos que revelam, em Mendes da Rocha, uma relação com o sagrado mais intensa do que a de muitos devotos - corroborada, aliás, pela frase que arrematava o texto relativo ao templo paulista: “(...) a prova cabal da espiritualidade de um arquiteto que se diz agnóstico".


Texto resumido a partir de reportagem
de Adilson Melendez
Publicada originalmente na revista PROJETODESIGN
Edição 310 Dezembro de 2005

 
 
São Pedro, em Campos do Jordão, e Nossa Senhora da Conceição, no Recife: para diferentes devotos, as duas capelas de Mendes da Rocha têm o mesmo colaborador, o arquiteto Eduardo Colonelli. Em ambos os projetos aparece a laje em balanço com um robusto pilar no centro, mas a do Recife terá campanário
 
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