Na Traição, torre dará espaço a um lugar de gente feliz?
Na fria manhã do último domingo do mês de maio, em pleno outono paulistano, um edifício comercial localizado na avenida Luís Carlos Berrini, esquina com a avenida dos Bandeirantes, zona sul da cidade, deu o último suspiro. Uma implosão derrubou a construção, selando o destino da torre que foi idealizada para ser sede do Grupo Pão de Açúcar, uma das principais redes de varejo do Brasil.

O atual proprietário do terreno, de quase 35 mil metros quadrados, é um dos maiores empreendedores imobiliários de São Paulo, a Cyrella, que adquiriu o lote do Previ, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil. A empresa planeja construir ali um edifício comercial e quatro residenciais. Os projetos, que tramitam em busca de aprovação na prefeitura, são dos escritórios Collaço e Monteiro Arquitetos Associados (prédio comercial) e Márcio Curi e Azevedo Antunes Arquitetura (blocos para habitação).

A ex-sede do grupo Pão de Açúcar estava localizada numa das regiões mais valorizadas da cidade: na extremidade da Berrini mais próxima à Usina da Traição (o córrego hoje canalizado teria seu nome originado de uma emboscada entre dois compadres e sócios portugueses, um morto pelo outro). Mesmo assim, foi demolida. Por isso, cabe a pergunta: estaríamos diante de uma nova dinâmica no mercado imobiliário paulistano?

A implosão em si é um fato corriqueiro: vários prédios foram demolidos no país com o uso dessa técnica. No Brasil, entretanto, trata-se de raro caso de implosão de edifício relativamente novo. Datado de 1980, o projeto foi criado pelo escritório BDSL Arquitetura, pelo trio de arquitetos João Carlos Bross, Ricardo Júlio Leitner e Arnaldo Villares de Oliveira. O relato sobre como, quando e por que foi implantado o conjunto está na edição 85 da revista PROJETO, de março de 1986. Entre a idealização do projeto e a derrubada da torre, passaram-se, portanto, menos de três décadas.

Recordando a história do edifício, Bross informa ter sido ele que convenceu as lideranças do Pão de Açúcar a construir a nova sede, com o aval de um dos executivos do grupo, Luiz Carlos Bresser Pereira, que em 1987 seria ministro da Fazenda do governo Sarney (Bresser e Bross serviram juntos na Cavalaria). A empresa ocupou a torre de 1987 até 1990 - época de séria crise interna, motivada por disputa de herança, pelo Plano Collor e agravada pela construção do prédio -, quando retornou para a avenida Brigadeiro Luiz Antônio, local de origem da rede. Certamente, os idealizadores do espaço não possuem boas recordações do falecido conjunto. Para eles, parece não ter valido o conhecido slogan “Lugar de gente feliz”, imediatamente associado à rede Pão de Açúcar. Resta, então, desejar felicidades aos futuros ocupantes.


Texto resumido a partir de reportagem
de Adilson Melendez
Publicada originalmente na revista PROJETODESIGN
Edição 329 Julho de 2007

 
A morte prematura do edifício abriu espaço para a construção de uma edificação comercial e prédios residenciais no lote, quiçá a ser ocupado por “gente feliz”
 
O prédio na Luís Carlos Berrini foi ocupado pelo Grupo Pão de Açúcar de 1987 a 1990. O projeto original, do escritório BDSL, previa a construção de mais duas torrres no lote
veja também
  CASA DAS RETORTAS - Fere os olhos a deterioração que toma conta de um bem público importante em termos históricos e arquitetônicos
  ASSIM É DIFÍCIL - Arquitetura orientada à sustentabilidade, balas perdidas, risco biológico e interpelação judicial
  MERCADO SÃO JOSÉ - 1,3 milhão de reais para o símbolo da arquitetura em ferro no Brasil
  JESUS NUNCA RECLAMOU - Teatro União e Olho Vivo aguarda decisão da prefeitura para sair das sacristias e ir para seu próprio palco
  "AI DE TI, POTYCABANA" - Mesmo mal administrado, o parque às margens do rio Poty, em Teresina, cumpriu sua missão
  ÁGUA COM SABOR DE DESIGN PREMIADO - Lância é um dos principais designers de embalagens para água no Brasil
 
patrocínio   informe publicitário
     
Índice Notícias Agenda Fórum Envie por e-mail