PERFIL

Königsberger Vannucchi Arquitetos Associados

“Sempre fomos muitos generosos um com o outro. Acredito que seja por isso que estamos juntos há mais de 40 anos”, avalia Jorge Königsberger comentando a sociedade que ele e Gianfranco Vannucchi mantêm há mais de quatro décadas no escritório que leva seus nomes. “Outra razão é que somos um casal que não faz sexo”, acrescenta com humor. As ironias e a forma mais leve e fluida foram expostas por Königsberger ao longo da entrevista realizada no início de junho e que serviu de base ao perfil publicado nesta edição. O estado de espírito do arquiteto coincide com o processo de transformação atualmente em curso no escritório: “Tudo o que está acontecendo é muito prazeroso”, ele afirma. JK e GV, como alguns se referem à dupla, concordam que, especialmente no início, tratou-se de um processo árduo e sacrificado. Reconhecem, porém, que as transformações em curso (que objetivam fazer com que o escritório sobreviva independentemente da presença ou ausência de um ou outro, ou de ambos) levaram à redução do número de conflitos no ambiente de trabalho, entre outros benefícios. Sócio mais recente, o engenheiro mecânico Daniel Toledo (o “ovinho da serpente” deixado pelo executivo que acompanhou a sua contratação em 2013, como brinca Königsberger), que se tornou o administrador responsável, é, em boa parte, o gestor dessa transição. “Não sufoco o pessoal querendo assumir o papel do Gian ou do Jorge”, afirma Toledo

Do quinto andar do edifício de número 1461 da avenida Luís Carlos Berrini, zona sul de São Paulo, a equipe do Königsberger Vannucchi Arquitetos Associados - ou “a KV”, como o escritório é informalmente tratado - avista, a menos de 100 metros, o Terra Brasilis. O prédio - cujo nome é homenagem ao disco de Tom Jobim lançado em 1980, com versões, em inglês, de clássicos como Samba de Uma Nota Só e Desafinado - fica numa travessa da própria Berrini e foi projetado na segunda metade da década de 1980 pelo escritório que Jorge Königsberger constituiu em 1971.Gianfranco Vannucchi, que começou como estagiário, tornou-se sócio quatro anos depois.

Na edição 137, de dezembro 1990/janeiro 1991, quando o conjunto foi publicado pela PROJETO, a arquiteta Ruth Verde Zein redigiu o texto no qual observou: “O Terra Brasilis não quer ser só um pedaço da cidade. É demasiado voluntarioso para ser uma arquitetura neutra ou contextualista no sentido estrito [..]. O Terra Brasilis incomoda. Não é uma arquitetura anódina a passar despercebida, como a maioria dos edifícios desta cidade, cuja ausência de destaque não resulta de uma qualidade média, mas de uma triste mediocridade.

Com o tempo, é natural que seu impacto diminua, ou que seus 15 minutos de fama se esgotem [...]”. Passadas quase três décadas, o conjunto que reinava absoluto na quadra foi “sitiado” por outras edificações. Também por isso, seu impacto foi absorvido. No entanto, seu caráter icônico - o prédio foi considerado antológico pelo crítico Roberto Segre que notava nele referências à plasticidade barroca brasileira - não só permanece, como o seus previstos 15 minutos de fama eternizaram‑se.

A ponto de, hoje, pesquisadores e historiadores não negarem sua relevância no panorama da história da arquitetura brasileira recente, na categoria de edifícios comerciais.Da mesma forma que não pode ser ignorada a produção (e seu significado) de quase meio século do escritório, a despeito de ela estar concentrada no mercado imobiliário.

Identidade no mercado imobiliário

A observação é necessária porque, de maneira geral, tornaram-se questionáveis os parâmetros da (boa) arquitetura contratada pelas empresas do segmento (especialmente entre as edificações residenciais) nos anos que se seguiram à constituição do escritório. E foi trabalhando majoritariamente nesse universo - onde regras urbanísticas e códigos de obras são uma espécie de camisa de força e existe a permanente busca pela redução de custo (no qual os investidores incluem o projeto) - que Königsberger Vannucchi construiu sua identidade e reputação, comprovados por projetos como, entre outros, o dos conjuntos Brascan Century Plaza (PROJETO edição 285, novembro 2003) e Top Towers (edição 345, novembro 2008).

