Estúdio Tupi: NK Store e showroom da Uniflex, SP

Citações e comentários em arquitetura

Inauguradas com o intervalo de um ano, as lojas NK Store e Uniflex, localizadas em São Paulo, são reformas idealizadas pelo escritório paulistano Estúdio Tupi. Nelas estão presentes citações e comentários sobre obras icônicas da arquitetura moderna brasileira, seja como uma escolha de projeto - na NK, os arquitetos inseriram uma quase réplica da escada helicoidal que Oscar Niemeyer implantou no Palácio do Itamaraty, em Brasília, há cinco décadas - ou como algo inevitável. Isso porque a Uniflex ocupa o edifício da antiga loja Forma, obra‑prima de Paulo Mendes da Rocha, e os arquitetos do Tupi sabiam de antemão que intervir nela era como mexer em um vespeiro. Com pouca chance de sucesso de crítica

NK Store

Fazer citações sobre partes ou o todo de obras consagradas da arquitetura moderna brasileira tem sido uma prática recorrente nos projetos do Estúdio Tupi, funcionando como espécie de motivação ou indagação sobre o sentido do próprio trabalho.

Quando publicamos o plano diretor (não implantado) que os arquitetos desenvolveram em parceria com o escritório Rizoma para o centro de arte de Inhotim (edição 396, fevereiro, 2013), em Minas Gerais, já aparecia o argumento de um estranho Grande Hotel de Ouro Preto (projeto de Oscar Niemeyer, de 1940). Estranho porque idealizado com inexequíveis dois quilômetros de extensão.

Ao serem convidados para participar do concurso fechado para a concepção da NK Store, assim, o arquiteto Aldo Urbinati e equipe aliaram à sua proposta de criar não uma loja, mas uma casa de moda - à imagem da Maison Chanel, de Paris -, a ideia de inserir no local (o remembramento de duas construções vizinhas, com frentes voltadas para duas ruas e especialidades internas diversas entre si) uma réplica da escada do Palácio do Itamaraty, obra de Oscar Niemeyer em Brasília.

Era esse o modo de criar um ponto alto do projeto - a escada ocupa a região com maior pé-direito do imóvel, ainda que deslocada em uma lateral - e de suscitar a discussão sobre a imagem no campo da arquitetura, ou sobre a sua autonomia em relação ao original, em um mundo essencialmente imagético. Quanto de repetição - reinterpretada - de imagens há na história da arquitetura?

No que diz respeito à criação de uma casa de moda, o projeto do Estúdio Tupi se baseia, em síntese, na possibilidade de que todos os objetos expostos - roupas e acessórios - desapareçam atrás de cortinas ou dentro de nichos de armários. A loja tem planta em forma aproximada de T e é justamente no corpo alongado que se estendem lateralmente as araras, circundadas por cortinas piso-teto, enquanto que no espaço intermediário - onde estão embutidas as paredes estruturais - há armários para a exposição de objetos.

À luz difusa predominante (leia matéria, nesta edição, sobre o trabalho do lighting designer Carlos Fortes) soma-se a tonalidade quente da madeira pau-ferro que reveste toda a marcenaria, resultando na ambiência aconchegante dos interiores. São três pavimentos no total, sendo o último reservado ao escritório e a eventos especiais. O corte parcial da laje de piso do primeiro andar fez surgir uma região de arara com pé-direito duplo, cuja altura da cortina confere verticalidade à sala quase excessivamente alongada.

Em relação à teatralidade da escada de Niemeyer, fizeram parte do desenvolvimento do projeto questões como a compatibilidade entre a sua dimensão real e o espaço disponível no local e, em seguida, sobre as condições de visibilidade e de contexto para que uma escada do Itamaraty fosse como a escada do Itamaraty, ou seja, como na memória que temos dela reproduzida por fotografias.

Disso resultou a demolição de pilares que despontariam, aleatoriamente, em meio aos degraus, e o revestimento total, com espelhos, das duas paredes que cercam a escada, iluminados pela luz zenital da claraboia. Do encadeamento entre as imagens neles refletidas, o visitante tem a sensação de se encontrar em meio a “quatro” escadas do Itamaraty. Tudo superlativo, como no mundo da moda.

Uniflex (Re-Forma)

No caso do showroom da Uniflex, era muito mais difícil o embate com um ícone da arquitetura pelo simples fato de se estar dentro de um; e não de um qualquer, mas da obra de arte que é o edifício da Forma, de Paulo Mendes da Rocha. Aldo Urbinati, no seu autobiográfico livro-manifesto (Mea Culpa ou como fizemos para reformar a Forma de Paulo Archias Mendes da Rocha, editado de forma independente) sentencia o infortúnio do seu projeto: “Sendo uma loja de cortinas e persianas, mais as empresas que venderiam luminárias e móveis corporativos lá, transformava qualquer tentativa de não tocar no edifício original algo bastante complicado”.

De fato, é difícil olhar o resultado do projeto do Estúdio Tupi (batizado no escritório de Re-Forma) sem lamentar a perda da proeminência do grande vazio interno da Forma, fadada à imutabilidade por sua extrema beleza, mas vamos acompanhar o raciocínio do arquiteto sobre o caminho trilhado no seu projeto.

Sabendo da impossibilidade de pensar o vazio interno - exposição de cortinas, manipulação de mostruários e mostra de móveis (inclusive de uso externo), além de salas de reunião, de trabalho, de atendimento ao cliente e home theather contemplam o programa, demandando a segmentação do espaço -, a chave do projeto foi fazer comentários sobre a Forma.

