Elizabeth de Portzamparc: Musée de la Romanité, Nîmes, França

Um museu permeado pela cidade

Nimes, ao sul da França, concorre ao título de Patrimônio Mundial da Unesco e o tema da sua candidatura é A Antiguidade no Presente. A cidade valoriza tanto a densidade e a vivacidade com que as construções romanas perduraram no espaço urbano, quanto o seu convívio com a arquitetura do presente. Assim, a recente inauguração do Musée de la Romanité, projetado por Elizabeth de Portzamparc, coroa um processo político de promoção da arquitetura contemporânea em Nimes, comandado pelo ex-prefeito Jean Bousquet e pelo atual prefeito, Jean-Paul Fournier (há três mandatos no poder), tendo o primeiro promovido o concurso para a criação do centro cultural Carré D’Art (Norman Foster, 1993) e o segundo, ex‑secretário de urbanismo de Bousquet, o concurso vencido por Elizabeth em 2012

Parte de um circuito de cidades do sul da França que possuem remanescentes de construções romanas, Nimes tem a particularidade da pequena escala. É caminhável o percurso que cruza o centro antigo da cidade, chegando na Port d’Auguste, na Tour Magne, na Maison Carrée e nas Arènes de Nîmes. Mais do que isso, o visitante percebe a relação espacial entre elas porque são todos monumentos abrangidos na vista do horizonte que se tem a partir da torre pré-romana do cume da colina (o Mont Cavalier), ao fundo de Nimes.

Esse é o contexto, acolhedor, do Musée de la Romanité concebido pela brasileira Elizabeth de Portzamparc, cuja carreira - primeiro como socióloga atuante no campo do urbanismo e depois como arquiteta e urbanista - se desenvolveu na França. Vencedora de concurso fechado promovido entre 2011 e 2012 pela municipalidade, do qual foram finalistas também os projetos de Richard Meier e Rudy Riccioti, Elizabeth demonstra familiaridade com essa característica de Nimes.

Se a cidade, assim, é uma espécie de museu a céu aberto, o museu criado por Elizabeth - inaugurado em 2 de julho deste ano - é, por sua vez, atravessado pela cidade, tanto física quanto visualmente. O terraço panorâmico da cobertura é de livre acesso e uma das mais importantes peças do acervo (fragmentos do frontão do Sanctuaire de la Source, monumento já não existente e que remonta à origem da cidade) está localizada na rua semipública que, no térreo, liga a calçada frontal ao jardim arqueológico do pátio interno. O térreo é transparente e há janelas que permitem se ver de fora partes da mostra permanente, quase toda exposta no primeiro pavimento.

As janelas e transparências integram também o Musée de la Romanité ao seu vizinho, o anfiteatro do século 1º d.C. (Arènes de Nîmes), mas à parte o simbolismo de tal proximidade, a morfologia urbana favorece a independência de ambos. O fato de as duas construções serem deslocadas entre si, por causa do rebatimento da forma elíptica do anfiteatro nas ruas do entorno, faz com que o museu mais tangencie do que faça face a ele. Convivem no projeto, portanto, o inevitável confronto com o passado - que alimenta o turismo de Nimes e de que o anfiteatro é protagonista - e a afirmação do presente, atuando o museu como um catalisador de novas possibilidades de vivência do espaço público.

É sintomático, portanto, o fato de Elizabeth - que define o seu processo criativo como essencialmente analítico, não empírico, orientado à perenidade (material e da vitalidade urbana) das construções - ter implantado o térreo na mesma cota da calçada, o que insere o museu no fluxo cotidiano da cidade. A poucos metros de distância, por exemplo, a biblioteca municipal e museu de arte contemporânea (Carré d’Art), projetado por Norman Foster e inaugurado em 1993, é acessível através de escadaria (similar à suspensão do solo da edificação vizinha, a Maison Carrée), de modo a evocar um tipo de imponência inexistente no projeto da arquiteta brasileira.

Assim, frente à luminosidade pulsante do jardim arqueológico que é visto em sua totalidade desde a rua, enquadrado pelo átrio que abriga o frontão antigo, é automático o movimento do pedestre de cruzar o museu e, assim fazendo, escolher entre permanecer no seu domínio ou seguir caminho, acessando as vias do entorno.

