PERFIL

Discreta elegância na avenida Paulista

Königsberger Vannucchi Arquitetos Associados: Sesc Avenida Paulista, São Paulo

Perverso (ou não), o mercado imobiliário costuma abandonar certas regiões das cidades, quando, por motivos diversos, mas sobretudo por razões econômicas, torna-se mais atraente investir em novas frentes de desenvolvimento urbano. Foi por isso, entre outras questões, que, há cerca de 30 anos, especulou-se sobre um possível declínio da avenida Paulista, em São Paulo, à época meca das sedes de empresas na capital paulista.

De fato, algumas deixaram a região em busca de edifícios tecnicamente mais sofisticados construídos, primeiro, na região da avenida Brigadeiro Faria Lima e, depois, na da Luís Carlos Berrini.

A “profecia” da derrocada não se cumpriu, no entanto. Ao contrário, a atual avenida é muito mais plural, eclética e dinâmica, e as atividades financeiras compartilham seus quase 3 quilômetros com lojas, centros de compras e, sobretudo, com edifícios e equipamentos culturais.

O mais novo desses conjuntos a entrar em operação naquela via - o Sesc Avenida Paulista e não apenas Sesc Paulista, como costuma observar Danilo Santos de Miranda, diretor regional da instituição - ecoa, em menor escala, o processo de reinvenção da avenida. A análise se justifica pelo fato de o Sesc Avenida Paulista ter se estruturado a partir de uma edificação existente - uma típica torre comercial envidraçada, projetada nos anos 1970 por Sérgio Pileggi e Euclides de Oliveira - adquirida em 1975 e ocupada pela administração da instituição (que a dividia com a Federação do Comércio do Estado de São Paulo).

Aos poucos, outras atividades foram sendo incorporadas aos espaços do prédio (exposições de arte e apresentações de música instrumental, entre outras), dando início ao processo que, depois, se consumaria na conversão da unidade com atividades focadas no trinômio arte, corpo e tecnologia.

A administração do Sesc permaneceria naquele edifício até 2005 (depois instalada no Belenzinho, zona leste da cidade, em um conjunto que fazia parte das instalações fabris que deu origem ao Sesc de mesmo nome), mas a ideia da transformação em prédio operacional já começara a germinar - embora a data oficial de início do projeto seja 2007, a sua conceituação começou ainda em 2004 (ver PROJETO 312, fevereiro 2006).

Passaram-se, portanto, 14 anos (apenas um a menos que o período de transformação do Sesc 24 de Maio – PROJETO 440, nov/dez 2017) entre o efetivo início do projeto até a inauguração da unidade, ocorrida no final de abril deste ano. O longo período entre a concepção e a conclusão das obras confirma o clichê de que é mais complexo (também em termos de projeto) reformular o programa de uma edificação do que construí‑la a partir do zero, ainda mais quando se trata de programas completamente distintos.

No caso do Sesc Avenida Paulista, pode-se dizer que o Königsberger Vannucchi Arquitetos Associados trabalhou de duas formas distintas: externamente criou uma nova vestimenta para a torre (a caixilharia da edificação estava obsoleta), e internamente despiu-a de tudo o que fosse possível para que ela acomodasse as novas funções.

O conceito que fundamenta a intervenção trata a unidade como extensão da própria avenida, estabelecendo-a como um território livre a ser usado pelo grande público. Essa ideia expressa‑se nos grandes acessos, nas múltiplas áreas de convivência - com várias praças internas e um terraço/mirante - e mesmo na escolha dos materiais, como os vidros não reflexivos, que permitem ao frequentador observar a avenida e insinua aos transeuntes ao menos parte das atividades que se desenvolvem no interior da construção.

“A arquitetura só se faz completa quando ativada pela circulação das pessoas. A configuração das fachadas leste e oeste, com rasgos horizontais, permite aos usuários um novo olhar sobre a cidade ao mesmo tempo em que rompe com a tipologia típica dos edifícios de escritórios da avenida, anunciando um novo uso para o antigo edifício e uma nova e democrática frequência de público”, afirma Gianfranco Vannucchi, arquiteto responsável pelo projeto.

