Rosa Grena Kliass: Parque da Juventude, SP

Entre ruínas e sombras

Fichas técnicas
Fornecedores
Plantas, cortes e fachadas
A natureza se encarregou de recobrir as estruturas abandonadas do Carandiru de verde
Entre ruínas e sombras
Foi concluída a segunda etapa de implantação do parque da Juventude, situado na parte desativada do Complexo Penitenciário do Carandiru , zona norte de São Paulo.
O projeto de arquitetura paisagística, desenvolvido por Rosa Grena Kliass, foi premiado na Bienal de Quito de 2004 .
A intervenção abrangeu a porção central da gleba, cuja topografia redesenhada oferece diferentes perspectivas de contemplação do verde e do skyline da cidade.
A reurbanização do complexo penitenciário foi tema de concurso promovido pelo governo paulista em 1999. O vencedor foi o escritório Aflalo & Gasperini , que convidou Rosa Grena Kliass e equipe para elaborar a proposta paisagística.
Mais tarde, o poder público decidiu desativar apenas os blocos da Casa de Detenção e manter em funcionamento a Penitenciária do Estado, o Centro de Observação Criminológica e a Penitenciária Feminina.
O projeto do parque teve seus 427 mil metros quadrados originais reduzidos para cerca de 240 mil metros quadrados.
Essa área foi dividida em três etapas de intervenção, duas delas já concluídas. A primeira, inaugurada no final de 2003, compreende o parque Esportivo , complexo de lazer de 35 mil metros quadrados com quadras e pista de skate.
A segunda, denominada parque Central , foi finalizada em setembro passado e colocou à disposição da cidade uma área de 90 mil metros quadrados, planejada como espaço de retiro e contemplação do verde.
“Nossa proposta era criar um oásis urbano , onde os visitantes pudessem sentar à sombra das árvores para ler um livro ou descansar”, resume o arquiteto José Luiz Brenna, co-autor do paisagismo. Essa intenção justifica a ausência de infra-estrutura para atividades físicas no parque Central. Os únicos equipamentos existentes ali são os bancos de concreto com encosto de madeira e os cestos de lixo em aço inoxidável.
Entre as modificações promovidas pelo projeto está a formação de um pequeno morro no região central do parque. Esse elemento rompe a planicidade da área, situada na várzea do córrego Carajás, afluente do rio Tietê, e oferece diferentes possibilidades de observação do verde e do skyline da cidade. Ele foi concebido como forma de absorver resíduos da demolição dos prédios da Casa de Detenção. Porém, como o entulho teve outro uso, foi necessário adquirir terra para executar o morro.
Dois maciços verdes preexistentes na área foram tratados . O primeiro deles é área de preservação permanente, formada basicamente por eucalipto de reflorestamento e espécies da mata atlântica. Esse agrupamento, que ocupa 16 mil metros quadrados, é cortado por trilha para caminhadas. Esse setor foi o único que recebeu estrutura para atividade física - a tirolesa, esporte radical em que a pessoa, presa por cinto de segurança, desliza por cabo de aço que corre na altura da copa das árvores.
Menor, o segundo conjunto está no miolo da gleba. Ali existe a estrutura de um presídio , cujas obras, em estágio inicial, foram abandonadas em 1993, após o massacre de 111 presos da Casa de Detenção. Preservada como referencial histórico , a estrutura está envolvida por trepadeira e um conjunto de tipuanas que surgiu naturalmente no local, criando uma zona sombreada e com aspecto de ruína . Para tirar partido dessas condições, o espaço ganhou passarela de madeira e o reforço de trepadeiras e plantio de forrações.
O projeto paisagístico desenhou a alameda principal , margeada por pau-ferro, que corta toda a extensão do parque. Ela é pavimentada com solo-cimento, que, diferentemente do asfalto, tem aparência mais natural e ajuda na absorção do calor, contribuindo para a formação de uma ilha de temperaturas mais amenas. Os demais passeios receberam cobertura com pedriscos.
Outro acréscimo definido pelo paisagismo são três escadas com estrutura de aço corten e degraus vazados de madeira. Elas dão acesso ao passadiço de 300 metros de extensão, a sete metros de altura, de onde se tem interessantes pontos de vista do conjunto. Essa muralha de quase um metro de largura foi construída para servir como posto de vigilância do edifício prisional cujas obras foram abandonadas.
Com estrutura em aço corten, a escada dá
acesso ao passadiço de 300 metros de extensão
A escada apresenta patamar de madeira e degraus vazados
A passarela de aço corten e madeira interliga dois trechos do passadiço, que não chegou a ser totalmente construído
Vista inferior da passarela
Os caminhos secundários são pavimentados com pedriscos. O projeto paisagístico definiu o plantio de 25 espécies de árvores
 
Os paisagistas alteraram parte da
topografia do terreno naturalmente plano
A passarela forma o deque que acompanha
a área das ruínas, sombreada por tipuanas
 
O contraste com o cenário preexistente foi feito com o plantio de 25 espécies de árvores, como pata-de-vaca, jacarandá-de-espinho, paineiras, jerivás e sibipirunas, organizadas em pequenos maciços. O complemento fica por conta de grandes áreas gramadas e canteiros com forrações de fácil manutenção, entre elas vedélia, agapanto, neomárica e íris-da-praia.
Duas pontes sobre o poluído córrego Carajás já foram executadas, mas permanecem interditadas ao público. Elas darão acesso ao parque Institucional, terceira etapa do projeto, com conclusão prevista para 2006. Essa fase inclui o tratamento da margem oposta do córrego e o restauro de dois dos pavilhões da Casa de Detenção, que serão transformados em espaços culturais e de formação profissional.

Texto resumido a partir de reportagem
de Nanci Corbioli
Publicada originalmente em PROJETO DESIGN
Edição 299 Janeiro de 2005
Vista da ponte para o Parque Central e
para a muralha de sete metros de altura

Texto de | Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 299
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