Piratininga Arquitetos Associados
Instituto Fernando Henrique Cardoso, São Paulo-SP
   
       
 
  Móveis que pertenciam à sede do Automóvel Clube de São Paulo foram utilizados na sala de recepções do IFHC
       
 
Para debates entre
o novo e o antigo
 

Situada no edifício CBI-Esplanada, no centro paulistano, a sede do Instituto Fernando Henrique Cardoso foi desenhada pelo escritório Piratininga. Inaugurada em maio de 2004, ali convivem elementos novos e antigos.

O Automóvel Clube de São Paulo (fundado em 1908) ocupava o espaço desde 1951 e tinha suntuoso projeto de interiores, marcado por madeiras escuras e, contraditoriamente, assinado pelo modernista Gregori Warchavchik.

O IFHC é um centro de debates políticos, sociais e econômicos, além de guardar o acervo documental da atividade política e intelectual de Fernando Henrique Cardoso. O objetivo é organizar seminários, mesas-redondas e conferências.

Esse tipo de programa é incomum no Brasil. Nos Estados Unidos, por exemplo, existem 11 bibliotecas presidenciais. A mais recente, ainda em construção, é a de Bill Clinton, em Little Rock, Arkansas, cujo belo edifício, desenhado por James Polshek, custará 175 milhões de dólares.

Na compra do imóvel, o IFHC ficou com todo o acervo do centenário Automóvel Clube, de livros a talheres. Para adequar o programa ao espaço, os arquitetos do Piratininga transformaram o andar, mantendo, contudo, algumas características originais.

“Isso não é comum em um projeto de interiores”, relata José Armênio de Brito Cruz, um dos autores do projeto. “Preservamos alguns aspectos para evidenciar a história do espaço”, completa Marcos Aldrighi, também sócio do Piratininga.

A estratégia foi deixar as marcas históricas nos espaços de circulação e convívio (como a sala de recepções e o restaurante). Os locais de trabalho e acervo foram completamente renovados.

Assim que se abrem as portas automáticas do instituto - dois painéis de vidro -, os vestígios do passado já são visíveis. No eixo do acesso, e com vista para o vale do Anhangabaú, está a sala de recepções, onde permanecem algumas peças do clube, como sofás, mesas e lustres.

À esquerda de quem entra fica o bar-restaurante e à direita, a sala do ex-presidente.

No entanto, é na principal circulação do espaço - que forma um U ao redor do fosso de iluminação, tendo como eixo o acesso principal - que se revela marcante a presença dos elementos preexistentes. As paredes revestidas com lambris de madeira escura foram mantidas. Só que, em vez de objetos e lembranças do clube, agora as vitrines são ocupadas por fotos e documentos ligados a FHC.

Contudo, essa circulação (assim como todo o projeto) é caracterizada pelo contraponto entre o antigo e o contemporâneo.

A iluminação, por exemplo, é realizada por luminárias-canaletas pendentes com luz indireta, que contrastam com os lustres originais. Tanto em um dos braços do U como no outro, novas divisórias de vidro e alumínio dialogam com a madeira escura. Uma delas demarca o espaço de arquivos deslizantes, enquanto a outra delimita a biblioteca, que avança sobre a circulação.

No restaurante, última utilidade do antigo clube, o bar e as mesas são originais. A cozinha foi diminuída e modernizada.

Já a sala do titular do instituto, com mais de 130 metros quadrados, é quase toda composta por mobiliário criado por designers brasileiros e fabricados com madeira certificada.

Ali, móveis reeditados da Branco e Preto, como a poltrona MF5 (de Carlos Millan e Miguel Forte) e a mesa de centro Aranha (de Roberto Aflalo), ambas do início da década de 1950, convivem com a cadeira Aeron, clássico do design contemporâneo.

A sala abre-se tanto para o vale do Anhangabaú quanto para a praça Ramos de Azevedo.

O ar condicionado corre em forro rebaixado, em duas linhas paralelas às circulações principais, sobre as salas fechadas. O forro é um dos destaques do projeto, com soluções diferentes em áreas como o auditório ou a sala de FHC.

