Jaime Lerner Arquitetos Associados: Parque Urbano Orla do Guaíba, Porto Alegre

Curvas que atraem

Foi inaugurada, no final de junho, a primeira fase do parque que Jaime Lerner e equipe projetaram para a orla do rio Guaíba, em Porto Alegre. Totalizando 1,3 quilômetro de extensão, o projeto agencia com inteligência o desnível entre a água e a cidade, resultante de obras para a contenção de cheias executadas na década de 1970. Embora tenham sido implantadas novas edificações relativas ao adensamento do uso do parque, como bares e centro de comércio, elas estão rebaixadas em relação à cota do passeio público na sua zona alta, lindeira à via de veículos, de modo a desobstruir a vista para a água. Os tetos das novas construções, assim, são caminháveis e estão ladeados ainda por arquibancadas, que convidam o pedestre a entrar no complexo. As curvas de grande raio são distintivas do projeto, propiciando o caminhar do visitante sobre o rio por meio de passarelas metálicas suspensas

Após a inundação de Porto Alegre por mais de 20 dias, entre abril e maio de 1941, as autoridades locais implantaram um sistema de proteção contra cheias que incluiu a construção de diques que, na região portuária, formam um muro que aflora 3 metros do chão - outros 3 metros são enterrados.

Em termos urbanísticos, as barreiras físicas prejudicaram o acesso à orla do rio pelas pessoas, despertando o interesse posterior de arquitetos e urbanistas, políticos e cidadãos pela reversão da situação. Jaime Lerner participa de duas ações nesse sentido: a revitalização da região portuária – ainda não executada -, e outra que teve a primeira fase inaugurada no final de junho passado, após quase três anos de obra.

Trata-se do trecho inicial do Parque Urbano da Orla do Rio Guaíba (batizado de Orla Moacyr Scliar), implantado em uma zona de aterro que pertence ao chamado Dique Praia de Belas. Há previsão para a interligação dos dois projetos, assinalam os arquitetos, o que deverá ocorrer por meio de caminhos, praças e estares públicos.

Diferentemente do muro do porto, os 3 metros de altura do dique nessa área estão acomodados em talude que desce na direção do rio, mas, ainda que não seja tão evidente a barreira física, uma série de fatores urbanísticos, como a existência de uma via de elevado tráfego de veículos na borda da faixa de terra da orla e a rarefação, na direção sul, da ocupação das suas zonas limítrofes, apartavam cidade e rio.

Essa primeira etapa da obra do parque, que publicamos aqui, relaciona-se com o centro da cidade, estendendo-se da Usina do Gasômetro, na junção com a região portuária, até a Rótula das Cuias, pouco antes do deságue do rio Jacuí no Guaíba. São 1,3 quilômetro de comprimento - a metade da extensão do muro da região portuária - e a previsão é de que, em duas fases posteriores, o parque avance até a altura do estádio Beira-Rio (Sport Club Internacional).

A equipe de Lerner foi contratatada em 2012 pela prefeitura de Porto Alegre para desenvolver o projeto conceitual do parque e também os projetos executivo e de paisagismo. Para as etapas posteriores, o escritório já detalhou o projeto executivo do setor esportivo (próximo ao estádio de futebol).

Embora as características diversas da cidade em torno do novo parque (ele tangencia três setores distintos: o centro, o Centro Cívico e o Parque Maurício Sirotsky Sobrinho), o projeto de Lerner atua no sentido de imprimir imagem coesa a ele. Favorecer o visual da água, em suma, é o que o orienta, inclusive no que diz respeito à importância dada ao projeto de iluminação.

É um parque para continuar a ser frequentado depois do pôr do sol. O partido do projeto, assim, é o da desobstrução da vista em direção à água, implantando-se as edificações (quatro bares e dois núcleos de acolhimento a comerciantes ambulantes) sob o calçadão que margeia a avenida. Ou seja, há três níveis de ocupação do parque: o mais alto, com ciclovia e calçadão; o intermediário, com os bares e outra pista para caminhada; e o mais baixo, composto por conjunto de deques de madeira e passarelas metálicas, estas últimas avançando sobre o rio.

Áreas verdes intermedeiam as faixas de uso e os principais equipamentos, como arquibancadas, postes inclinados, sofás-deques, lixeiras e os bancos da Praça Júlio Mesquita (localizada do outro lado da avenida, próxima à Usina do Gasômetro), desenhados pelo escritório de Lerner. Tal setorização, porém, não é linear ao longo de todo o parque, mas desenhada através de grandes curvas que funcionam como elementos de atração visual aos visitantes.

