Affonso Risi Junior: Universidade UniABC, em Santo André-SP

Fábrica de idéias

Linguagem fabril no campus da UniABC retrata as transformações econômicas na região do ABC paulista, que perde indústrias e ganha serviços

Fábrica de idéias
Linguagem fabril no campus da UniABC retrata as transformações econômicas na região do ABC paulista, que perde indústrias e ganha serviços
Na área de uma antiga indústria, uma quadra de 300 m2 por 100 m2 situada em Santo André, junto à divisa com São Caetano e à linha férrea, que se implantou a UniABC. Os mantenedores da instituição pretendiam, inicialmente, ocupar as construções existentes. Chamado para elaborar propostas de ocupação da área, o arquiteto Affonso Risi Júnior ponderou que isso era praticamente inviável e convenceu-os a construir as novas instalações.
A implantação apresenta cristalina simplicidade: o programa está divido em duas grandes lâminas paralelas - que acompanham o palalelismo das vias que definem o perímetro do lote -, uma com dois blocos (A e C) e a outra com um (B). Com 14 pavimentos, o bloco A é o volume que diferencia as duas lâminas, pois é o único elemento vertical do conjunto. Dessa forma, ganhando dimensões urbanas, o projeto é facilmente identificado no meio do skyline fabril. Na torre estão abrigados a administração, parte da área didática destinada às ciências humanas, a pós-graduação e a reitoria, que ocupa a cobertura.
O restante do conjunto exibe forte imagem horizontal e desenho primoroso. O bloco C, que compõe a lâmina maior, reúne o restante da área destinada aos cursos de ciências humanas, além de todas as ciências exatas. Já no bloco B, praticamente idêntico ao C, estão os espaços para as ciências biológicas. Apesar do complexo e extenso programa de necessidades, que cria setorização, chama a atenção a flexibilidade de uso do edifício, o que possibilita saudável convivência entre os diversos cursos.
Para todo o conjunto foi adotada a mesma resolução de planta: circulação central ladeada por salas de aulas. O grande ponto do projeto é o sutil escalonamento conferido a ambas as lâminas para vencer a topografia existente - quase plana, se considerada a escala. Para isso, os blocos B e C foram divididos em três pedaços, cada qual com tipologia de “edifícios-pontes”: eles parecem estar apoiados nas torres formadas pelos espaços servidores, situadas nos cantos e identificadas com cores.
As áreas entre os “edifícios-pontes“ formam quatro grandes saguões, nos quais se situam as rampas metálicas que vencem as diferenças de meio nível entre cada edifício. Além disso, esse artifício cria o espaço ideal para a localização das juntas de dilatação. Cada saguão é coroado por auditórios (um deles, inicialmente idealizado para ser o ateliê do curso de arquitetura, foi transformado, durante a construção, em sala de exposições). No último pavimento implantaram-se as áreas em que se liberam gases - como os laboratórios -, cobertas por sheds, elementos que criam uma espécie de contextualismo também alinhado com a linguagem fabril.
Um corte transversal dos blocos baixos revela a intenção de proteger as aberturas, tanto pelo escalonamento como pela instalação de brises. O projeto foi todo modulado em 1,25 m, pois estava prevista a utilização de fechamentos pré-moldados de concreto; durante a construção, optou-se pela alvenaria. O subsolo das construções é ocupado por garagens. Já está programada uma ampliação do campus em um terreno na direção leste, próximo à linha férrea.
Num projeto de amplo espectro como esse, ganham destaque, de um lado, suas qualidades e, de outro, as alterações na concepção original. Isso é sinal de que, embora modificações e adaptações sejam naturais a qualquer execução, em muitos trabalhos de grande escala o arquiteto perde o controle da obra, numa queda-de-braço entre a inflexibilidade (ou as razões orçamentárias) das construtoras e clientes e a defesa de seu projeto.
Neste caso, além de alterações como a citada e a não-construção da capela e da biblioteca, entre outras, nada se iguala à intervenção no pátio interno: inexplicavelmente, a área criada para a reunião e a convivência ao ar livre, que permitiria a sutil leitura da topografia, foi rebaixada ao nível do primeiro piso das garagens. Para a ligação entre as lâminas construiu-se uma ponte. O espaço de convivência foi trocado pelo relacionamento entre veículos.

Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 245 Julho de 2000
Vista do pátio central ao entardecer. As duas lâminas
paralelas se diferenciam pelo elemento vertical
Referência urbana:
o conjunto visto a partir da ponte que cruza a via férrea
Os saguões que abrigam as rampas
são coroados por auditórios
Escalonamento dos edifícios.
O maior tem mais de 200 m
Térreo da torre: área da administração. Interior de saguão
em cujo coroamento está a sala de exposições
Grandes brises protegem o interior de saguão
As aberturas da torre permitem um
"diálogo" com os edifícios horizontais
Rampas marcam o saguão, coroado por auditório

Texto de | Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 245

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