Se o Terra Brasilis tornou-se um divisor de águas - a expressão é de Jorge Königsberger - na trajetória do estúdio, o Brascan Century Plaza, conjunto implantado no Itaim Bibi, zona oeste de São Paulo, é outro ponto de destaque na vasta produção do escritório. Mais que o caráter correto da sua arquitetura, o ponto alto do empreendimento é a gentileza que tem com a cidade - nele, os elementos que constituem o complexo são articulados por uma praça que, embora formalmente tenha caráter privado, funciona como equipamento público.Pelos componentes ali reunidos, é possível compará-lo a outro símbolo paulistano: o Conjunto Nacional, na avenida Paulista, projeto da década de 1950 de David Libeskind.

Já as Top Towers - edificadas em uma parte do terreno estreita e alongada, remanescente do lote onde por muitos anos funcionou no Paraíso, zona sul de São Paulo, uma fábrica da cervejaria Brahma - tornaram-se, para o bem e para o mal, um marco paulistano. De início, o incorporador (o mesmo do conjunto do Itaim Bibi) cogitou construir empreendimento nos mesmos moldes do Century Plaza. No entanto, por circunstâncias comerciais, a quadra de quase 13 mil metros quadrados foi inicialmente ocupada por dois edifícios residenciais e, mais tarde, pelas torres comerciais.

Perenizar o escritório

Embora avistem continuamente as linhas de um prédio cujo projeto tem importância crucial na trajetória do escritório, não é com olhos saudosistas que a dupla formada pelo “mackenzista” (de 1971) Jorge Königsberger e o “uspiano” (de 1975) Gianfranco Vannucchi analisa a trajetória do escritório quando discorre sobre os projetos presentes e, mais importante, se embrenha (com raro desprendimento) naquele que talvez seja o seu mais ambicioso projeto: a tentativa de perenizar o escritório, de modo que ele sobreviva independentemente da presença (ou ausência) de um ou outro. Ou de ambos.

Até anos atrás - seguindo a tradição dos escritórios brasileiros -, a gestão institucional era realizada empiricamente, de acordo com o que a dupla supunha serem afinidades pessoais. Assim, além de participar da criação dos projetos, Königsberger sempre teve sob sua responsabilidade os assuntos pertinentes à administração e ao gerenciamento. Vannucchi, por sua vez, somava à concepção dos projetos tarefas menos glamourosas como, por exemplo, investigar o potencial construtivo de determinado terreno e a legislação a que ele estava submetido. Obrigações das quais não podiam escapar, mas que os aporrinhavam, tanto pela repetição como complexidade que foram alcançando especialmente em anos mais recentes.

Para ter uma ideia, nos primeiros anos da atual década, período em que as atividades da construção civil no país estavam no auge, o escritório - sobrecarregado de trabalhos - chegou a contar com 80 colaboradores. Para um arquiteto, não deve ser a tarefa mais estimulante tratar de assuntos como, por exemplo, folha de salários e pagamentos de tributos e taxas.

Nem Vannucchi, tampouco Königsberger, sabem precisar a data exata, mas foi depois de ambos terem ingressado na terceira idade que eles começaram a se questionar se o escritório repetiria a história de outros que não sobreviveram à aposentadoria ou ausência de seus fundadores - “O Gian tendo um AVC ou eu calçando o chinelo”, brinca Könibsberger - ou se tentariam perpetuá-lo. Uma análise do que haviam projetado até então - “É muita experiência acumulada para ser desperdiçada. Temos a ‘arrogância’ de querer que ela siga adiante”, reflete hoje Königsberger - trouxe-lhes a certeza de que a continuidade do escritório poderia prosperar.

Para isso, porém, seria necessário alterar o perfil e a maneira de seu funcionamento, até então ancorado quase que exclusivamente nos procedimentos e na personalidade dos seus dois sócios. Também ponderaram - não sem relutância - que a administração do escritório não deveria mais ser atribuída a um deles “Tínhamos testado outras formas de gestão, mas não era o que precisávamos. Necessitávamos de sistemas de gestão mais integrados e consistentes, que nos permitissem, entre outras situações, manter a rastreabilidade de nossos projetos”, argumenta o arquiteto.

