PERFIL

Raf Arquitetura

Segunda-feira é dia de conversa no RAF Arquitetura. A manhã começa com a apresentação aos sócios dos estudos de viabilidade que estão em andamento no escritório, seguida pela análise da situação financeira dos projetos. À tarde, eles voltam a se reunir para compartilhar os entraves dos trabalhos sob cada liderança, procedimento que serve tanto para ter ciência conjunta da sua existência, quanto para buscar soluções. Periodicamente, neste mesmo dia ou em outro em que estejam ao menos dois sócios na sede de Botafogo, no Rio de Janeiro, os coordenadores apresentam os projetos mais adiantados em desenvolvimento. “Serve para avaliarmos se o design manteve a concepção que definimos juntos na criação”, explica Aníbal Sabrosa, um dos fundadores do RAF Arquitetura. Essa foi a dinâmica que Sabrosa, Flávio Kelner e Rodrigo Sambaquy, o trio fundador do escritório, encontrou, ao lado dos arquitetos associados Henri Medalla (ingresso no RAF em 1994) e Cynthia Kalichztein (fundadora da filial paulistana, em 2008), para manter a sinergia da equipe quando o escritório cresceu e atingiu, em 2013, a marca de 130 funcionários, quando estavam em desenvolvimento dois projetos de parcerias internacionais da empresa - o Aqwa Corporate, com Foster + Partners, e o Centro de Pesquisa & Inovação da L'Oréal, com Perkins + Will -, que apresentamos adiante nesta matéria. Hoje o número é menor; atuam cerca de 60 pessoas no Rio de Janeiro e 25 na unidade de São Paulo, mas nem por isso o cotidiano do trabalho é mais tranquilo

Croqui por Raf Arquitetura

Os sócios se revezam em viagens para acompanhar congressos nas suas áreas principais de atuação - Kelner e Medalla, por exemplo, são os responsáveis pelo setor de arquitetura hospitalar -, em reuniões com clientes, com colaboradores e com a equipe paulistana, assim como em visitas a obra e eventos arquitetônicos, entre os quais estão as entregas dos já numerosos prêmios concedidos ao RAF em segmentos variados.

Os projetos executivos são gerados internamente, com o RAF coordenando e compatibilizando os complementares. Há casos em que a contratação dos parceiros é  feita pelo próprio escritório e outros em que ocorre diretamente pelo cliente, sendo bem-vinda também esta segunda opção. Isso porque, habituados a lidar com tipos diferentes de clientes - do usuário final ao empreendedor ou construtora -, eles são arquitetos flexíveis no trato. Tanto quanto hábeis em abrir frentes de trabalho.

Quando juntaram suas pranchetas e constituíram o RAF Arquitetura - sigla que congrega as iniciais dos nomes de Rodrigo, Aníbal e Flávio -, os três recém-formados pela Universidade Santa Úrsula, no Rio de Janeiro, em 1988, comemoraram a oportunidade oferecida por um parente de Kelner de fazerem os projetos executivos de prédios residenciais do mercado imobiliário, até que, de palpite em palpite sobre possíveis melhoras nos desenhos, receberam a sua primeira encomenda. Seguiu-se, então, a concepção de projetos de edifícios de apartamentos e o escritório cresceu, ainda que modestamente, alugando o espaço vizinho ao núcleo original do RAF - uma sala de um prédio comercial no centro do Rio, emprestada pela avó de Sabrosa.

Simultaneamente, começaram a projetar laboratórios e clínicas médicas, o que os levou a uma surpreendente encomenda para tão jovens arquitetos: o projeto de um hospital na Barra da Tijuca, em 1994, para a recém‑criada Rede D’Or - hoje nomeada Rede D’Or São Luiz.

Foram aprendendo na prática, o que incluiu muita pesquisa em arquitetura hospitalar - em decorrência, Kelner viria a se tornar presidente, anos mais tarde, entre 2010 e 2011, da Associação Brasileira para o Desenvolvimento do Edifício Hospitalar - e conversas com todas as especialidades envolvidas no projeto. O trabalho deu certo, como atesta a constância daquele cliente no portfólio do escritório, e deu mais corpo à empresa, que mudou para uma sala comercial maior em Botafogo, em 1995. Dois anos depois, em 1997, venceram a categoria Requalificação da Rua Uruguai, no bairro da Tijuca, do Concurso Rio Cidade - Intervenções Pontuadas, organizado pelo Intituto de Arquitetos do Brasil/RJ (IAB/RJ).

