Pedro Taddei e Francisco Spadoni: Centro Paula Souza, São Paulo

Porta aberta à regeneração

Embora o conceito de chão público com o qual o projeto foi concebido tenha sofrido desvios, a pujança estética e funcional da arquitetura criada por Pedro Taddei e Francisco Spadoni para o complexo institucional/educacional do Centro Paula Souza manteve-se. Fazendo uso de concreto, metal e vidro, os arquitetos configuraram uma praça/porta de entrada para o ainda deteriorado bairro, no qual outras esperadas intervenções deveriam mirar-se.

Munidos de tesoura e fita adesiva, numa tarde do início de agosto, funcionários do Centro Paula Souza, em São Paulo, colavam tiras de papel kraft na face envidraçada do edifício recém-ocupado pela instituição, que fica na Luz, bairro próximo da região central da cidade. Fazia poucos dias que o governador estivera no local para inaugurar o complexo que, além da sede do órgão, reúne uma escola técnica (Etec) e as instalações do Centro de Aperfeiçoamento do Professorado.

A colagem não era feita pela equipe de manutenção, mas improvisada por trabalhadores administrativos que, com jeitinho, criaram um anteparo caseiro para amenizar os efeitos do sol de inverno no interior do prédio, já que ainda não tinham sido instaladas as telas de proteção especificadas pelos escritórios Arquiteto Pedro Taddei e Associados e Spadoni Arquitetura e Urbanismo, autores do projeto. O cronograma se atrasara por causa do ineditismo da solução - uma tela reticulada de cabos de aço inox aplicada sobre a fachada de vidro, afastada um metro nas faces maiores e 0,3 metro nas menores, cumprindo a função de filtragem e transparência - e da dificuldade da construtora em aplicá-la.

Semanas depois se concluiria a montagem da diáfana cortina, cujas peças, semelhantes a um véu, estão tensionadas e fixadas com parafusos aos elementos metálicos chumbados à estrutura da edificação. Encerrava-se, assim, uma das mais interessantes intervenções arquitetônicas recentes na região central da capital paulista, semelhante, em termos de requalificação à Praça das Artes, projeto do escritório Brasil Arquitetura em parceria com o arquiteto Marcos Cartum (leia PROJETOdesign 395, janeiro de 2013).

Quando o projeto foi anunciado, em 2009, a ocupação da quadra contida pelas ruas Aurora, dos Andradas, dos Timbiras e General Couto de Magalhães era uma tentativa do governo estadual de liderar o processo de regeneração da área. A incumbência de desenhar o conjunto foi dada aos arquitetos Pedro Taddei e Francisco Spadoni. Na edição 360 de PROJETOdesign, de fevereiro de 2010, Taddei explicou que a Fundação para a Pesquisa em Arquitetura e Ambiente (Fupam), que ele presidia, fora contratada para projetar o parque do Belém (edição 395, janeiro de 2013) e a chamada para o conjunto da Luz veio na sequência.

Àquela época, a prefeitura ensaiava colocar de pé a Operação Nova Luz (abortada pela administração Fernando Haddad), e o conjunto institucional, mesmo não estando no perímetro da intervenção, funcionaria como uma espécie de porta de entrada para o bairro que se pretendia revitalizar. Tendo em vista essa intenção e analisada a configuração do terreno (uma quadra remembrada, com forma aproximada de retângulo e quase 7 mil metros quadrados de área), os autores escolheram um partido que então definiram conceitualmente como chão público.

E, de fato, trataram o terreno e o complexo dessa maneira. No entanto, no decorrer do processo, tiveram que ceder à argumentação do Centro Paula Souza em relação a aspectos de segurança, e o conjunto acabou gradeado em todo o seu perímetro, o que, de certa forma, desvirtua a ideia original de estabelecer a livre passagem, como uma grande praça, entre as ruas Aurora e dos Timbiras. O chão público ficou restrito à instituição que o ocupa.

Fora esse desvio, a arquitetura ali praticada é contemporânea, adequada e pujante, num tema que é familiar aos autores. Spadoni, junto com Lauresto Esher, é autor do edifício Modesto Carvalhosa, uma das mais importantes construções educacionais implantadas em anos recentes, no campus da Universidade Mackenzie, em São Paulo (leia PROJETOdesign 325, março de 2007). Taddei, por sua vez, assina o projeto do campus Barra Funda da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Na Luz, atendendo à demanda da instituição, eles desenharam dois prédios independentes, um institucional e o outro para uma escola técnica de nível médio cujo uso para o ensino de gastronomia/ hotelaria foi definido com a obra em andamento (o que obrigou as equipes de arquitetura a um esforço adicional para readequar os projetos às especificidades desse tipo de ocupação).

Implantados nas laterais menos extensas do lote, ambos têm estrutura de concreto armado - as lajes nervuradas e os pilares aparentes insinuam as influências da moderna arquitetura brasileira - com inserções de elementos metálicos. Estes aparecem, por exemplo, no mezanino do hall do edifício institucional e na cobertura com telhas perfuradas que arremata e dá unidade ao conjunto. Essa cobertura atendeu, ainda, à exigência de órgãos de proteção ao patrimônio, que recomendaram que a nova construção mantivesse o alinhamento de calçada das edificações demolidas.

