MMBB Arquitetos e H+F Arquitetos: Jardim Edite, São Paulo

Cidade negociada

Ao abrir espaço para o convívio de diferenças, o projeto dos escritórios MMBB e H+F aposta em um modelo de cidade melhor

A densidade, a tipologia e o arranjo misto - habitacional e de serviços - do conjunto Jardim Edite, em São Paulo, equacionam, pela via arquitetônica, os embates entre moradores, o poder público e urbanistas desde que, em 2005, começou o desmonte da favela homônima existente no terreno do bairro do Brooklin.

Todo projeto de interesse social tem que melhorar a condição de vida do morador, proferiu Raquel Rolnik, em meio ao quadro de incertezas que cercou o destino do terreno antes ocupado pela favela Jardim Edite, em meados de 2008.

Após uma primeira rodada de desapropriações - saíram 199 famílias em 2005, por causa da obra viária vinculada à construção da ponte estaiada Octavio Frias de Oliveira -, um incêndio de grandes proporções, em 2007, foi o estopim para que a prefeitura anunciasse o fim da favela, com a retirada das mais de 700 famílias residentes.

Um convênio da Secretaria Municipal de Habitação (Sehab) com a Caixa Econômica Federal e a Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU) desenhou o mapa de distribuição dessa população pela cidade: 244 famílias optaram pelo recebimento da ajuda de custo (5 mil reais), e partiram; 130 decidiram comprar um imóvel popular; uma família escolheu a obtenção de carta de crédito; 118 se mudaram para empreendimentos da CDHU; 54 preferiram morar de aluguel, pago pela prefeitura, até que terminasse a obra do conjunto residencial Estevão Baião (ainda em construção, com projeto de Marcelo Suzuki).

As restantes se beneficiaram da resposta à ação judicial movida pelos moradores, que determinou em 2008 a construção de novas unidades habitacionais na área da extinta favela.

Arquitetos e Sehab iniciaram, assim, seu projeto, contemplando a criação de 240 unidades (número que depois subiu para 252) e três equipamentos públicos: uma creche, uma unidade de saúde e um restaurante-escola (demanda dos moradores), para a formação de mão de obra afinada com o entorno, notadamente corporativo.

Densidade, enfim, favorável à adoção de coeficiente de aproveitamento menor do que 4, que é o permitido em áreas de operação urbana. Testaram-se vários arranjos, desde a abertura de ruas e a homogênea distribuição em edifícios residenciais de oito pavimentos até a manutenção, determinada legalmente, do sistema viário existente. Neste caso, a organização do programa se daria em dois lotes assimétricos, ambos com a frente maior voltada para a avenida Jornalista Roberto Marinho, onde o recuo é mais restritivo do que o convencional por causa da probabilidade de novo alargamento da via.

Simultaneamente, os moradores, representados em audiências públicas, posicionaram‑se contra a criação de quitinetes ou apartamentos de um dormitório, de modo a desenhar-se o quadro qualitativo do complexo: unidades de dois dormitórios, servidos por sala, cozinha e área de serviço, com aproximadamente 50 metros quadrados.

O que se vê construído no Jardim Edite, portanto, é o resultado do longo processo de disputas pela destinação do local e, nele, do tipo de cidade proposto por seus criadores. Eles defendem a ocupação sem a inserção postiça de barreiras artificiais: não querem muros em seu projeto - “essa é a nossa aposta”, menciona o arquiteto Pablo Hereñú, do escritório H+F -, e sim o convívio das áreas condominiais com as de serviços, no térreo, literalmente intercalando-se os edifícios residenciais com os equipamentos para uso externo.

Isso requer espaço, a verticalização da moradia em benefício do uso misto na cota pública, o que fez surgirem as torres de 17 pavimentos e, para as famílias com menor renda (até três salários mínimos), os dois blocos laminares, de quatro andares, a elas intercalados. Os acessos, de um e de outro, ocorrem pela via interna, assim chamada - embora, efetivamente, fosse pública - em razão de ter estado encoberta pela favela por cerca de quatro décadas, bem como as entradas dos demais equipamentos.

