PERFIL: Raf Arquitetura

Mergulho na baía

Raf Arquitetura, Centro de pesquisa e Inovação da L'oréal, Rio de Janeiro

Do Centro de Pesquisa & Inovação da L’Oréal se vê, ainda que distante, o Aqwa Corporate. A conexão visual é um dos fatores de proximidade dos dois projetos, mas igualmente o terreno do novo núcleo de estudos da empresa francesa de beleza tem algo a dizer sobre a história do Rio de Janeiro.

No passado, uniram-se duas ilhas, a do Fundão e a do Bom Jesus, originando o pedaço de terra onde viria a se instalar a Vila Militar do Fundão. O governo estadual, contudo, criou em 2012 o que se chamou de Polo Verde da Ilha do Bom Jesus, um parque tecnológico destinado a sediar empresas de tecnologia comprometidas com a questão da sustentabilidade ambiental.

L’Oréal e General Eletric, vizinhas em Bom Jesus, são instituições que aderiram ao programa. Embora a vista seja deslumbrante - a imensidão de água interrompida, aqui e ali, pelo traçado da Ponte Rio-Niterói e pelo perfil das máquinas em atividade no porto -, foi uma imagem microscópica que impulsionou a empresa a trazer o seu mais moderno centro de estudos para o Brasil. Ou seja, a comprovação, através da identificação no país de seis tipos de fios de cabelo, entre os dez existentes no mundo, de que valia a pena desenvolver produtos para um mercado com tamanha heterogeneidade racial.

O laboratório de pesquisas é, portanto, o coração do programa, mas há uma serie de atividades de planejamento, administrativas e de pequena produção industrial - em escala experimental - que gravitam em torno dele, somadas a um setor dedicado ao trato com o público externo. Um misto de laboratório, escritório e espaço de beleza, portanto, é como se poderia definir o projeto, característica que foi traduzida em minucioso programa de necessidades no concurso fechado de ideias que a empresa promoveu em 2008.

A competição foi vencida pela dupla RAF Arquitetura e Perkins + Will, que, naquele ano, ainda não havia se estabelecido no Brasil. Flávio Kelner relata que a essência da arquitetura se mantém desde então. Flexibilidade é o requisito central da encomenda e, para atendê-lo, desfrutando ainda da privilegiada vista, os arquitetos desenharam um edifício longilíneo, de lajes contínuas, cuja fachada oeste, voltada para a baía de Guanabara, é totalmente envidraçada.Como em parte do Aqwa, também aqui lança-se mão do artifício da inclinação do vidro para se obter o sombreamento passivo, mas, em contrapartida, a fachada posterior é predominantemente fechada - exceto pela presença de rasgos horizontais - e revestida com telha metálica.

A geometria do terreno e o seu perfil em aclive foram absorvidos pelo partido arquitetônico, tanto no que diz respeito à curvatura que o edifício faz no seu terço final, quanto à distribuição dos usos em níveis sequenciais. A base da construção, de concreto, abriga o estacionamento coberto do térreo que, embora voltado para a baía, é pouco visível por causa do assentamento do edifício na topografia. Já os dois andares superiores, de estrutura metálica, acomodam o programa principal, sendo o primeiro pavimento ocupado pelo laboratório - envidraçado, de modo a evidenciar a movimentação dos pesquisadores -,por escritórios e restaurante, e o segundo, por outra área corporativa, ladeada pelo núcleo de interação com o público.

Este é o setor mais hermético da construção, tendo em vista que a maioria das atividades ocorre em salas sem janelas. Parte do piso do segundo andar toca na fachada envidraçada e parte não, dando origem a zonas com pé-direito total que fazem com que o edifício pareça menos comprido do que de fato é. Em certos pontos, então, salas abertas de reunião parecem flutuar nesses grandes vazios. O acesso de funcionários e visitantes ocorre pela parte posterior da edificação, demarcado por uma marquise curva de concreto e por uma rampa externa, enquanto que a fachada frontal é contornada por um jardim flutuante, onde se armazena a água consumida no edifício e completamente tratada no lote.



Ficha Técnica

Centro de Pesquisa & Inovação da L’Oréal
Local
 Rio de Janeiro (RJ)
Início do projeto 2008
Conclusão da obra 2017
Área do terreno 29.814,31 m2
Área construída 16.235 m2

Arquitetura Perkins + Will Miami (autor), RAF Arquitetura (coautor)
Interiores Emmanuel Fenasse (autor), RAF Arquitetura (coautor)
Executivo e licenciamento RAF Arquitetura (autor) - Rodrigo Sambaquy, Anibal Sabrosa, Flávio Kelner, Henri Medalla, Guilherme Carvalho (diretores); Marcelo Santos (gerente de equipe); Renato Carvalheira, Luiz Azeredo, Fernanda Raimundo, Rodrigo Bezerra, Marcelo Nieto, Talita Barbutti, Fernando Tapada, Alyne Bell, Daniela Grave (time de produção)
Estrutura e instalações MHA Engenharia 
Esquadrias MB Serviços de Esquadrias, QMD Consultoria
Iluminação Estudio Carlos Fortes Luz + Design
Jardins filtrantes Phytorestore
Certificação verde CTE
Acústica Roberto Thompson Motta
Impermeabilização Proassp
Construção Afonso França Engenharia
Fotos Leonardo Finotti

Texto de Evelise Grunow| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 442
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