Isso não significa, porém, que não exista tensão entre as Arènes e o Musée de la Romanité, pois, embora a estratégia do projeto seja a de inseri-lo com naturalidade naquela esquina de Nimes, a estética é destoante. Sobretudo no que diz respeito às fachadas de forma ondulante que envolvem o núcleo expositivo da construção - o museu, como um todo, tem implantação em L, com uma ala administrativa, pedagógica e auditório, mais perceptível do jardim do que da rua -, feito com peças curvas (1,50 metro de largura por 0,20 metro de altura) de vidro serigrafado com quadrados brancos (um mosaico) de 20 centímetros. Elas são presas a colunas suspensas do chão, soltas da fachada interna por meio de uma câmara de ar e fixadas nos pilares da construção.

As curvaturas, horizontais e verticais, dessa superfície externa correspondem à ideia de Elizabeth de imprimir ao museu a sensação de levitação, relativa à leveza construtiva contemporânea e contrária, portanto, à materialidade maciça (de blocos de pedra) das Arènes, assim como à sua geometria racional. E tão mais perceptível é tal relação conflituosa - que a arquiteta credita ao misto de ousadia pessoal e à liberdade que se tem em Nimes de se afirmar a arquitetura contemporânea frente à do passado - quanto mais o observador se aproxima da esquina noroeste, que é o ponto de maior proximidade entre as construções.

O detalhamento da fachada ocorreu de modo a gerar o menor sobrepeso possível à construção, tendo como critérios o fato de se tratar de uma região sísmica e o desejo de se minimizar a quantidade e a dimensão dos pilares. São mais de 5.000 peças expostas na mostra permanente, que vão do pequeno objeto doméstico a esculturas de grande porte, o que por si só já gera uma condição peculiar de dimensionamento estrutural.

Mas, ao percorrer a mostra - organizada cronologicamente, da Idade do Ferro (época gaulesa), aos períodos Românico e Medieval, e aos legados romanos no mundo moderno -, os pilares do Musée de la Romanité são, de fato, discretos ao visitante, tanto pelo êxito da arquiteta e equipe em fazê-los delgados e suficientemente distantes entre si, quanto por causa da qualidade da expografia e dos interiores.

Embora a grande densidade do acervo, assim, há pontos de espacialidade vasta e exuberante, como a do foyer - dominado pela presença da escada de dupla curvatura que, por sua vez, tem rebatimento na cobertura apoteótica do museu: um terraço‑jardim de livre acesso através de uma rampa curva com suave inclinação - e das vistas dinâmicas que se tem a todo momento de pontos da mostra entre si, e dela para o exterior. As duas aberturas laterais da fachada trazem as Arènes de Nîmes para dentro do museu, em uma interessante relação visual do monumento em si com a história que o envolve.


Elizabeth de Portzamparc recebeu o título de arquiteta em 2006 por uma comissão especial do Ministério da Educação e Cultura da França. Formada em sociologia urbana pela Universidade de Paris 5 e em desenvolvimento e planejamento urbano pela Paris 1 Sorbonne, a carioca, com carreira desenvolvida na França, fez ainda doutorado na École des Hautes Etudes en Sciences Sociales. Elizabeth nasceu no Rio de Janeiro, mas fez carreira na França. Seu escritório é composto por arquitetos, urbanistas, cenógrafos, sociólogos e cientistas políticos, especializados na pesquisa de assuntos relacionados ao meio ambiente e à sociedade.



Ficha Técnica

Musée de la Romanité
Local
Nîmes, França
Início do projeto 2011
Conclusão da obra 2018
Área construída 9.200 m2

Arquitetura 
2Portzamparc - Elizabeth de Portzamparc (autora), Alexandre Belle (gerente do projeto museográfico), Aldo Ancieta (gerente do projeto executivo), Sarah Coriat (gerente do projeto do edifício), Alain-Charles Perrot (arquiteto dos monumentos históricos); A + Architecture (arquitetos associados)
Museografia EDP et Associés - Elizabeth de Portzamparc (autora)
Paisagismo Méristème et Les Fontaines de Paris
Fotos Serge Urvoy, Nicolas Borel, Wade Zimmerman e Stéphane Ramillon

Texto de Evelise Grunow| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 444
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