FINESTRA: Dávila Arquitetura, ION Escritórios Eficientes, Brasília

Convívio no trabalho

No primeiro momento, o edifício comercial ION seria mais uma torre corporativa, com andares corridos, em Brasília. Mas a dinâmica do mercado imobiliário apontava para outra direção. Para atender a demanda optou-se por um complexo comercial dividido em salas individuais, COM LAJES remembráveis. O projeto do imponente lobby, ponto central do empreendimento, somado ao desenho de fachadas, atende a expectativa do empreendedor de ter um edifício completo e diferenciado

Considerando a legislação de Brasília, o ponto de partida do projeto arquitetônico, assinado pelo escritório Dávila Arquitetura, foi rebaixar o terreno em declive para otimizar a altimetria. “A solução permitiu criar uma ambiência própria, acolhedora e verde, favorecendo um microclima agradável para os níveis inferiores de salas e também para as áreas comuns do edifício, com pátios e jardins de convivência. O terreno de 18.880,63 metros quadrados é delimitado por duas vias principais e uma via transversal de ligação, e em seu centro o lobby envolto por espelhos d’água com cascata faz a conexão entre as cotas alta e baixa. No nível superior, é possível acessar uma das duas prumadas de elevadores panorâmicos. Nele encontram‑se a recepção, a principal área de estar e lojas que se conectam tanto com o interior do lobby quanto com os pátios externos”, explica o arquiteto Afonso Walace de Oliveira, diretor do escritório de arquitetura.

Com nove pavimentos, o complexo de 60.938,49 metros quadrados de área construída é formado por quatro blocos, interligados com o centro através do grande lobby para onde convergem os corredores dos pavimentos. Em dois trechos dessa malha de circulação não existem salas, mas amplas janelas que configuram uma espécie de portal para o ambiente exterior, levando luz e ventilação para o interior do lobby, além de servir, no piso térreo, de acesso aos pátios externos ajardinados.

Instalado sob uma cobertura de vidro, o lobby, com pé-direito alto, distribui-se em dois níveis interligados por escadas rolantes e convencionais. A partir do nível mais baixo, o pé-direito do átrio tem 18,65 metros e o do segundo nível alcança 15,23 metros de altura. A cobertura de vidro promove luz zenital de forma agradável devido à combinação de vidros de proteção solar, brises horizontais e venezianas que auxiliam a circulação de ar.

A claraboia, com 13,8 de largura e 52,75 metros de comprimento, possui estrutura metálica que suporta as venezianas e a caixilharia produzida com vidros laminados de 12 milímetros de espessura encaixados em perfis de alumínio do sistema Grid, composto por colunas de 140 x 50 milímetros, travessas e sistema de fixação do vidro através de tampa e contratampa.

Segundo Oliveira, apesar das dimensões da claraboia, “a incidência solar no lobby ocorre basicamente em torno do meio-dia, com sol a pino, e afeta áreas de circulação. A ventilação geral é favorecida pelo fluxo de captação de ar nos níveis inferiores com exaustão pela cobertura; colaboram ainda as amplas janelas nas conexões entre as alas”.

Na laje de cobertura foi instalada uma marquise de aproximadamente 2.895,50 metros quadrados de área construída, destinada a abrigar salas de reunião. Sua estrutura recebeu concreto na maior parte e elementos metálicos revestidos com painéis de alumínio composto nos trechos inclinados das extremidades.

CERTIFICAÇÃO AQUA

De acordo com o arquiteto, o edifício possui a certificação Aqua de alto desempenho em todos os níveis. Além do sistema de automação para controle de iluminação e dos dispositivos de economia de água potável e do reúso de águas pluviais para irrigação dos jardins e lavagem das garagens e pisos externos, a construção foi pensada para atender aspectos de conforto termoacústico.

“Nas divisórias entre unidades autônomas, os perfis de alumínio dos fechamentos possuem preenchimento de lã de rocha para isolamento acústico. Foram feitos ensaios de desempenho em pontos específicos da fachada cortina para comprovação da eficiência dessa solução e o resultado do ensaio superou a exigência indicada pelo consultor de acústica”, afirma Crescêncio Petrucci, consultor e responsável pelo projeto executivo de fachada.

