Boldarini Arquitetos Associados: Urbanização Silvina Audi e conjunto habitacional Duarte Murtinho, São Bernardo do Campo, SP

Alta-costura urbana

A linha do tempo da habitação pública no país é curta e pode-se considerar seu início em 1946, com a criação da Fundação Casa Popular. Desde então, grandes nomes de nossa arquitetura têm contribuído para a sua produção. Mas urbanização de favelas, prática iniciada em 1969 no bairro de Brás de Pina, no Rio de Janeiro, é trabalho para quem gosta. Pelo menos são esses arquitetos “do ramo” que se mantêm nessa área. E é neste permanecer que o ofício ganha recortes valiosos, que a experiência e a observação produzem metodologias a serem replicadas e continuamente aprimoradas. Como é o caso do escritório Boldarini Arquitetos Associados, que trabalha com muito talento e também esforço e dedicação. A seguir, o seu mais recente trabalho em São Bernardo do Campo

Os projetos do Boldarini Arquitetos Associados têm contribuído para a construção desse saber tão recente na sociedade brasileira, que padece de programas tanto de implantação quanto de sistematização contínuos. A experiência acumulada provém de projetos que corresponderam perfeitamente às suas expectativas, mas igualmente daqueles frustrados. Todo o seu aprendizado resulta em ajustes de rumo, abandono de propostas antes consideradas adequadas e proposição de novas soluções. Sem coragem e humildade, não é possível trabalhar em favelas.

Da mesma forma que a alta-costura tem se reinventado, incorporando práticas de industrialização ao trabalho artesanal realizado sob medida com habilidade e expertise por grandes equipes, os processos de atuação desenvolvidos por esses arquitetos criam novos métodos e apoiam-se na tomada de decisões em campo, pela equipe da empreiteira, capacitada e guarnecida pelo escritório para que os principais conceitos do projeto sejam respeitados. Puro luxo, lindo de se ver.

Isso porque, além dos insumos de projeto como topografia e sondagens, produzidos a partir da interpretação de área densamente ocupada, serem por natureza imprecisos, há que se considerar também as constantes alterações ocorridas no sítio - que tem caráter dinâmico - durante a execução das obras, impossíveis de se prever ou controlar: não faltam motivos para ajustes de projeto.

A concepção do Jardim Silvina Audi, aqui apresentado e coordenado pela Secretaria de Habitação da Prefeitura de São Bernardo do Campo, teve início, como de praxe, com um diagnóstico do assentamento precário. O planejamento e as diretrizes de projeto vêm sendo desenvolvidos e aperfeiçoados nos últimos anos por equipes multidisciplinares do órgão público, e retroalimentados pela experiência em campo.

Os elementos levantados foram classificados e hierarquizados, na seguinte ordem: risco geotécnico, condicionantes naturais, infraestrutura (principalmente redes de esgoto e drenagem), precariedade habitacional, além da mobilidade. Naquela ocupação que representa menos de 4% da demanda municipal, viviam 3.265 famílias. Ao final do processo, cerca de 2.308 domicílios serão mantidos com os benefícios da urbanização e outras 957 famílias terão sido reassentadas em novas unidades habitacionais - um índice de 29% de remoção.

Cada domicílio demarcado no mapa de remoções representa: uma família que deixará seu lar, demolição e remoção de entulho, uma nova unidade habitacional, a recomposição da área liberada conforme definido pelo projeto. Os primeiros apartamentos entregues no conjunto Duarte Murtinho negociam com o território com a precisão necessária, que prêt-à-porter nenhum seria capaz de cumprir. Respeito à escala do entorno, ajuste à topografia, uso misto no nível térreo, densidade adequada, caimento perfeito.

A comunicação visual e sinalização - projeto que rendeu prêmios ao parceiro Ps.2 Arquitetura + Design - apontam caminhos e paradas dentro dos nove pavimentos do edifício e participam da composição da fachada do mesmo. Há também a tipologia unifamiliar para acomodar reassentamentos, com versão de três pavimentos e comércio no térreo, que vem com um manual de implantação permitindo à empreiteira contratada decidir por sua melhor utilização nos lotes vazios da área: original, espelhada ou colada na divisa. A experiência permite tal desprendimento e confiança; algumas decisões podem e devem ser feitas pela equipe da obra, desde que tenha em mãos todos os elementos necessários.

