Pistas da marginal

Entre protestos de arquitetos que defendiam uma solução ideal, foram concluídos 46 quilômetros da ampliação da marginal do Tietê, em São Paulo

Pistas da marginal abertas em março inexistiam em proposta de concurso
Para boa parte dos motoristas paulistanos soa como música - que não seja a de buzinas - qualquer novidade que acene com a possibilidade de reduzir o tempo gasto nas ruas da capital. Assim, no saturado e caótico trânsito da cidade, a conclusão (ainda que parcial) das obras das novas pistas da marginal do rio Tietê, no final de março, foi recebida quase como uma espécie de concerto.

No total, são 46 quilômetros de novas pistas, com três faixas de rolamento em cada um dos lados da via. As obras tiveram início em julho de 2009 e se estenderam por nove meses nessa primeira etapa - o que representa, em média, mais de cinco quilômetros implantados a cada 30 dias. Numa segunda fase - que o governo do estado prevê concluir até o final do ano - serão entregues novas pontes e viadutos.

Estima-se que o número de deslocamentos diários por suas pistas alcance a casa de 1,2 milhão - o governo do estado informa que esse número dá à marginal do Tietê o título de via com maior volume de tráfego no país. Antes da ampliação, as filas de congestionamento no local alcançavam, nos horários de pico, a média de 30 quilômetros.

Quando o governo estadual e a prefeitura anunciaram, no ano passado, a construção das novas pistas, arquitetos e urbanistas, de maneira geral, posicionaram-se contra. Fazendo coro com os descontentes, o IAB/SP publicou uma moção de protesto e repúdio à obra. É preciso observar, no entanto, que no final da década de 1990 as marginais haviam sido objeto de um concurso de ideias para estruturação urbana e paisagística, organizado pela própria entidade. O arquiteto Bruno Padovano era o coordenador da equipe que obteve o primeiro lugar.

O resultado da competição foi registrado na edição 229 de PROJETO DESIGN, em março de 1999. Os vencedores propunham, entre outras intervenções, criar um complexo empresarial e hoteleiro, uma marina, um centro ecumênico, um centro cultural, além de habitações e passarelas na área entre a ponte Aricanduva e o Parque Ecológico do Tietê. Como obras viárias, seriam criadas vias paralelas para aliviar o fluxo de trânsito. O tempo estimado para a implantação da proposta era de 15 anos.

“É uma pena que uma visão urbanística e paisagística mais abrangente não tenha sido utilizada”, opina Padovano, referindo-se à proposta afinal adotada. “Mesmo que tardiamente, um projeto amplo desse tipo se faz necessário, para evitar que esse importantíssimo eixo de mobilidade de São Paulo seja desenvolvido de forma descontínua e desarticulada com o entorno urbano”, prossegue o arquiteto. Mais de 500 pessoas subscreveram o documento de protesto do IAB/SP. Será que, dentre estes, alguém mais radical vai, em nome da coerência, recusar-se a trafegar pelas novas pistas?



Texto de Adilson Melendez
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 363 Maio de 2010
A proposta da equipe de Padovano para a marginal do Tietê, vencedora do concurso no final dos anos 1990, demandaria uma década e meia para ser implantada
A proposta da equipe de Padovano para a marginal do Tietê, vencedora do concurso no final dos anos 1990, demandaria uma década e meia para ser implantada
Como compensação ambiental, a quantidade de árvores aumentou para 17,5 mil
As novas pistas da marginal foram inauguradas em março, após nove meses de obras. Como compensação ambiental, a quantidade de árvores aumentou para 17,5 mil