Retomado pelo Estado, Potycabana fecha e castiga população de Teresina
Tomando a liberdade de fazer trocadilho com o título de uma crônica de Rubem Braga, “Ai de ti, Copacabana” - que também batiza um de seus livros -, e transferindo o cenário para a capital do Piauí, não seria impróprio dizer: “Ai de ti, Potycabana”. Afinal, um dos principais - se não o principal - complexos de lazer de Teresina, assim como o bairro carioca no texto de Braga, parece estar sendo punido - no caso nordestino, pelo descaso.

Projetado por Gerson Castelo Branco e inaugurado em 1990, o parque Potycabana fica às margens do rio Poti e ocupa área de 90 mil metros quadrados. Entre outras instalações, possui anfiteatro, quadras de vôlei, pista para corrida, piscinas e restaurante. Entretanto, há quase um ano elas estão abandonadas, conforme reportou, em 16 de fevereiro, o jornal local Diário do Povo. Intitulado “Estado retoma administração e abandona parque Potycabana”, o texto relata: “Depois da disputa política que cancelou o contrato de cessão de uso do parque Potycabana para o sistema Fecomércio, o maior complexo de lazer do Piauí está em total estado de abandono e se transformou em depósito de ferro-velho”.

A crônica de Braga, de 1958, lança uma série de imprecações àquele bairro carioca. No parque piauiense - que os leitores da revista conheceram novíssimo, no número 138, de fevereiro de 1991 - não se trata de pragas. Mas o resultado é o castigo aplicado à população, que não pode freqüentá-lo. “Mesmo mal administrado, o Potycabana cumpriu sua missão e conseguiu urbanizar uma área que é o centro geográfico da cidade”, disse Castelo Branco a PROJETO DESIGN, quando a edição 308, de outubro de 2005, mostrou sua proposta de intervenção no local, com a implantação de uma unidade do Sesc. A expectativa era que as obras se iniciassem em 2006.

Ao contrário do que se esperava, o que sobreveio foi a retomada do parque pelo governo estadual - oficialmente porque a cessão à Fecomércio/Sesc/Senac, em 2001, teria ocorrido sem autorização da Assembléia Legislativa. Certo é que, em 2006, uma trombada pública de Valdeci Cavalcanti, presidente da Fecomércio do Piauí, com o senador Alberto Silva (que governava o estado quando o parque foi implantado) também forneceu combustível para o embate em torno do Potycabana.

Não houve ganhadores, e a população ainda está perdendo. Existe a perspectiva de ocorrer uma virada. Há pouco tempo, ao tomar conhecimento informal do projeto de Castelo Branco, integrantes do governo ficaram seduzidos pela proposta. Além do que, o pragmatismo político reaproximou Cavalcanti do atual governo.

Ainda bem. Caso contrário, no futuro, o trocadilho poderá ser feito também com a última frase da crônica de Braga: “Canta a tua última canção, Potycabana”.




Texto resumido a partir de reportagem
de Adilson Melendez
Publicada originalmente na revista PROJETODESIGN
Edição 326 Abril de 2007

 
Piscina com toboáguas no Potycabana, pouco depois de o parque ser inaugurado
 
O novo projeto do piauiense Gerson Castelo Branco, que transforma o parque em uma unidade do Sesc
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