H + F Arquitetos: Complexo Yonhap, São Paulo

Templo será abrigo do sincretismo cultural

Fichas técnicas
Plantas, cortes e fachadas

Templo será abrigo do sincretismo cultural

Aos domingos, aumenta consideravelmente o movimento de automóveis na pequena (duas quadras e mais alguns metros) rua Mituto Mizumoto, que termina, sem saída, na ligação leste-oeste, no bairro da Liberdade, região central de São Paulo.

A maior parte dos veículos traz imigrantes sul-coreanos e seus descendentes, e quase todos se dirigem à sede da Igreja Presbiteriana Unida Coreana em São Paulo, ou Yonhap, como é conhecida a instituição.

Embora tenham assimilado a cultura brasileira, formou-se em torno dos coreanos a imagem de uma comunidade quase impenetrável.

A construção de um templo, para substituir aquele erguido nos anos 1960, foi tomada como uma oportunidade de rompimento dessa visão: para projetar a nova igreja, o escritório H + F Arquitetos venceu um concurso para o qual foram convidados apenas arquitetos vinculados à FAU/USP e à Escola da Cidade e em que foi vetada a participação de qualquer profissional que tivesse vínculos mais estreitos com a Yonhap.

Num primeiro momento, lembra Pablo Hereñú, um dos autores do projeto escolhido, 15 arquitetos foram chamados para apresentar soluções. Nessa etapa foi também comunicado aos profissionais convidados que esse trabalho inicial, por falta de recursos, não seria remunerado.

Parte dos convocados declinou do convite e cinco escritórios desenvolveram o estudo. “O tema era interessante e acreditamos que a proposta fosse séria”, relata Hereñú.

A pouca intimidade dos membros da igreja com as implicações de um concurso de arquitetura (ainda que fechado) trouxe outros percalços ao processo, como, por exemplo, a realização de uma segunda etapa não prevista inicialmente na competição, quando três projetos foram avaliados pela comunidade, tendo a escolha recaído sobre o trabalho de Hereñú e Eduardo Ferroni, que contaram com a colaboração de Eduardo Gurian e Moracy Amaral.
O Complexo Yonhap, como é chamado o conjunto, será edificado no lote em frente ao do templo atual, que foi ampliado com a aquisição de imóveis vizinhos. A intenção inicial é que o conjunto esteja pronto em 2014, quando se completam 50 anos da vinda do primeiro contingente de sul-coreanos para o Brasil.
O projeto distribuiu o programa por duas edificações, com gabaritos semelhantes aos dos prédios do entorno, mas cuja implantação e desenho têm potencial para revitalizar ou, ao menos, criar um ponto de interesse numa parte degradada da Liberdade, no limite com a Baixada do Glicério.
De menor dimensão, o segundo bloco tem altura ligeiramente inferior à do templo. Ele será o principal acesso à igreja, num trajeto que, feito por rampa coberta, irá da via pública ao vestíbulo. Espaços destinados a jovens, crianças e berçário se distribuirão pelos pavimentos desse segundo volume, cuja fachada se revestirá de elementos vazados, formando uma parede do tipo cobogó.
A história da Yonhap em São Paulo começou a ser escrita por seis famílias de imigrantes que em 1964 se reuniram para celebrar cultos em uma “fazenda” (denominação que os seguidores da igreja dão a pequenos grupos que se juntam a cada semana, para orar, meditar e compartilhar experiências).

Poucos anos depois dessa primeira celebração, os imigrantes inauguraram o templo na Liberdade, bairro paulistano que concentra os povos de origem asiática e seus descendentes.

“Vendo os nossos jovens que já estão na terceira geração e bem enraizados no Brasil, sonhamos em formar uma comunidade multicultural, acolhendo irmãos não coreanos”, afirma o pastor Yo Hwan Kim, no site da igreja.

Com a expressividade que o projeto do novo templo insinua, quando ele estiver pronto é bem provável que, além dos sul-coreanos que ali farão suas orações, arquitetos peregrinem pela Mituto Mizumoto.


Texto de Adilson Melendez
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 396 Fevereiro de 2013
 

Texto de Adilson Melendez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 396

Assine PROJETO e FINESTRA!
Acesso completo grátis para assinantes


Quem assina as revistas da ARCO pode acessar nosso acervo digital com mais de 7 mil projetos, sem custo extra!

Assine agora