Na ala junto à sala do ex-presidente estão os espaços para os assessores diretos, as secretárias, a biblioteca e a administração. Nesse trecho, em vez do piso de madeira do restante do instituto, foram utilizados carpetes e o forro é modulado. “Isso permite mais flexibilidade em futuras mudanças de layout”, afirma Aldrighi.

No mesmo setor que o restaurante estão o auditório, com 75 lugares, e as salas de pesquisa e documentação. Parte do acervo está armazenado em dois subsolos, que também eram de propriedade do Automóvel Clube.

Um elevador privativo interliga os três pavimentos.

O edifício CBI-Esplanada, onde está localizado o IFHC, também possui valor histórico. Ele foi desenhado em 1948 por Lucjan Korngold, arquiteto polonês que ajudou a modernizar a paisagem paulistana.

Aldrighi chama a atenção para os vãos do CBI e para a possibilidade de modernizar prédios antigos - neste caso, com mais de 50 anos. Além disso, o IFHC é mais uma reafirmação, de peso político, na opção por requalificar o centro paulistano.

Adequação semelhante já foi realizada em outros projetos do Piratininga, como as bibliotecas da FAU - na Cidade Universitária (leia PROJETODESIGN 239, janeiro de 2000) e na rua Maranhão (PROJETODESIGN 275, janeiro de 2003) - e mesmo na Associação de Advogados de São Paulo.

Texto resumido a partir de reportagem
de Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 294 Agosto de 2004

 
Os dois vãos de entrada são interrompidos
por trecho da caixa estrutural do miolo do prédio
 
O fechamento de vidro e alumínio permite que
se aviste a biblioteca a partir da circulação principal
 
O rebaixo do ar-condicionado é visível também na biblioteca
 
Como em quase todos os ambientes, da sala do
ex-presidente pode-se visualizar o vale do Anhangabaú
 
No restaurante, balcão e mesas são originais
 
Divisórias delimitam salas de
assessores diretos e área para secretárias
 
No auditório, vêem-se o rebaixo do ar-condicionado
e, ao fundo, as cabines de tradução e som
   
Na circulação principal, os acabamentos existentes de
madeira contrastam com a divisória que protege os arquivos deslizantes

Ficha Técnica
Instituto Fernando Henrique Cardoso
Local
São Paulo, SP
Projeto
2003
Conclusão da obra
2004
Área de intervenção
1 860 m2
Interiores
Piratininga Arquitetos Associados -
José Armênio de Brito Cruz, Lúcia Noemi Hamburger,
Marcos Aldrighi e
Sérgio Kipnis
(equipe de projeto);
Cíntia Attis,
Isabel Alcântara,
Kátia Eto e
Renata Cupini
(colaboradoras)
Luminotécnica
Piratininga
Acústica
Ambiental
Elétrica e hidráulica
MA2
Ar condicionado
ETP
Impermeabilização
Proassp
Construção
Alusa e Schahin
(escritório);
Cempla e Marco Paulo
Construtora (subsolo)
Gerenciamento
Logos (escritório); Piratininga (subsolo)
Fotos
Nelson Kon

 

Fornecedores
Milliken (carpetes); Uniflex, Inovatis-Office (persianas); Solidor (divisórias); Ergo (elevador); Hunter Douglas,
Fac (forros modulados); Ing Carrá (forro de gesso); Rock Fibras (isolamento termoacústico); Arthem (marcenaria); Lumini, Reka (luminárias); S. Naldi (esquadrias e janelas acústicas); Aceco (arquivos deslizantes);
Securit (armários, mapotecas e trainéis); Teperman, Etel (mobiliário); Giroflex, Probjeto (cadeiras);
Kojima (execução da comunicação visual); Santa Marina (vidros); Springer Carrier, Hitachi (ar-condicionado);
Air Time (instalação do ar-condicionado)

veja também
  Júlio Vieira e Miguel Góes - Banco Real ABN Amro, São Paulo-SP
  Roberto Loeb - Escritório da Senpar, São Paulo-SP
  Amauri de Toledo - Sede administrativa da Mitsui, São Paulo-SP
  Sílvio Heilbut - Escritório de advocacia, São Paulo-SP
  NPC Grupo Arquitetura - Escritório, São Paulo-SP
  Márcio Mazza, Marcelo Couto, Olegário Vasconcelos e Míriam di Matteo - Escritório, São Paulo-SP
 
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