Foi um marco para o escritório, tanto no que diz respeito à nova área de atuação e ao tipo de cliente - o agente público - quanto pelo fato de desde então não terem mais administrado obras, dedicando-se exclusivamente aos projetos. E o RAF continuou a crescer e a expandir o horizonte de trabalho, abarcando também projetos de arquitetura de varejo. Olhando em retrospectiva, Kelner comenta que “o crescimento veio do amadurecimento de vivermos as dificuldades”, frase que pontua um momento especial da empresa, que foi a mudança em 2005 para a sua sede atual, uma casa ampla em Botafogo. Grande demais, recordam os sócios, para a equipe de 20 arquitetos que contabilizavam na época, mas, outra vez, eles resolveram arriscar.

Semelhante ao momento em que contrataram o arquiteto francês Henri Medalla, em 1994, mais velho e experiente do que o trio fundador do RAF e, por isso mesmo, importante para auxiliá-los na encomenda do hospital.

CRESCIMENTO

Três anos depois da mudança, em 2008, receberam uma distinção que consideram marcante em sua trajetória: o título de “Empresa do Ano” pela Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário do Rio de Janeiro (Ademi). “Nos deu visibilidade”, analisa Sabrosa. O cenário do país estava a seu favor e eles souberam aproveitar a pujança econômica brasileira para crescer, lançando-se também no campo das licitações públicas.

Nesse sentido, foi importante o projeto para o Instituto Nacional de Traumatologia Ortopédica, o Into (PROJETO 379, setembro de 2011), que, além do mais, incluía a interface com um imóvel existente, a antiga sede do Jornal do Brasil (prédio de nove andares de autoria do arquiteto Henrique Mindlin). Um tipo de condicionante com o qual se deparariam em vários outros projetos.Entre as diretrizes da arquitetura estava a ideia de fazer das novas construções barreira contra o excesso de ruído proveniente do Elevado da Perimetral do Rio de Janeiro, vizinho ao projeto, via demolida anos depois como parte das ações da Operação Urbana Porto Maravilha.

O que os arquitetos não podiam imaginar enquanto projetavam o Into era o enorme horizonte de trabalho que se abriria para eles naquela área central da cidade, assim como na região portuária e até em zonas mais longínquas, com a pretensão dos agentes urbanos e do mercado imobiliário de requalificarem e desenvolverem grandes trechos de terra, implementando mudanças de mobilidade urbana. O RAF reforçou, então, a sua participação em licitações, inclusive na área de transportes, projetando de estações de trem a estudos para a rede do metroviário do Rio de Janeiro, alguns implantados, outros não.

Se o prêmio da Ademi havia dado a eles visibilidade no mercado da construção civil brasileira, nessa nova fase despertaram também o interesse de escritórios estrangeiros de arquitetura, atraídos pelo potencial amplo campo de atuação no Brasil que se vislumbrava na esteira da futura realização no país da Copa do Mundo de 2014 e, no Rio de Janeiro, dos Jogos Olímpicos de 2016. Enquanto mantinham a prospecção de projetos com seus clientes construtores, empreendedores e empresários, passaram então a flertar com escritórios de outros países, que os procuravam para fazerem parcerias. “Tivemos o prazer, e por que não dizer, a competência de trabalhar com alguns desses arquitetos. Com o escritório Foster + Partners, desenvolvemos o Aqwa - torre corporativa, no porto do Rio. Com o escritório Richard Meier, desenvolvemos o edifício sede da Vinci Partners no Leblon. Com o Jean-Michel Vilmotte, o pavilhão do Riocentro. Em cada desenvolvimento, um aprendizado e, com certeza, um ensinamento.

A troca franca, o trabalho colaborativo e ativo geraram um legado para a cidade. Eu diria que foram obras de assinatura internacional, mas com uma pitada de cultura nacional!”, comenta Sabrosa. A lista contempla ainda o Centro de Pesquisa & Inovação da L’Oréal, criado com o escritório Perkins + Will, e que, junto com o Aqwa, também apresentamos nesta matéria.

