Álvaro Puntoni e Angelo Bucci: Casa, Carapicuíba

Residência, Carapicuíba, SP

Morar e trabalhar: embora essas atividades compartilhem o espaço na residência em Carapicuíba, deveriam estar o máximo possível separadas. Assim se contrapõem o bloco estreito e comprido, suspenso por dois apoios, e o aparente labirinto de estrutura complexa, em que as empenas, associadas a partidos típicos da escola paulista, contribuem para organizar o desnível de seis metros do terreno.

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Plantas, cortes e fachadas
A passarela de acesso é coberta pelo volume do escritório
Volumes contrapostos desenham universo de concreto e vidro
Morar e trabalhar: embora essas atividades compartilhem o espaço na residência em Carapicuíba, deveriam estar o máximo possível separadas. Assim se contrapõem o bloco estreito e comprido, suspenso por dois apoios, e o aparente labirinto de estrutura complexa, em que as empenas, associadas a partidos típicos da escola paulista, contribuem para organizar o desnível de seis metros do terreno.

O pequeno condomínio fechado em Carapicuíba, cidade da Grande São Paulo, tem quase todos os terrenos ocupados por casas típicas da classe média - telhado, pequenas varandas, pintura amarela ou branca e detalhes de tijolinho. Percorrendo a descida inclinada do conjunto, antes que se complete a curva à esquerda já é possível avistar o volume suspenso criado por Angelo Bucci e Álvaro Puntoni.

No primeiro contato com a casa (desenhos e maquete, quando ainda em projeto), a impressão foi de clara contraposição entre o volume suspenso - o protagonista de estrutura bem definida e delimitação simples - e o restante da moradia, aparentemente um labirinto complexo, de posição coadjuvante e emparedado por empenas. Estas foram associadas ao partido típico de alguns projetos da escola paulista - principalmente os desenvolvidos por Ruy Ohtake -, que incorporavam os recuos laterais aos pátios longitudinais.

A cozinha é toda envidraçada
O volume apoiado em dois pilares abriga o escritório

As empenas laterais de Bucci e Puntoni, no entanto, contribuem para organizar o desnível do terreno, que possui seis metros da rua ao ponto mais baixo. Na visão do pedestre que chega à casa, a força delas se dilui em relação à imagem do modelo. Tem-se a impressão de uma cota da cidade - urbana, embora dentro de um condomínio -, espécie de ensaio de uma espacialidade talvez ideal para Bucci e Puntoni. Ali, o piso parece desaparecer em vazios, configurando-se em passarelas e plataformas, de modo a criar uma situação mais rica.

A organização dos espaços fechados sugere um projeto à la Masp, com o térreo livre e ocupação acima e abaixo, tal como Bucci já havia experimentado na casa em Perdizes (São Paulo, 1996), quando ainda compunha o MMBB. A setorização do programa em Carapicuíba (que difere da casa em Perdizes, onde os dormitórios ficam em cima e o restante embaixo) é explicada pelos próprios arquitetos: “Ele reúne duas funções distintas, casa e escritório. Um lugar para morar e trabalhar. Essas funções, embora compartilhem o espaço, deveriam ser tão separadas quanto possível”.

O bloco suspenso por dois apoios possui volumetria incomum, muito estreito e comprido - 3 x 25 metros -, e remete a outros projetos dos autores. Há uma clara relação com a clínica de psicologia de Orlândia, de 1995 (leia PROJETO DESIGN 237, novembro de 1999), projeto de Bucci com o MMBB, em que o pavilhão estruturador alongado e com 2,5 metros de largura apresenta, da mesma forma que em Carapicuíba, pilares alinhados no eixo da edificação. Volume de mesmo tipo e com pilar central também é visto no pavilhão dos quartos em Santa Tereza (2004), de Bucci.

Nas extremidades da sala, os caixilhos de correr deixam o
vão todo aberto
No centro do volume, a escada de acesso ao escritório divide espaço com a copa e o sanitário
O tirante da cozinha elimina o pilar e possibilita a implantação da piscina

Também é possível fazer referência ao projeto residencial do concurso do Elemental (2003), em que Bucci e Puntoni trabalharam juntos e foram finalistas. Nessa disputa chilena, as unidades que eles criaram para o conjunto habitacional, batizadas de Casa U, possuíam apenas 2,5 x 12 metros. Por fim, permitindo-se uma associação mais livre, há ainda a proposta para a biblioteca da PUC no Rio de Janeiro (2006), concurso vencido por Bucci, na qual o pavilhão suspenso adquire outra escala.

Projeto e fotos da obra davam a impressão de que os volumes (quase enterrados) da casa deixariam o espaço escuro e sombrio. Em dias ensolarados, no entanto, a residência mostra-se radiante, cheia de luz. A sensação de clausura, que poderia ser piorada com o indesejável muro posterior, não existe. Por outro lado, graças às empenas e à cota rebaixada, a moradia envidraçada adquire privacidade.

Os níveis construídos, as escadas e os vazios, dependendo do ângulo em que são vistos, parecem configurar um universo de concreto e vidro à la Escher. Nesse espaço subterrâneo, os autores recriam a tão desejada nova geografia, de afirmação humana sobre a natureza. Ela está presente em uma série de projetos, como a moradia em Ribeirão Preto (2000), de Bucci/MMBB, da qual a casa de Carapicuíba herdou diversos detalhes e parte da estrutura.




Texto resumido a partir de reportagem
de Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 342 Agosto de 2008


Álvaro Puntoni e Angelo Bucci formaram-se na FAU/USP em 1987 e possuem escritórios independentes em São Paulo.
Recentemente, Puntoni venceu o concurso para a sede do Sebrae em Brasília e Bucci foi o ganhador da competição para projetar a biblioteca da PUC/RJ
Vista da varanda de acesso: à esquerda fica a entrada para a cozinha e à direita, para a sala
Escada que interliga os pisos da casa, vista da sala íntima
A cozinha é toda envidraçada
A circulação íntima divide espaço com a bancada
do banheiro
Interior do escritório, com pilar central e varanda na
extremidade
O caixilho aberto da área de estar (à direita) posiciona-se
à frente do vidro da cozinha
A piscina está implantada no piso mais baixo, na mesma
cota dos dormitórios
Observado de baixo, o volume do escritório surpreende
Maquete
Maquete

Texto de | Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 342
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