Com subsolo, térreo, mezanino e cinco pavimentos de plantas livres (estes com balanços nas laterais mais extensas), o edifício que tem acesso pela rua dos Andradas é ocupado pela administração do Centro Paula Souza, órgão estadual responsável pela construção/gestão das faculdades de tecnologia e escolas de ensino técnico. Mais estreito, o térreo tem pé-direito duplo na parte mais próxima da praça interna e, na outra metade, compartilha o espaço com o mezanino. Nos fechamentos envidraçados, a cortina/brise de aço inox parece, em certos momentos, fundir-se visualmente com o concreto aparente.

Mais amplo, o programa da escola resultou numa planta mais diversificada, à qual foram incorporadas partes do único edifício remanescente da antiga quadra. O acesso principal, pela rua General Couto de Magalhães, abre-se, de um lado, para o setor de convivência e a praça, ambientes fluidos e de grandes áreas livres. A outra metade do pavimento é ocupada pelo auditório, antecedido pelo foyer de pé-direito duplo que marca a esquina onde as ruas General Couto de Magalhães, Washington Luís e do Triunfo se encontram.

No mezanino compartilham espaço os laboratórios de idiomas, a livraria/biblioteca e a área de convivência, esta posicionada sobre uma laje recortada que ora se projeta, ora se recolhe sobre a praça e traz uma vibrante dinâmica ao conjunto. É nessa cota que se dá a única conexão (por passarela suspensa) entre o edifício institucional e o didático. No terceiro piso começam a se estruturar, em blocos laminares afastados, os laboratórios das técnicas gastronômicas e hoteleiras, que possuem circulação externa. Biblioteca e quadra arrematam, na mesma cota, a outra extremidade.

 
Pedro Taddei e Francisco Spadoni
Pedro Taddei (FAU/USP, 1967) é mestre pelo Instituto de Meio Ambiente da França e doutor pela Sorbonne. É diretor do escritório Pedro Taddei e Associados. Francisco Spadoni (FAU/Puccamp, 1984) cursou pós-graduação na École d’Architecture de Paris Villemin e doutorado pela FAU/USP. O escritório Spadoni Arquitetos Associados foi fundado em 1996



Ficha Técnica

Centro Paula Souza e Etec Santa Ifigênia
Local São Paulo, SP
Data do início do projeto 2009
Data da conclusão da obra 2013
Área do terreno 6.882,84 m2
Área construída 29.490 m2
Arquitetura Pedro Taddei e Francisco Spadoni (autores); Tiago Andrade (coordenador executivo); Bruno Fernandes (coordenador adjunto); André Rua, Carolina Mina Fukumoto, Cristiane Kimie Maeda, Fabiana Benine, Fernando Shigueo Fujivara, George Ferreira, Jaime Vega, Marcos Sartori, Marina Crespo, Mayra Simone dos Santos, Natália Lorenzo, Paulo Catto, Sabrina Chibani e Wellington Teles (equipe)
Planejamento e gestão de projetos Fundação para a Pesquisa em Arquitetura e Ambiente (Fupam) – Cláudia Albuquerque (gestão)
Equipe do Centro Paula Souza Rubens Goldman (coordenador de infraestrutura); Hamilton Pacifico (Departamento de Obras); Bruna Fernanda Ferreira e Sônia Goto (Divisão de Projetos); Elisabete Milani e Simone Rabelo (Divisão de Equipamentos); Daniela Napolitano (Divisão de Fiscalização)
Fundações Apoio
Estruturas Estrucalc
Instalações elétricas e hidráulicas PHE
Drenagem MBM
Impermeabilização Proassp
Ar condicionado Prorac
Acústica João Gualberto Baring
Luminotécnica Franco & Fortes
Paisagismo Luciano Fiaschi Arquitetura Paisagística
Arqueologia Zanettini
Consultoria de acessibilidade Maria Elisabete Lopes
Orçamento VDM
Levantamento planialtimétrico e as-built RCC
Sondagem Emes
Laudo estrutural Edifast
Laudo ambiental GEC
Maquete eletrônica Ricardo Canton
Maquete física Fred e Carol Maquetes
Construção Engeform
Fotos Nelson Kon

Fornecedores

Hunter Douglas (brises de alumínio)
Hunter Douglas, GKD (brise de tela de aço inox)
Bemo do Brasil (cobertura metálica)
Holcim (concreto)
ArtGran (divisórias sanitárias)
JLK Marcenaria (esquadrias de madeira)
Forte Metal, Useaço (estrutura metálica)
Papaiz (ferragens)
Sul Metais (forro metálico)
Vetor (forro em fibra mineral)
Icasa (louças sanitárias)
Fabrimar (metais sanitários)
Werden (piso elevado)
Eliane, Gyotoku (pisos e revestimentos cerâmicos)
Fademac (piso vinílico)
Milênio (revestimentos em painel TS)

Texto de Adilson Melendez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 404
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