NEM SHOPPING, NEM CENTRO CULTURAL

Quando o terreno do Morumbi deixará de ser um estacionamento?

Nem Shopping, nem Centro Cultural:
Quando o terreno do Morumbi deixará de ser um estacionamento?

As trajetórias de Ruy Ohtake e Marcos Acayaba têm em comum um terreno com cerca de 20 mil m2 no Morumbi, zona oeste de São Paulo. Ambos desenvolveram, para essa área, projetos com programas completamente diferentes (em datas diversas), mas ambos não foram implantados.

Acayaba criou para o local o Centro Cultural Esportivo Aricanduva; Ohatke, anos depois, projetou para o mesmo lote um shopping center que teve até nome: Bandeirantes. O terreno continua sem construções até hoje - é atualmente utilizado como estacionamento pelos médicos do vizinho Hospital Israelita Albert Einstein. Em duas edições, PROJETO teve oportunidade de mostrar esses trabalhos. Em agosto de 1980 (edição 22), foi publicado o trabalho de Acayaba. Nove anos depois (edição 119, de março de 1989) seria a vez de Ohtake mostrar sua proposta para o lote.

O trabalho de Acayaba - o primeiro de sua autoria a ser publicado pela PROJETO - previa para o terreno um conjunto destinado a espetáculos esportivos, musicais e teatrais com capacidade para 8 mil espectadores, dois cinemas de 300 lugares, um teatro de bolso também de 300 lugares e um prédio administrativo com áreas comerciais no térreo, além de duas quadras de tênis cobertas que complementariam o conjunto de quadras então existentes. A implantação se adequaria à geografia local, distribuindo o programa de forma compacta ao longo do terreno, de propriedade da Aricanduva, empresa da área imobiliária de João Saad (falecido em 1999), fundador da Bandeirantes, rede paulista com emissoras de rádio e TV.

No caso de Ohtake, o shopping foi desenvolvido para uma associação entre a Aricanduva e a Brascan Imobiliária - as obras tinham até data para ser iniciadas: abril de 1989. A principal inovação de linguagem na edificação estava na circulação: seria feita por meio de varandas voltadas para o exterior do edifício. "Essas varandas serão todas curvas, também para escapar das linhas inexpressivas dos shopping centers. São duas curvas sinuosas e desiguais que dão um movimento muito interessante para os 2 mil metros de extensão da fachada", informava o texto da revista.

Com outro desenho e em escala menor, porém mantendo o mesmo espírito do primeiro, Acayaba chegou a apresentar uma alternativa mais econômica para que seu projeto se viabilizasse. Isso ocorreu no período em que Walter Clark - conhecido executivo da televisão, com passagem pela TV Globo em sua fase de consolidação - esteve à frente da Bandeirantes. As linhas-mestras desse programa seriam retomadas no projeto do Coliseum (também publicado em PROJETO, edição 85, março de 1986) tendo como cliente o próprio Clark, mas para outro lote.

Divergências conceituais entre a Aricanduva e a Brascan a respeito do modelo de shopping a ser implantado inviabilizaram o empreendimento projetado por Ohtake, recorda o engenheiro Ricardo Aris, assessor da presidência da Rede Bandeirantes e diretor da Aricanduva.

O lote, porém, em pouco tempo deverá ter utilização mais nobre que a atual. Segundo Aris, uma parceria entre o hospital Albert Einstein e a Aricanduva fará surgir no local um novo empreendimento. O hospital erguerá três edifícios - dois destinados a consultórios médicos e um centro de diagnósticos, com projeto desenvolvido pelo arquiteto Itamar Berezin. A Aricanduva/Bandeirantes deverá edificar ali um shopping de conveniência, com projeto do escritório Aflalo & Gasperini.

Texto resumido a partir de reportagem e pesquisa de Adilson Melendez
(Publicado originalmente em PROJETO DESIGN edição 250 - Dezembro 2000)
Centro Cultural Esportivo Aricanduva.
Projeto Marcos Acayaba
Shopping desenhado por
Ruy Ohtake
Edifícios de consultórios e centro de diagnósticos.
Projeto desenvolvido por Itamar Berezin