O projeto, assim, embora crie uma zona privilegiada em torno da Usina do Gasômetro - onde foram implantados um restaurante panorâmico, envidraçado e suspenso sobre a água (sua abertura ao público ocorreu no final de outubro) e a bilheteria dos barcos turísticos -, atua no sentido de despertar o interesse do visitante em seguir além, encaminhando-o na direção da área esportiva a ser construída futuramente.

Nesse sentido, cumprem papel de destaque as passarelas que colocam o pedestre sobre a água, com uma curvatura que se projeta longe da terra. Já na direção transversal, há também importantes elementos que convidam a entrada no parque. Além da já mencionada iluminação artificial - setorizada em balizadores de piso que enfatizam as curvas e as faixas alongadas do projeto, postes de meia altura e um modelo especial de poste, inclinado, desenhado pelo escritório curitibano em parceria com a equipe do Luz Urbana, as arquibancadas que ladeiam os bares e postos de vendas são de fato atrativas ao uso.

Lerner costuma justificar as curvaturas do projeto como referenciais aos morros da paisagem distante, visíveis a partir da orla. Seja como for, elas tem o mérito de alargar o calçadão junto à avenida e criar pontos de destaque ao longo de toda a implantação.

A obra teve início em outubro de 2015 - financiada pela Confederação Andina de Fomento (CAF), pertencente ao Banco de Desenvolvimento da América Latina - e, embora o parque seja atualmente de responsabilidade da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade de Porto Alegre, a expectativa é de que ele passe para a iniciativa privada.

Além do restaurante panorâmico, todos os quatro bares do parque já tiveram operação licitada, mas o mesmo não ocorreu com a obra de reforma do Centro Cultural Usina do Gasômetro, construção que, tombada pelos órgãos municipal e estadual do patrimônio, está fechada ao público desde 2017.

Quanto ao segundo trecho do parque, que se estende até o deságue do rio Jacuí no Guaíba, na região denominada Dilúvio do Arroio, a intenção da prefeitura - que está captando recursos - é de que a obra seja licitada até o final de 2019. O mesmo vale para a terceira e última etapa do parque, que deve se estender até as imediações do estádio de futebol Beira-Rio. 


Jaime Lerner Arquitetos Associados

Jaime Lerner (Universidade Federal do Paraná, 1964) é arquiteto e urbanista, fundador do Instituto Jaime Lerner e da Jaime Lerner Arquitetos Associados (JLAA), presidente da União Internacional dos Arquitetos - UIA (2002/2005). Três vezes prefeito de Curitiba e duas vezes governador do Estado do Paraná, recebeu diversos prêmios e títulos internacionais, sendo considerado pela revista Times um dos 25 pensadores mais influentes do mundo. A JLAA desenvolve projetos para o setor público e privado em diversas cidades no Brasil e em países como Angola, Panamá, México, República Dominicana, entre outros.



Ficha Técnica

Parque Urbano da Orla do Guaíba
Local
Porto Alegre (RS)
Cliente Prefeitura Municipal de Porto Alegre
Início do projeto 2012 Conclusão da obra (1ª fase) 2018
Área de implantação 5,7 hectares

Arquitetura e paisagismo Jaime Lerner Arquitetos Associados - Jaime Lerner (supervisão geral), Fernando Antônio Canalli (coordenação de projetos e acompanhamento de obras); Paulo Kawahara, Valéria Bechara, Gianna Rossana de Rossi, Ariadne Daher, Felipe Guerra, Fernando Popp, Taco Roorda, engº agrônomo Carlos Oliveira Perna (equipe)
Paisagismo Carlos Oliveira Perna
Desenvolvimento Grifo Arquitetura
Topografia
Prisma
Batimetria Aerogeo Aerofotogrametria, Geoprocessamento e Engenharia
Sondagem Fundasolos
Terraplenagem Engecram
Fundações
Emepe
Tecnologia de concreto
Daher
Estrutura de concreto AS Estruturas Engenheiros Associados
Estrutura de aço Andrade Rezende
Estrutura de madeira Koga
Vidros Solutemp
Hidráulica, abastecimento de gás, rede de água, prevenção contra incêndios Eduardo Ribeiro Escritório de Projetos
Rede de água, esgoto e drenagem Serenco
Elétrica, lógica e telefonia Império Engenharia Elétrica
Luminotécnica Luzurbana Engenharia
Climatização
Michelena
Arqueologia e recuperação das obras de arte Prefeitura Municipal de Porto Alegre - Secretaria Municipal da Cultura
Orçamento Planor Engenharia
Construção Consórcio Orla Mais Alegre (Procon Construções, Sadenco, SH Estruturas Metálicas)
Fotos Leonardo Finotti, Arthur Cordeiro Rodrigues

Texto de Evelise Grunow| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 446
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