A lateral envidraçada - intercalada por alguns rasgos - divide o protagonismo da composição externa com placas de zinco, presentes sobretudo na face voltada para a avenida Paulista. O caráter plural da avenida se reflete na unidade já a partir do seu acesso – o térreo da edificação abriga a praça de eventos, espaço que pode ser reconfigurado servindo à expressão de diferentes tipos de linguagens artísticas. Numa das laterais dessa “praça metamorfose” foram posicionadas as escadas rolantes que conduzem ao segundo pavimento, onde ficam a central de relacionamento, a loja e a área de convivência da unidade.

A circulação vertical se completa com seis elevadores e duas escadas de incêndio pressurizadas. A disposição dos diversos espaços e serviços (café terraço, comedoria, biblioteca, espaços para crianças, salas para práticas esportivas e exercícios e consultórios odontológicos, entre outros), ao longo do 17 pavimentos, foi planejada de forma a aproximar andares com atividades similares.

Níveis de ruídos das atividades, quantidade de público e visuais externos foram outros critérios adotados nessa distribuição. Reforçando a integração entre as atividades e os pavimentos de exposição, nestes existem ou rasgos nas lajes ou a sua abertura total.

Observada de fora, a face envidraçada aparenta ser apenas um elemento estético, mas essa superfície também serve de antecâmara acústica e térmica - ela está sempre ladeando um terraço interno ventilado naturalmente, que funciona como anteparo aos ambientes refrigerados. Estes têm as vedações definidas a partir da quantidade de luz desejada, em vidro com controle solar, sendo os espaços para espetáculos e exposições contemplados com blackout.

As demais fachadas são vedadas com pré-moldados leves ou alvenarias, diminuindo dessa forma as cargas térmicas e acústicas vindas do exterior. Em uma composição marcada pelo equilíbrio (ou, de “elegância discreta”, parafraseando Caetano Veloso, em Sampa) existe ao menos um elemento de destaque: o mirante do 17º andar, junto ao café terraço.Na avenida em que são poucos os espaços públicos que proporcionam visão panorâmica e do horizonte, o mirante (com acesso gratuito) revela aos visitantes uma percepção pouco comum da mais simbólica avenida da capital.



Ficha Técnica

Sesc Avenida Paulista
Local São Paulo 
Início do projeto 2007 
Conclusão da obra 2018 
Área do terreno 1.195,50 m²
Área construída 11.962,38 m²

Arquitetura  Königsberger Vannucchi Arquitetos Associados – Gianfranco Vannucchi e Jorge Königsberger (autores); Vera Tusco, Karina Kohutek, Albert Sugai, Sandra Dellarole, Daniel Port e Isadora Citrin (colaboradores)
Acústica Harmonia Acústica
Ar condicionado Thermoplan
Comunicação visual O2
Cenotécnica Gustavo Siqueira Lanfranchi
Conforto térmico Daltrini Granado
Cozinha Nucleora Planejamento
Esquadrias Nelson Firmino da Silva Consultoria, Arqmate
Estrutura Kurkdjian e Fruchtengarten Engenheiros
Fachadeiro Worker
Fundação MAG
Luminotécnica Estudio Carlos Fortes Luz
Paisagismo Albuquerque Arquitetura
Piso de madeira Xylema
Sonorização Crysalis Produtos
Áudio e vídeo AVM
Construção Omar Maksoud
Fotos Pedro Vannucchi 

Fornecedores

Concresteel (revestimento piso);
Gail (revestimentos);
Tecnogran (piso das escadas);
Permetal (chapa de piso e revestimento acústico);
Isonar (revestimento acústico);
Penha Vidros (pele de vidro);
Cebrace (vidros, caixilhos e fachadas);
Guardian (vidro e caixilho do terraço e pele de vidro);
ProjetoAL (revestimento da fachada);
Otis (elevadores e escadas rolantes);
Glafcon (corrimão e guarda-corpo);
Idea (divisórias e fechamento em placas cimentícias);
Pilkington (pele de vidro e revestimentos);
Hufcor (divisórias acústicas);
Owa Brasil (forros acústicos);
Interkal
(arquibancada retrátil);
Uniflex (persianas);
Saint Gobain Ecophon (forro dos halls);
Jatobá (revestimentos das paredes dos banheiros);
Remaster
(piso elevado);
Perfglass (caixilhos de alumínio e fachada de zinco);
Deca (louças e metais sanitários);
Cosentino (balcões da comedoria);
Formica
(revestimentos em laminado e chapa TS)

Texto de Adilson Melendez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 444
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