PARCERIAS INTERNACIONAIS 

A brasileira Filomena Russo começou a trabalhar no Foster + Partners em 1995, depois de seis anos anos já estabelecida em Londres. Formada na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP) em 1986, ela veio para o Rio de Janeiro em outubro de 2014 para dar prosseguimento ao projeto do Aqwa, elaborado pela equipe nova‑iorquina do escritório. Sua função era “tratar das ramificações no desenvolvimento do projeto e adequar os materiais - revestimentos e fixações”, explica a arquiteta, que chegou na obra quando haviam começado as escavações e se tinha decidido mudar a estrutura de concreto da torre para o sistema misto.

Filomena analisa que nos projetos de Foster + Partners “o sucesso do resultado é o envolvimento de toda a equipe”. No caso do Aqwa, a obra chegou a ter mais de mil subcontratados, contabiliza Francine Vaz, da consultoria Centro de Tecnologia de Edificações (CTE), atuante tanto no Aqwa quanto no projeto do centro de pesquisa da L’Oréal. Fazia dois anos, desde 2012, que a equipe do RAF estava trabalhando no Aqwa, liderada por Sabrosa, quando Filomena chegou ao Brasil.

Antes, RAF e Foster + Partners haviam prospectado juntos o projeto de um hotel em São Paulo e atuado em parceria no concurso internacional, promovido em 2010, para a revitalização da Marina da Glória, no Rio de Janeiro, seguindo-se tentativas de viabilização de trabalhos na área de transportes, sobretudo vinculados à realização dos Jogos Olímpicos. “Quando começou o Aqwa, fomos contratados pela Tishman Speyer americana, por indicação do Brandom [How, então diretor de projetos do escritório de Nova York]”, relembra Kelner. Em entrevista à Revista PROJETO, o contratante do Aqwa afirmou que a escolha do escritório Foster + Partners se deveu à boa relação que os escritórios mantêm desde o início dos anos 2000, com o projeto do Hearst Tower, em Nova York, concebido pela equipe de Norman Foster.

No caso do RAF Arquitetura, pesou a sua “boa experiência com projetos de escritórios de padrão internacional”. Assim, os trabalhos a muitas mãos do Aqwa foram desenvolvidos em reuniões semanais por meio de workshop com toda equipe do projeto, incluindo Foster + Partners, RAF, Tishman e projetistas complementares. Filomena destaca o profundo grau de envolvimento que tiveram as empresas parceiras no Brasil, sobretudo em virtude dos desafios impostos pela geometria não ortogonal do edifício. “A complexidade formal do Aqwa responde a fatores como a localização, junto ao porto e no final do Boulevard Olímpico; o desejo de tratar o térreo como espaço urbano e a vontade de revitalizar a região. É um ícone, portanto, mas como consequência de ser um projeto único, pensado para aquela situação específica.”

Situação, aliás, bastante familiar ao RAF Arquitetura, como expressa Sabrosa: “Desde os tempos de faculdade, quando conheci o Rodrigo e o Flávio, já estudávamos a revitalização da área portuária do Rio. Poder vivenciar essa transformação, nesse momento inicial, já seria interessante; contribuir com ela é fascinante. O território é muito extenso e de características diversas, e assim se pretende que continue. Um delicado trabalho de valorização do patrimônio arquitetônico e cultural foi feito e está em curso, preservando e dando condições de reabilitação de edifícios históricos”.

Mudou o cenário econômico brasileiro desde que tiveram início esses projetos de escritórios estrangeiros em parceria com o RAF, mas nem por isso os arquitetos cariocas deixaram de prospectar trabalho. Na região central e portuária do Rio de Janeiro, por exemplo, estão sendo pensados projetos de edifícios residenciais. “Os projetos que estamos desenvolvendo vão trazer mais confiança e garantias de que a retomada dessa área para a cidade está em curso, e em velocidade de cruzeiro, o que de certa forma é mais confortável, do ponto de vista de transformação urbana”, analisa Sabrosa.

ENTREVISTA

Quais os principais segmentos de atuação do RAF Arquitetura?