A decisão de manutenção dos demais domicílios envolve responsabilidade do mesmo porte. Significa reconhecê-los como solução habitacional, acrescidos da infraestrutura urbana agora ofertada. Um pacto multisetorial que valoriza as preexistências, flexibiliza o atendimento às questões ambientais, aceita um caminho de evolução intermediário de uma sociedade que ainda não proporcionou acesso às redes de esgoto para metade de sua população.

São poucas as oportunidades para projetar espaços públicos. O trabalho consiste, primordialmente, na implantação do melhor desenho urbano possível com as inclinações do viário existente - o que não é pouca coisa! Para compreender sua importância, basta fazer um breve exercício, colocando-se no lugar de uma mãe que carrega seu bebê em um dia de chuva por uma rua íngreme, escura, com piso irregular, sem redes de drenagem ou esgoto, com carros e motos passando em alta velocidade.

As dezenas de escadarias solucionam estas e outras questões. Regularizam o caminhar com espelhos na mesma altura e corrimões; criam patamares de acesso para todo domicílio, aliados a jardineiras que contribuem para o conforto ambiental e a privacidade das residências; solucionam a implantação de redes de infraestrutura cuja ausência pode, inclusive, agravar o risco geotécnico ou índices de segurança pública e viária; o dégradé de cores gera identidade e orgulho. O projeto começa no papel, bidimensional, e termina em campo, ajustando-se aos contornos existentes como uma moulage. Em uma palavra, as novas escadarias reúnem respeito.

Um projeto preciso e sofisticado para área extremamente complexa. Nada de padrões pronta-entrega, que servem para qualquer lugar, com a qualidade que puder resultar. Afinal, alguns desafios podem até se repetir, mas requerem análises e soluções específicas, aqui elaboradas com o esmero e a qualificação da haute couture da arquitetura. (Por Maria Teresa Diniz - arquiteta e urbanista, mestre em Geografia pela Sorbonne, professora do USP Cidades para PECE Poli e editora do Urbitandem)



Marcos Boldarini formou-se pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade Brás Cubas, em 1998. É o titular do estúdio que leva seu nome, no qual são desenvolvidos projetos de edifícios, urbanismo e paisagismo, com ênfase na urbanização de favelas e habitações de interesse social.



Ficha Técnica

Urbanização Integrada Jardim Silvina Audi
Local São Bernardo do Campo, SP
Início do projeto 2010
Realização e coordenação Prefeitura do Município de São Bernardo do Campo / Secretaria Municipal de Habitação

Urbanismo, arquitetura e paisagismo Boldarini Arquitetos Associados - Marcos Boldarini e Lucas Nobre (autores); Alexandre Vergara, Angelo Filardo, Jhonny Rezende, Juliana Pedroso, Larissa Reolon, Marcia Trento, Melissa Matsunaga, Renato Bomfim, Ricardo Falcoski e Paula Ferndr (colaboradores)
Comunicação visual PS2 arquitetura + design
Projeto ambiental Ackermann Consultoria Ambiental
Jurídico e fundiário Urbis Oficina de Projetos e Estudos da Cidade
Topografia e sondagem Solotec Engenharia (básico) / Planova Planejamento e Construções (executivo)
Drenagem, esgotamento sanitário e abastecimento de água Pezzi Consultoria (básico) Geométrico, terraplenagem, pavimentação e drenagem HProj Engenharia (executivo); Geométrica Engenharia de Projetos (Av. Padre Leo Commissari)
Estrutura predial Somatec Engenharia
Fundações Geobrax Engenharia
Instalações hidráulicas prediais Pezzi Consultoria (Básico) / HProj Engenharia (executivo) Instalações elétricas DMA Engenharia
Trabalho social Secretaria de Habitação / Diagonal Transformação de Territórios Gerenciamento de projetos e obras Secretaria de Habitação / Consórcio Falcão Bauer, Sistema Pri e JHE
Execução das obras Planova Planejamento e Construções

Texto de | Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 440
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