PREFEITURA TOMBA MORADIA "DEMOLIDA"

O sobrado é uma das casas onde Machado de Assis morou por 11 meses em 1874 e cuja morte completou cem anos em 2008

No centenário de morte de Machado, prefeitura tomba moradia “demolida”
O prefeito do Rio de Janeiro, César Maia, decretou no início de setembro, alguns dias após a solicitação formal feita pelo presidente da Academia Brasileira de Letras, Cícero Sandroni, o tombamento provisório do imóvel localizado no número 264 da rua da Lapa, região central da cidade. O sobrado é uma das casas onde morou Machado de Assis, cuja morte completou cem anos em 2008.
Em seu pedido, Sandroni relata que em uma das
recentes reuniões plenárias da ABL se confirmara
que o sobrado fora, em 1874, moradia de Machado.
Até então, acreditava-se - e alguns biógrafos do
escritor registraram o fato - que a casa havia sido
demolida. A origem da confusão foi uma troca de
número: o atual 264 é o antigo 96, onde o autor
de Dom Casmurro morou por 11 meses. Quem
lê o texto do decreto supõe que o sobrado esteja
bem conservado, uma vez que o documento
determina que “quaisquer intervenções físicas
a serem realizadas no bem imóvel deverão ser
previamente aprovadas pelo Conselho Municipal de
Proteção do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro”.
O real estado da construção é bem diferente.

Reportagem de Mariana Filgueiras, publicada
na edição de 19 de julho no caderno Idéias e
Livros do Jornal do Brasil, constatou que na
construção amontoam-se 15 famílias, em espaço
originalmente projetado para duas. Um dos
moradores é Anderson Clay Sampaio, 31 anos,
professor de português, inglês e informática.
Ele disse à jornalista que um dos primeiros livros
que leu foi Esaú e Jacó, de Machado de Assis.

Sampaio era ainda um adolescente - mas
já morava no sobrado machadiano - quando se
cogitou restaurar outra casa onde supostamente o
escritor teria vivido, na ladeira do Livramento, 77.
A informação foi registrada na edição 123,
de julho de 1989, de PROJETO DESIGN, na
coluna Atos e Fatos. “A casa está entregue ao
abandono”, informava o texto, acrescentando
que os empresários Fernando Mota e Sebastião
Domingues de Azevedo cuidariam do imóvel.

Dezenove anos depois, o engenheiro Fernando
Mota, da Tensor Empreendimentos, dá outra
versão para a notícia: “Recebemos convite
de um amigo para visitar uma casa em ruínas
que se supunha ter sido residência do escritor.
Fomos convidados tendo em vista que nosso
escritório de engenharia situava-se nas redondezas
e poderia ajudar na reforma. A realidade é que nada
se confirmou, nem sabíamos com quem tratar”.

Mas, afinal, se houve equívoco com relação à
troca do número do sobrado na Lapa, o mesmo
não poderia ocorrer com o imóvel da ladeira do
Livramento? Biógrafos e estudiosos de Machado
deveriam seguir a pista.


Texto resumido a partir de reportagem
de Adilson Melendez
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 345 Novembro de 2008
Sobrado tombado pela prefeitura do Rio de Janeiro, onde Machado morou por 11 meses
A notícia na coluna Atos e Fatos