Engenheiro entre arquitetos

Formado pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, Daniel Toledo estava em Brasília em 2013, trabalhando na Fundação para o Desenvolvimento Tecnológico da Engenharia - instituição criada por docentes e pesquisadores da Politécnica, que prestava serviços de consultoria para a Infraero no ano que antecedeu a disputa da Copa do Mundo no Brasil -, quando se candidatou à vaga de “change management” (expressão em inglês cuja tradução aproximada pode ser gerente de mudanças ) publicada na rede social Linkedin pelo Königsberger Vannuchi.

Descobriu tratar-se do escritório responsável pelo projeto do Duo, edifício no bairro de Pinheiros no qual, quando estudante de engenharia mecânica na Poli, ele sonhava em morar. Na volta para São Paulo, recebeu ligação do escritório convocando-o para uma entrevista, processo que se encerrou com sua contratação pelo executivo que lhe antecedeu no processo de mudança que os sócios do escritório tinham começado a tentar destravar.

Mas as primeiras providências que Toledo tomou foram no sentido de prover o escritório de sistemas/ suportes para que a organização funcionasse adequadamente. “Produzíamos incêndios que tiravam nossa energia”, ele recorda. “Era preciso estabelecer processos que permitissem, com consistência e previsibilidade, fazer orçamentos, realizar cobranças e pagar tributos”, explica Toledo.

Consolidada essa etapa, a qual, num segundo momento, tratou de fazer com que as equipes de projeto tivessem os melhores recursos para realizar seus trabalhos, começou-se a estruturar-se o plano KV 2020. Entre 2014 e 2015 efetivou-se a grande mudança organizacional. Em 2016, novas tecnologias e equipamentos foram incorporadas ao funcionamento operacional do escritório, o que fez com que a responsabilidade do time também crescesse.

“O objetivo foi criar um sistema completo capaz de fazer tudo que o escritório precisa para atender bem o cliente e gerar novos, sem que isso dependesse de nós. Temos hoje arquitetos em nível gerencial que atendem clientes, trazem trabalhos e têm autonomia autoral”, assegura Königsberger.

Mudanças mais rápidas

Para Toledo, que em 2016 tornou-se sócio do escritório, o sonho de perpetuá-lo passa por fazer com que o escritório se transforme no lugar de quem gosta de projetar e, em decorrência disso e dos sistemas que dão suporte a essas tarefas, se torne a primeira escolha dos clientes. São tangíveis os benefícios creditados ao estabelecimento de processos.

O sócio engenheiro cita como exemplo o período de um ano necessário para a implantação do primeiro sistema de tecnologia (Google) em ambiente colaborativo. No sistema de gestão de projetos seguinte, foram necessários apenas três meses. “No ano passado, quando o substituímos, tudo foi realizado em um mês. Com a organização tudo começou a andar mais rápido”, atesta.

O sócio mais jovem do escritório não atribui o fato de o processo de mudança estar sendo bem-sucedido à sua formação de engenheiro. “Não é o dilema do arquiteto x engenheiro. A grande diferença é eu não ser arquiteto. Estamos procurando criar um coletivo de pessoas apaixonadas, que têm que trabalhar em conjunto, mas com espaço para realizar os desejos individuais.

Não sufoco o pessoal querendo assumir o papel do Gian ou do Jorge. Colaboro com a metodologia de funcionamento do time, de como as pessoas trabalham. Na engenharia, a gente aprende desde o primeiro dia que ninguém faz nada sozinho. É um trabalho mutidisciplinar. Na arquitetura, pela formação, todos os conhecimentos são utilizados por um único criador”, argumenta.

Usina de projetos

Com o KV 2020 em andamento, os dois sócios iniciais conseguem antever com maior objetividade o modelo de operação com o qual pretendem perenizar o KV. Königsberger o compara a uma nave-mãe onde os arquitetos mais talentosos podem participar não apenas do desenvolvimento, mas da concepção dos projetos. Isso inclui assiná‑los como co-autores.

“Queremos que todos tenham a capacidade de se desenvolver e realizar profissionalmente. O KV de amanhã é um ateliê, uma usina de criação. Não a criação fechada em cima das ideias do velho A ou B, mas a de uma situação viva, instigante e permanente de um estimulando o outro. Criamos as condições para o arquiteto assinar, ser autor”, garante.

