PERFIL: Raf Arquitetura

Além da Mauá

Raf Arquitetura: Aqwa Corporate, Rio de Janeiro

Trata-se de um terreno grande, mais largo do que profundo, posicionado na extremidade sudoeste do passeio público que, denominado Orla Prefeito Luiz Paulo Conde, se estende por 3,5 quilômetros na zona portuária do Rio de Janeiro, em substituição ao antigo complexo viário do Elevado da Perimetral.Na frente do lote, a vista para a baía de Guanabara é emoldurada pela ponte Rio-Niterói, acima, e pelo lento movimento cotidiano de carga e descarga de grãos no porto, abaixo, em contraposição à alta velocidade dos carros que circulam pela vizinha via expressa Rodrigues Alves. Na parte de trás, o andar mais lento dos automóveis pela Via Binário do Porto e a proximidade da parada Cidade do Samba do VLT (Veículo Leve sobre Trilhos, novo sistema de transporte público daquela região) configuram ambiência distinta, de bairro, para o projeto.

Em suma, a localização do Aqwa, edifício concebido pelo escritório Foster + Partners em parceria com o RAF Arquitetura e um time de projetistas e fornecedores brasileiros, pode ser lida como uma espécie de indagação sobre o sucesso do Porto Maravilha - a operação urbana criada por lei municipal em 2009 a fim de revitalizar aquela região da cidade -, além da área de abrangência da Praça Mauá. “Há uma grande motivação por parte da empresa, em participar de um dos mais ambiciosos projetos de reurbanização em andamento no mundo. Além disso, todos os nossos estudos, bem como as empresas que nos visitam, indicam que a região portuária é o novo vetor de desenvolvimento da cidade do Rio de Janeiro”, informou a equipe da Tishman Speyer, que contratou o projeto.

Do início do projeto, em 2012, para cá, o mercado imobiliário do Rio de Janeiro entrou em crise - junto com o restante do país - e é grande a disponibilidade de lajes comerciais na cidade. Nesse sentido, não são poucas as iniciativas canceladas ou suspensas no entorno do Aqwa, mas um empreendimento como esse tem grande resiliência.“ E[Foster + Partners] começaram o processo tentando entender o contexto e as restrições. As limitações legais nós conhecíamos, mas o cenário construído, considerando o potencial dos indicadores urbanísticos, era inexistente. Montaram, então, uma maquete da possível configuração futura do entorno e, em resposta a ela, é que foram nascendo as formas”, explica o arquiteto Flávio Kelner.

O RAF foi contratado já no início do empreendimento para trabalhar no desenvolvimento do projeto junto com a unidade nova-iorquina do escritório de origem inglesa. Os estudos volumétricos iniciais corresponderam à busca pela máxima eficiência do projeto, ou seja, tanto pelo emprego de toda a metragem construída permitida, quanto pela relação ideal entre o núcleo de concreto e o tamanho das lajes de escritórios.

Foram sendo testadas, assim, composições com quatro, três e duas torres, até que se decidiu pelo par de edifícios, do qual encontra-se pronta a primeira fase: o edifício Aqwa. Eles deverão se tocar na cobertura através de uma passarela de ligação. O Aqwa possui 19 pavimentos corporativos, dois andares de lobby/ recepção, e o térreo com lojas e praça, além de cinco garagens subterrâneas. Bastariam três níveis de estacionamento para atender a legislação, mas prolongar o edifício até a rocha da fundação se mostrou viável técnica e economicamente.

O volume arquitetônico é largo (123 metros de comprimento por 39 metros de largura e 95 metros de altura), mas na visão de Kelner a sua forma conferiu leveza à arquitetura. O arquiteto se refere ao princípio de torcer a volumetria por meio de uma geometria irregular, que se desmembra em fachadas inclinadas de vidro, cujas angulações - para dentro e para fora - têm razão técnica: a de minimizar a radiação solar nos interiores em decorrência de reflexões e de sombreamento passivo. São seis fachadas no total, sendo que dos vértices nordeste e sudoeste partem pilares em forma de V, cuja abertura abriga uma fachada adicional em cada lateral da edificação.

A complexidade estrutural resultante e questões ligadas a sua exequibilidade no Brasil fizeram com que o projeto fosse revisto em fase adiantada de desenvolvimento, trocando-se a estrutura de concreto pela mista: metálica e de concreto. Apenas o core dos elevadores foi mantido em concreto armado. Por ora, considera-se a segmentação das lajes (que variam de 3.180 a 3.543 metros quadrados de área) em até seis salas comerciais, mas quem ocupar um pavimento completo terá visão panorâmica do entorno, contemplando da baía de Guanabara ao morro da Providência, do Museu do Amanhã à rodoviária do Rio.

O mesmo vale para os visitantes que acessarem as duas recepções, no primeiro e segundo andares, e de certo modo para o pedestre que circular pela galeria comercial, pelo jardim ou praça do térreo. Isso porque houve grande esforço de projeto para fazer do embasamento do Aqwa um espaço aberto e convidativo, tanto através do paisagismo quanto do projeto estrutural. Os lobbies, por exemplos, são atirantados na estrutura principal do edifício, de modo a minimizar a presença de pilares no térreo do empreendimento.



Ficha Técnica

Aqwa Corporate
Local Rio de Janeiro (RJ)
Início do projeto 2012
Conclusão da obra 2017
Área do terreno 19.326 m2
Área construída 223.000 m2 (fase 1 + fase 2)
Lajes corporativas 3.180 m2 a 3.543 m2
Cliente Tishman Speyer

Arquitetura Foster + Partners (autor) - Norman Foster, David Nelson, Spencer de Grey, David Summerfield, Juan Frigerio, Pedro Haberbosch, Filomena Russo; Rui Alves, Anthony Cestra, Chris Farmer, Daniel Gaertner, Domingos Garcia, Jai Krishnan, Courtney Hunt, Consuelo Manna, Sebastian Mendez, Alonso De Garay Montero, Elke Pedal, Jorge Pereira, Maro Riga, David Santamaria, Nathan St.John, Anthony Stahl, Jose Vargas‑Hidalgo, Francisco Waltersdorfer (equipe); RAF Arquitetura (arquiteto colaborador)
Bloqueios e divisórias dry-wall Addor
Serralheria interna Latão Arte (colaborador)
Revestimentos dos pendurais e forro metálico do Lobby Arqtec (colaborador)
Concreto JKMF 
Fundações Consultrix, Geofix
Metálica Beltec, Codeme Elétrica, climatização MHA
Engenharia mecânica Teknika
Incêndio MHA / Shaft
Sistema de gestão predial Bosco & Associados
Fachada AJLP Surface Design Group; Itefal (colaborador)
Pedras DGG Assessoria; Brasigran (execução)
Paisagismo Pamela Burton & Company (autor); Sergio Santana (colaborador) Impermeabilização Proassp
Iluminação Arup (autor); Studio IX (colaborador)
Leed e Análise Ambiental CTE
Acústica Acustica & Sonica
Acessibilidade Rogerio Romeiro
Acesso à fachada Gondomatic
Construção HTB Engenharia e Construção
Fotos Nelson Kon

Texto de Evelise Grunow| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 442
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