Buscamos ter em nosso escritório um DNA de pluralidade. Entendemos que os diversos programas e necessidades de arquiteturas e usos distintos, em algum ponto se complementam, ou se ajudam, na medida que a arquitetura é feita pelo e para o homem. O programa de uma residência é fascinante, um espaço imagético, que vem se transformando, mas sempre focado na individualidade e na família. Os projetos comerciais traduzem a dinâmica da vida contemporânea e sua diversidade de ofertas. Na área de saúde, nossa atuação é intensa e antiga, vem dos tempos que “humanização” era uma palavra recente; traz fatores sociais, estéticos, econômicos, culturais, tecnológicos. Temos tido uma forte atuação também na reabilitação de edifícios históricos, um tesouro nas nossas cidades espalhadas pelo país. Por falar em cidades, o urbanismo, sempre que nos é possível atuar nele, é tratado com cuidado, com o território e com as pessoas que o habitam. E dentro dessa perspectiva, a questão da mobilidade urbana e do transporte são temas que carecem de estudos e planejamentos.

O que diferencia o desenvolvimento dos projetos para cada tipo de cliente do
escritório?

Trabalhávamos até os idos de 2005 apenas para a iniciativa privada, com uma exceção, em 1997, quando vencemos um concurso público, organizado pelo IAB/RJ para desenvolver o urbanismo na área central do Bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro [Concurso Rio Cidade - Intervenções Pontuadas, Requalificação da Rua Uruguai]. O mercado privado é mais dinâmico na hora das decisões, mas está intrinsicamente ligado ao resultado. O gestor público tem o compromisso com o social acima de tudo. Essa diferença gera diferentes abordagens no projetar. Dentro do universo privado, trabalhamos para o construtor, para o incorporador, para o empresário, e para o cliente final. Cada um desses agentes tem, por essência e estruturação, diferentes necessidades de demanda. Nós do RAF, então, montamos equipes específicas para cada trabalho, colaborando não somente no projeto de arquitetura, mas também na “construção” de uma ideia. O que nos orgulha hoje é poder atuar desde a viabilidade econômica de um terreno, até a escolha do objeto que será colocado na sala do cliente. Internamente, o resultado são equipes trabalhando em troca constante de informação.

Como está organizado o fluxo de trabalho no RAF?

O RAF é reconhecido por sua pluralidade e por sua forte atuação no mercado imobiliário e de saúde. Dessa forma, estruturamos o escritório por setores: uma equipe trabalha 100% dedicada em análise de mercado, viabilidade econômica e legislação. Esse grupo atende a demanda de todos os setores da arquitetura. Temos as equipes específicas de saúde, especialidade que exige forte conhecimento tecnológico e códigos específicos. Temos a equipe de desenvolvimento de projetos, mais focada em edifícios comercias e residências. A equipe de interiores que atende desde espaços corporativos a residências unifamiliares, e que também dá suporte às demais equipes. Todas as equipes, no desenvolvimento do projeto, apresentam em determinado momento o andamento do trabalho a um comitê de design, composto pelos sócios da empresa, a fim de garantir o conceito original criado. Todo e qualquer trabalho, antes de se iniciar, passa por uma reunião entre os sócios, onde debatemos os critérios a serem observados, partidos, premissas e definição do responsável pelo projeto, que acompanhará esse desenvolvimento até a entrega final ao cliente.

Considerando a variedade de tipos de projetos de sua autoria, o que consideram ser o papel do arquiteto?

Projetar e planejar: projetar e criar espaços, satisfazer desejos, permitir o desenvolvimento do ser humano durante a sua vida e o seu cotidiano. Planejar e organizar demandas: prever o que está por vir, gerar o inusitado e apresentar soluções. E sempre ouvindo e buscando entender o cliente, o usuário.

No mesmo sentido, o que consideram boa arquitetura, inovação?

Do ponto de vista técnico, uma boa arquitetura é aquela que satisfaz, que atende ao usuário, está adequada ao espaço, traz resultado positivo ao idealizador. Do ponto de vista qualitativo, é desenvolver o planejamento de um espaço com conceitos e premissas bem definidas. Entender a fundo a razão de cada elemento colocado nesse projeto. É poder inventar, não importa a dimensão em que se está trabalhando. A inovação faz parte de nossa profissão. Não podemos estar alheios às tecnologias e indústria, muito pelo contrário, temos que buscar, juntos, trabalhar o processo. Somos parte da indústria da construção civil.

Texto de Evelise Grunow| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 442
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