Königsberger enfatiza que transferência de liderança é um processo muito delicado, mas acredita que ele e Vannucchi possam hoje afirmar que foram bem-sucedidos. “Não estamos mais na administração direta. O Daniel é o administrador responsável. Não fazemos mais nada do ponto de vista de gestão. A rigor, somos acionistas de uma organização e nela temos um papel funcional. E isso é uma conquista”, ele avalia, observando que atualmente existem poucos conflitos no escritório. “O clima na organização melhorou muito”, afirma.

Para Toledo, do ponto de vista instrumental, o atual escritório está voando. “Temos ferramentas, sistemas, pessoas preparadas para atuar, e estamos permitindo novas carreiras. Temos diversidade de pessoas e de desejos. Se alguém vier trabalhar aqui e quiser se tornar, por exemplo, um especialista em normas de acessibilidade, vai encontrar espaço. Se quiser projetar apenas casas, também”, assegura.

Quando começaram a pensar em articular esse movimento de mudança, os sócios originais ponderaram que seria penoso apagar a luz e fechar a porta como, em geral, ocorre com os escritórios de arquitetura. Concluíram, porém, que sozinhos não tinham mais energia para dar essa virada. “É um processo muito sacrificado e árduo. No entanto, tudo que está acontecendo é muito prazeroso”, conclui Königsberger.

ENTREVISTA

Quais são, na sua opinião, os aspectos mais interessantes da arquitetura?

Daniel Toledo Das diversas indústrias com que tive contato, a da construção civil foi a que revelou possuir o ecossistema de design nacional mais completo, capaz de criar e desenvolver localmente projetos de alta complexidade, do estágio de concepção ao projeto completo para a construção.

E quais as maiores dificuldades?

DT Nós atuamos majoritariamente com empresas especializadas do setor. Os maiores desafios são da ordem dos modelos de negócio consolidados na indústria. Em especial, são dois deles que teremos que superar nos próximos anos: o modelo de precificação por metro quadrado de construção e o modelo de medição por pacote de documentos. A disseminação do BIM fará com que tais práticas sejam cada vez menos aderentes ao custo incorrido e, em especial, ao valor gerado para o cliente.

Quais os aspectos essenciais para que uma sociedade perdure?

Gianfranco Vannuchi Ambos filhos de imigrantes, sem padrinhos ou parentes influentes, Jorge e eu nos conhecemos nos anos 1960 e começamos a trabalhar juntos em 1972. Ele formado pela FAU/Mackenzie e eu pela FAU/USP. Desde lá, vimos comungando dos mesmos valores éticos e culturais e da mesma visão de vida profissional. Vida feita de muito trabalho, responsabilidade, persistência e confiança recíproca. Sempre buscamos valorizar as diferenças de nossas personalidades e, com tolerância e sinergia, transformá-las em qualidades complementares. Projetar e manter um escritório de arquitetura não é fácil. Poder contar com um sócio - agora dois - para compartilhar angústias, momentos de dificuldades e sempre a cumplicidade nas alegrias e agruras do projeto, ajudaram muito nossa sociedade a perdurar por tanto tempo.

Está em curso um plano que tem como objetivo perenizar o escritório. O que você considera fundamental para ele tenha sucesso?

Jorge Königsberger  Seria fundamental que o processo nunca fosse concluído. Criamos e coordenamos projetos há 47 anos sem interrupções, e acreditamos que nossa experiência qualifique projetos novos e futuros através dos arquitetos associados e equipes. Estamos há anos investindo no desenvolvimento de nossa plataforma, focada em desenho, tecnologia e processos, que já independe e vai além da ação pessoal do Gian, do Daniel ou minha. Hoje já criamos e produzimos de forma descentralizada, horizontal e colaborativa, o que é matriz fértil para o surgimento dos novos talentos e carreiras, e para o compartilhamento de responsabilidades, autorias e resultados por todos. Acredito que, mantida nossa unidade de valores e propósitos, possamos gerar muitos e muitos projetos inovadores, criativos, responsáveis e eficientes pelo século 21 afora.



Texto de Adilson Melendez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 444
  • 0 Comentários

ENVIE SEU COMENTÁRIO

Assine PROJETO e FINESTRA!
Acesso completo grátis para assinantes


Quem assina as revistas da ARCO pode acessar nosso acervo digital com mais de 7 mil projetos, sem custo extra!

Assine agora