As áreas condominiais e os fluxos dos serviços funcionam como mútuas fronteiras, ora no térreo (no lote 2, menor, é nessa cota que o lazer residencial faz divisa com a creche), ora verticalmente, sendo a laje de cobertura do posto de saúde e do restaurante-escola utilizada como espaço livre das residências do lote maior.

As unidades residenciais assemelham-se na organização interna, no tipo construtivo, nos materiais básicos, no detalhe do armário baixo que, projetado externamente na fachada, serve de apoio ao estar e dormitórios, na metragem aproximada. É conveniente a insolação dos dormitórios e, em ambos os casos, o acesso às unidades ocorre por corredores com ampla visualização do conjunto residencial e da cidade.

O grafismo das fachadas, seja o brise vertical que resguarda visualmente os acessos aos apartamentos das torres, seja os volumes sobressalentes das lâminas, identifica no espaço externo a dinâmica residencial. Na extremidade nordeste, oposta à avenida Luiz Carlos Berrini, apresenta-se a mais delicada interação do programa habitacional com o de serviços: intercalam-se, no primeiro pavimento, as áreas da creche e a de circulação condominial, de modo a demonstrar o quão viável é o convívio dos usos distintos.

Por fim, os recuos generosos adotados no projeto, também possíveis por causa do coeficiente adotado, próximo de dois, são a gênese dos calçamentos largos que qualificam o contato do Jardim Edite com o seu entorno imediato.

  

MMBB arquitetos e H + F Arquitetos: Formados pela FAU/USP, Fernando Mello Franco, Milton Braga (1986) e Marta Moreira (1987) são sócios no escritório MMBB desde 1996. Receberam, entre outros, o prêmio da 4ª BIA pelo projeto da garagem do Trianon, em São Paulo. Eduardo Ferroni e Pablo Hereñú (FAU/USP, 2001) são sócios do escritório H+F Arquitetos, criado em 2002



Ficha Técnica

Conjunto residencial e de serviços Jardim Edite
Local: São Paulo, SP
Data do início do projeto: 2008
Data da conclusão da obra: 2013
Área do terreno: 18.000 m2
Área construída: 25.714 m2
Cliente: Prefeitura de São Paulo - Secretaria ­Municipal de Habitação (Sehab/Habi) e Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano (SMDU)
Coordenador de projetos: Luiz Fernando Fachini
Arquitetura: MMBB Arquitetos - Fernando Mello Franco, Marta Moreira e Milton Braga (autores), Eduardo Martini, Marina Sabino, Giovanni Meirelles, Cecilia Góes, Gleuson Pinheiro Silva, Adriano Bergemann, André ­Rodrigues Costa, Maria João Figueiredo, Martin Benavidez, Naná Rocha, Tiago Girao, Guilherme Pianca, Gisele Mendonça, Eduardo Pompeu, Rafael Monteiro e Lucas Vieira (colaboradores); H+F Arquitetos - Eduardo Ferroni e Pablo Hereñú (autores), Tammy Almeida, Joel Bages, Natália Tanaka, Diogo Pereira, Gabriel Rocchetti, Danilo Hideki, Thiago Benucci, Mariana Puglisi, Luca Mirandola, Thiago Moretti, Luisa Fecchio, Bruno Nicoliello, Renan Kadomoto e Carolina Domshcke (colaboradores)
Estrutura: Kurkdjian e Fruchtengarten (projeto de 2008); Projetal (projeto de 2010)
Fundações: MAG Projesolos (2008); Portella Alarcon Engenheiros Associados (2010)
Sondagem: Geosolo
Instalações: PHE
Paisagismo: Suzel Márcia Maciel (2008); Ricardo Vianna/Bonsai Paisagismo (2010)
Orçamento: Nova Engenharia (2008)
Gerenciadora: Consórcio Bureau Sistema PRI
Consultorias: System (projeto geométrico); Proiso (impermeabilização); Cia. de Projetos (estrutura metálica)
Construção: Kallas
Fotos: Nelson Kon

Fornecedores

Trialux (esquadrias de alumínio)
Serralheria Arcobox (esquadrias de aço)
Eucatex (esquadrias de madeira)
Otis (elevadores)
Tigre, Amanco (tubulações)

Texto de Evelise Grunow| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 401
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