Sevilha x Orlândia

Dez anos depois, livro retoma polêmica sobre dois concursos e enfrenta a difícil tarefa de contar a história da arquitetura brasileira

Dez anos depois, livro retoma polêmica sobre Sevilha e Orlândia
Lançado no segundo semestre do ano passado pela Editora Perspectiva, o livro Brasil: arquiteturas após 1950, de autoria das arquitetas Maria Alice Junqueira Bastos e Ruth Verde Zein, propôs-se uma tarefa hercúlea. O caráter altivo da proposta se evidencia já na primeira nota introdutória, quando se afirma que seu predecessor no catálogo da editora é o clássico Arquitetura contemporânea no Brasil, de Yves Bruand.

A obra de Bruand tornou-se referência para a compreensão da arquitetura brasileira. Na contracapa do livro de Maria Alice e Ruth, um texto destaca que o novo volume teria vocação para tornar-se referência no estudo e no ensino da matéria no país. Mais ao final, observa que as autoras não se intimidaram com o tamanho da empreitada e da responsabilidade de mostrar as virtudes e vicissitudes das várias arquiteturas brasileiras das últimas seis décadas.

O livro é abrangente, por isso mesmo não deixa de abordar a frequentemente polêmica questão das competições de arquitetura. No capítulo “Dois concursos”, contido na seção “Novos rumos”, Ruth recupera parte da celeuma que envolveu o concurso para o pavihão do Brasil na Expo Sevilha em 1992 e menciona a seção Memória que PROJETO DESIGN publicou na edição 251, de janeiro de 2001 - há exatos dez anos. Ali, aproximando o pavilhão de uma edificação posterior na cidade paulista de Orlândia, este redator sugeria, cerca de um decênio depois, uma reflexão a respeito das críticas recebidas por ambos os projetos: “Na década que separa Sevilha de Orlândia, mudaram os arquitetos ou mudou a crítica?”, polemizava o título do artigo.

Na edição 253, a revista publicou carta da autora, que também é crítica de arquitetura, na qual ela argumentava que os autores dos projetos haviam mudado e defendia os críticos. A base da missiva é a mesma que Ruth desenvolve com argúcia no livro da Perspectiva, em que afirma que “a apreciação leviana baseada no sucesso posterior, retroagindo no tempo e canonizando retroativamente obras e arquitetos, passando-os de totalmente errados a totalmente certos, não quer de fato resolver ou compreender a mudança, mas apenas fazer sensacionalismo e denegrir o exercício da crítica”.

Na carta à revista, Ruth informava ter o hábito de folheá-la de trás para frente, por isso lera em primeiro lugar a seção Memória. Se o mantém, poderia ter contado à coautora que, ao contrário do que se afirma na página 296, no capítulo “(Ainda) Concursos públicos de arquitetura”, redigido por Maria Alice, o edifício da Câmara Legislativa de Brasília prosperou. A retomada da construção foi registrada por Memória na edição 337, de março de 2008, e uma foto em fase final de obras foi publicada em abril de 2010. Aqui, a crítica “certamente” errou: o prédio saiu do papel.



Texto de Adilson Melendez
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 371 Janeiro de 2011
Em janeiro de 2001, a partir de um projeto para Sevilha e outro no interior paulista, a seção Memória sugeria uma reflexão acerca da crítica de arquitetura
Em janeiro de 2001, a partir de um projeto para Sevilha e outro no interior paulista, a seção Memória sugeria uma reflexão acerca da crítica de arquitetura
Quase uma década depois, um capítulo do livro editado pela Perspectiva volta ao tema e mantém a defesa da posição dos críticos sobre o projeto de Sevilha
Quase uma década depois, um capítulo do livro editado pela Perspectiva volta ao tema e mantém a defesa da posição dos críticos sobre o projeto de Sevilha