Já o formato do complexo, alusivo à letra H, possibilita que a paisagem seja descortinada por todos, ao mesmo tempo que atende os aspectos térmicos. “A angulação dos blocos direciona grande parte da visada das salas dos pavimentos superiores na direção do Lago Paranoá ou da Esplanada dos Ministérios, e os pavimentos inferiores se beneficiam da vista dos jardins”, afirma o arquiteto.

Oliveira explica que foram feitos estudos para a definição de soluções das fachadas em função da incidência solar, considerando que dentro do conceito de visibilidade do edifício a envoltória seria feita com peles de vidro. “Tal característica originou a fachada em zigue-zague nas alas anguladas em relação ao lobby central e nas alas perpendiculares a ele. Além do ar condicionado individualizado nos andares, foram utilizadas aletas que se projetam do edifício, ajudando a reduzir a incidência solar, praticamente ao longo de todo o ano.”

O grande átrio central também auxilia no tratamento térmico do edifício. O ambiente é mantido sempre fresco, devido ao efeito chaminé adotado no espaço. O ar quente sobe e é liberado por venezianas instaladas na claraboia permitindo a troca de ar constante e sem custo de energia. Além disso, amplos pórticos situados em pontos opostos do átrio oferecem ventilação cruzada que pode ser regulada em diferentes épocas do ano, através de janelas com lâminas de vidro deslizantes.

Outro item adotado conforme a especificação do selo Aqua é a adoção de um vidro que garante níveis adequados de iluminação nas salas. Os utilizados na face externa do empreendimento são de controle solar na cor prata com transmissão luminosa de 38%, reflexão externa de 19%, fator solar SHGC de 0,42.

ORIENTAÇÃO DAS FACHADAS 

As visadas, a orientação solar (evitando insolação direta na fachada noroeste) e a solução de equipamento de ar condicionado foram determinantes para a concepção das fachadas. Como cada sala tem seu próprio sistema de climatização, os arquitetos substituíram as soluções convencionais, que costumam produzir as famosas “caixas de abelha“ (de difícil acesso e que poluem visualmente a edificação), por outras duas soluções.

A primeira é a combinação de venezianas metálicas, que ventilam e escondem as máquinas de condicionamento de ar, com brises metálicos verticais e perpendiculares a elas e, consequentemente, ao plano da fachada. Os brises colaboram tanto para regular a insolação no pano de vidro que veda as salas, quanto no próprio cômodo das máquinas.

“Presentes em todas as faces dos blocos voltados para as vias do Setor de Grandes Áreas Norte (SGAN) e Embaixadas Norte, eles são formados por uma estrutura tubular de alumínio e fixação dupla para evitar a torção nas colunas da fachada cortina. O fechamento da lâmina de brise foi executado com chapa de alumínio composto com 4 milímetros de espessura na cor branca. As juntas são de topo e não marcam o brise, que teve sua estrutura conectada ao painel de fachada antes da sua instalação na obra”, explica o consultor de fachada.

A outra solução define planos inclinados em relação a cada pavimento, promovendo a mesma ocultação das máquinas de condicionamento de ar, cujas venezianas ficam voltadas mais para o interior do empreendimento, enquanto viabilizam panos de vidro que descortinam a paisagem. “Ambos os sistemas produzem um interessante efeito plástico e volumétrico, acentuado pelo espelhamento suave dos vidros, criando efeitos visuais que provocam e estimulam o olhar do observador”, detalha o arquiteto Afonso Walace de Oliveira.

A envoltória possui geometria muito particular. Segundo Petrucci, “os planos de vidro possuem várias reentrâncias e saliências anguladas, assemelhando-se a um serrilhado (zigue-zague). Na face frontal, a fachada é interrompida por lajes de forma quase aleatória, e os trechos das lajes técnicas são revestidos com alumínio composto. A porção serrilhada da fachada possui fechamento com vidro laminado de controle solar e veneziana de alumínio na região da área técnica de ar condicionado. Nos trechos voltados para a via SGAN e via das Embaixadas Norte, a fachada é plana, com fechamento em vidro laminado e veneziana na região da área técnica de ar condicionado. Essa fachada possui brises com lâminas verticais medindo 0,91 metro de largura e 2,20 metros de altura e 10 centímetros de espessura. Na extremidade dessa face, existe uma pele de vidro plana com inclinação negativa de 26 graus em relação ao plano vertical”.