“A questão era tocar mesmo na obra e evitar este clichê de velho e novo […] mas como quem faz como se ele fosse quem já fez o original, sem emular este, sabe? Fazer através da sua voz”, reflete o arquiteto. Quem entra na Uniflex e quer ver a Forma tem, assim, elementos facilitadores que são “cópias do que não estava lá dentro de forma visível“, explica Urbinati em seu livro.

Os mais fáceis de serem percebidos são os guarda-corpos metálicos que, embora tenham sido removidos do seu local de origem, foram reposicionados de modo a chamar a atenção para a elegância do desenho de Mendes da Rocha, sobretudo os raios de curvatura dos pontos de inflexão e os pés de apoio.

Mantiveram-se os guarda‑corpos junto às pequenas escadas que interligam o primeiro pavimento com a laje da vitrine, mas eles agora estão conectados com móveis de serralheria que, na frente, funcionam como mapoteca e, nos fundos da edificação, como balcões. Nessa operação, os pés metálicos dos guarda-corpos literalmente subiram na mesa, como se fossem alçados à categoria de objetos de estudo ou admiração. Parte dos guarda-corpos foi ainda implantada na calçada, conformando um irônico porte-cochère.

A modulação da estrutura foi outro elemento citado pelo projeto do Estúdio Tupi, mais exatamente os eixos da estrutura metálica que conforma a parte superior do edifício, ou seja, as fachadas, a cobertura e o mezanino.

Tal citação é uma malha quadrada que se materializa tanto no forro - saíram as grades e entraram placas acústicas de 1,20 metro de lado, espaçadas de modo a deixar visível toda a estrutura da cobertura - quanto nas salas envidraçadas que, soltas do teto, acomodam parte do programa, assim como nos móveis de serralheria (que são como cubos repetidos à exaustão) e, por fim, em espelhos sobrepostos internamente às fachadas de modo a refletir o movimento das pessoas dentro da loja - também esta é uma citação à vitrine da Forma que, conforme concebida por Mendes da Rocha, mostrava o rápido movimento dos automóveis na avenida Cidade Jardim.

Todas essas intervenções - assim como os nichos implantados na parte superior interna das fachadas para servirem de mostruário de cortinas, como se fossem janelas - foram pintadas de vermelho, enquanto que o que é objeto de venda é cinza. Também as fachadas metálicas foram revestidas com adesivos na cor vermelha - da mesma intensidade do vermelho automotivo dos objetos dos interiores -, aos quais estão sobrepostos traços que remetem ao Templo Malatestiano, em Rimini, na Itália, uma igreja gótica que foi reformada segundo projeto de Leon Battista Alberti.

Muitos interpretaram a operação como um elogio ao neoclassicismo dos edifícios do entorno, mas, para Urbinati, trata-se do enquadramento da obra de Mendes da Rocha com a arquitetura tal como é concebida desde a Renascença.

  
Estúdio Tupi

Constituído em 2004, o Estúdio Tupi tem como sócios os arquitetos Aldo Urbinati, Andrea Bazarian e Rafael Ayres, todos graduados pela Faculdade de Arquitetura da Universidade Mackenzie, respectivamente em 2000, 2001 e 2002.



Ficha Técnica

NK Store
Local São Paulo (SP) 
Início do projeto 2017
Conclusão da obra 2018

Arquitetura Estúdio Tupi
Luminotécnica Carlos Fortes
Automação Cyntron
Comunicação visual DZIM Design Gráfico
Paisagismo Rodrigo Oliveira
Estrutura Praxis Engenharia e Consultest (escada helicoidal)
Concreto GR Consultoria
Acessibilidade iSocial
Climatização Pro RAC
Elétrica Alor Elétrica
Hidráulica Install
Irrigação Regatec
Gerenciamento da obra SAENG Engenharia
Fotos Andrés Otero

Uniflex Cidade Jardim
Local São Paulo (SP)
Início do projeto 2018
Conclusão da obra 2019

Arquitetura Estúdio Tupi
Luminotécnica Carlos Fortes
Automação Wedoo
Comunicação visual DZIM Design Gráfico
Paisagismo Renata Tilli
Recuperação de concreto e lixamento de piso TopSeal
Climatização Consult
Instalações elétrica, hidráulica e prevenção de incêndio NBR
Gerenciamento da obra Osborne Construtora
Fotos Leka Mendes

Fornecedores

NK Store
Viecelli (marcenaria); Ulimax (caixilhos de madeira); Atlas Schindler (elevadores); Light Source (iluminação); Dpot (mobiliário); Clatt (carpete); Uniflex (cortinas); Bellas Artes (pedras)

Uniflex Cidade Jardim
Mobbi (mobiliário, cadeiras e estofados, divisórias, carpetes); Flow (iluminação); Armstrong (forros acústicos); Madeiras Ecológicas (deque); Uniflex (cortinas e persianas); Stobag (toldos e coberturas); Rollit (vidros e espelhos); Top Seal (piso de concreto); Bellart (estrutura metálica); M5 (pintura automotiva); Consult (ar-condicionado); By Kamy (tapetes); Extra (cerâmica); Florense (cozinha e copa); Di Mármore (pedras); Renata Tilli (paisagismo); JRJ (tecidos); Luminae (LEDs); Galo (ferragens)

Texto de Evelise Grunow| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 448
  • 0 Comentários

ENVIE SEU COMENTÁRIO

Assine PROJETO e FINESTRA!
Acesso completo grátis para assinantes


Quem assina as revistas da ARCO pode acessar nosso acervo digital com mais de 7 mil projetos, sem custo extra!

Assine agora