Um delírio paulistano

Se tivesse sido construído, teria se tornado a maior torre do mundo e provavelmente a maior estupidez arquitetônico-urbanística da Pauliceia

A fantasmagórica São Paulo Tower como personagem de romance
Formado pela UFMG, o arquiteto Carlos Teixeira vem construindo uma carreira que, em vários aspectos, é fora dos padrões. Dado a experimentações e a certa dose de diletantismo - trabalhou entre 2004 e 2006 na ONG Arquitetos sem Fronteiras -, Teixeira acaba de abrir uma nova trincheira: a de escritor de ficção. Sua estreia na literatura se dá com o que ele mesmo define como um “épico real-fantástico”.
O romance - será correto defini-lo assim? - chama‑se O condomínio absoluto e foi lançado pela Editora C/Arte, de Belo Horizonte, cidade onde o arquiteto está baseado. Considerando a imprevisibilidade da trajetória do titular do estúdio de arquitetura Vazio S/A (que Teixeira constituiu em 2002), era de se esperar um livro de formato anticonvencional. E isso se confirma: são dois volumes, com a quarta capa do primeiro inserindo-se na primeira capa do segundo.

Não foi, porém, a capital mineira que Teixeira escolheu como cenário de seu enredo. O condomínio absoluto passa-se em São Paulo e narra a trajetória de um delírio paulistano: o São Paulo Tower, edifício que, se tivesse sido construído, teria se tornado a maior torre do mundo e provavelmente - aqui rivalizando com o elevado Costa e Silva, conhecido como Minhocão - a maior estupidez arquitetônico‑urbanística da Pauliceia.

No romance, o escritor-arquiteto descreve como ocorreu a elaboração do supermega-hiperprédio (“que acabaria engolindo toda a cidade e abraçando seus principais edifícios - Copan, Unique, mosteiro de São Bento, Oca e Masp”, segundo o texto). Teixeira não menciona se o Minhocão seria também devorado. A descrição do processo - das fundações à ocupação da torre - ocupa o primeiro volume.

No segundo - o formato duplo resulta talvez do caráter superlativo do prédio - estão fotos da área englobando os 70 quarteirões que seriam demolidos para dar lugar ao edifício e artigos de publicações que o autor consultou. Teixeira não o fez, mas poderia ter recorrido também às edições 237 e 238 de PROJETO DESIGN, de novembro e dezembro de 1999, que traziam reportagens sobre a polêmica torre.

Os recursos para a construção viriam, em parte, do Maharishi Global Development Fund, do qual o líder religioso Yogi Maharishi (ex-guru dos Beatles) apresentava-se como controlador. O empresário brasileiro Mário Garnero era o parceiro local do fundo de origem norte-americana. Outra figura de proa nessa ameaçadora quase-tragédia foi o ex-prefeito paulistano Celso Pitta, que morreu recentemente.

O romance pode ser encontrado em livrarias de todo o país. Teixeira deixou um problema nas mãos dos gerentes das lojas: eles vão expor a obra nas estantes destinadas aos best-sellers, nas prateleiras das obras de ficção ou na seção de arquitetura?


Texto de Adilson Melendez
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 360 Fevereiro de 2010
O natimorto São Paulo Tower, como foi apresentado em 1999. Para o arquiteto Gianfranco Vannucchi, o conjunto era um alienígena arquitetônico
O natimorto São Paulo Tower, como foi apresentado em 1999. Para o arquiteto Gianfranco Vannucchi, o conjunto era um alienígena arquitetônico
O condomínio absoluto, livro escrito por Carlos Teixeira, ressuscita (felizmente só na ficção) o prédio que devora a cidade
O condomínio absoluto, livro escrito por Carlos Teixeira, ressuscita (felizmente só na ficção) o prédio que devora a cidade