“Os planos inclinados são propositais. Eles fazem concordância com os taludes limítrofes do terreno, têm efeito plástico e criam um impacto visual no arremate do edifício, junto aos dois principais acessos. Os planos negativos demandaram transições na estrutura e as angulações (zigue-zagues) necessitaram detalhes de acabamento mais elaborados e lâminas de vidro de dimensões variadas, embora dentro de um padrão racional. Além do vidro, as fachadas também ganharam detalhes revestidos com painéis de alumínio composto que recobrem as áreas opacas”, detalha Oliveira.

“Todas as fachadas externas foram fabricadas com sistema glazing (vidro colado com silicone estrutural) e com sistema de montagem unitizado, inclusive o trecho serrilhado e inclinado. O sistema unitizado possui três linhas de vedação e uma ancoragem por pavimento, exceto alguns trechos no térreo e no pavimento semienterrado, onde há esquadrias entre vãos com sistema Stick. Para a solução dos ângulos interno e externo do zigue-zague foi desenvolvido novo perfil que pudesse ser utilizado de forma híbrida, ou seja, servir tanto para o trecho de ângulo interno como para o externo. O novo perfil manteve o mesmo conceito da fachada com os três níveis de vedação feitos com gaxetas de EPDM”, explica Petrucci.

O vidro também está presente nas áreas internas formando um conjunto de fachadas cortina instalado na região dos elevadores panorâmicos. Diferentemente das fachadas externas, aqui o sistema glazing, composto por vidros laminados incolores de grande dimensão - 2,60 metros de largura; 3,24 metros de altura; e 14 milímetros de espessura - colados em perfis de alumínio da linha Citta Due, foi instalado no sistema de montagem Stick.

A fachada foi fixada através de ancoragens de alumínio tipo “pi”, com parafusos passantes e sistema de regulagem nos três eixos. Além do vidro, também foram usados painéis de alumínio composto na cor prata para formar os detalhes da fachada interna. Na circulação entre as unidades e na área comum existem guarda-corpos com vidro autoportante, sem montantes.



Ficha Técnica

ION Escritórios Eficientes 
Local Brasília (DF) 
Área do terreno 18.880,63m² 
Área construída 60.938,49m²
Início do projeto 2012 
Conclusão da obra 2017 
Cliente Ipê Amarelo (Consórcio entre Villela & Carvalho, JCGontijo e ECAP)

Arquitetura Dávila Arquitetura - Alberto Dávila, Afonso Walace de Oliveira, Ana de Paula Fonseca, Mairon Hasegawa, Mariana Borsoi, Thalisson Mesquita, Daniel Cirne, Débora Lanna, Haiko Sinnema, Caio Prates, Marcos Carvalho, Eurípedes Neto, Dianna Villela, Laiz Maia (equipe)
Fundações Kali Engenharia 
Estrutura ADC Projetos 
Instalações elétricas e hidráulicas Sten Engenharia 
Esquadrias Crescêncio Petrucci 
Ar condicionado e pressurização Termacon 
Acústica do auditório Síntese Acústica Arquitetônica e Márcia Bizzi (layout) 
Fotos Joana França e Cadu Rocha

Fornecedores

Rajas (montagem de esquadrias de alumínio); 
Thyssen Krupp (elevadores); 
Arquitetura e Vidros (instalação de vidro temperado e espelhos dos banheiros); 
IAN Indústria e Comércio (instalação de portas e rodapés); 
Athenas (instalação de interfones, rede telefônica e CFTV); 
Connector Engenharia (instalação de exaustores e ar-condicionado); 
Proserv (gesso);
Síntese Acústica Arquitetônica (painéis e forros acústicos); 
Portobello Cerâmica (porcelanatos, cerâmicas); 
Claramar (pedras);
Nova Técnica Comercial / Siemens (elétrica); 
Deca (louças e metais); 
Docol (metais); 
Indústria Metalúrgica Ltda /IMAB (fechaduras e dobradiças); 
Vitral Vidros Planos / Guardian (vidros); 
Alcoa, Albra (perfis de alumínio)

Texto de Gilmara Gelinski| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 442
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