Gringo Cardia: Museografia, Rio de Janeiro

Tecnologia e arte narram a história da comunicação humana

Gringo Cardia iniciou o projeto museográfico do Museu das Telecomunicações há quatro anos. A proposta inicial era que a instituição se distribuísse por cinco andares, mas quando foi inaugurada, em fevereiro passado, ocupava apenas um piso, na cobertura de edifício projetado pelo escritório Oficina de Arquitetos (leia PROJETO DESIGN 301, março de 2005), no Rio de Janeiro.

O hall de entrada tem iluminação flexível, baseada em células autônomas, os pixels
Tecnologia e arte narram a história da comunicação humana
Gringo Cardia iniciou o projeto museográfico do Museu das Telecomunicações há quatro anos. A proposta inicial era que a instituição se distribuísse por cinco andares, mas quando foi inaugurada, em fevereiro passado, ocupava apenas um piso, na cobertura de edifício projetado pelo escritório Oficina de Arquitetos (leia PROJETO DESIGN 301, março de 2005), no Rio de Janeiro.
A mudança de escala mostrou-se favorável em pelo menos dois aspectos. Primeiro, porque o sucesso de visitação evidenciou a vocação de centro cultural do edifício. Segundo, porque, tendo que compartilhar o espaço com outro uso, Cardia e equipe passaram a centrar esforços no que se chama hipertexto.
Trata-se de concentrar grande carga de informação em reduzido espaço físico, o que ocorre através da cadeia de vínculos entre documentos, sons, imagens estáticas e em movimento, por exemplo. Encarregado de expor farto acervo histórico em área relativamente pequena (são 210 metros quadrados), Cardia mesclou a exposição de objetos à de vídeos e instalações especiais.
Paredes espelhadas, iluminação e projeção de textos simultâneos, na sala de entrada
Fotografias, desenhos, objetos e projeções audiovisuais estão lado a lado no museu

A evolução do design de telefones e a história da telefonia, em fotos, documentos e filmes; relatos de filósofos, artistas e cientistas sobre previsões do futuro (incluindo um depoimento de Oscar Niemeyer); projeções de atores caracterizados de personalidades célebres, como Buda e Fernando Pessoa - quem se aventurar a visitar o museu em apenas uma investida necessitará de cerca de seis horas para vislumbrar tudo isso.

“Mas não é essa a idéia”, enfatiza o arquiteto, designer, diretor de arte e tantas outras designações advindas de trabalhos desenvolvidos em múltiplas frentes profissionais. “O museu foi criado para que as pessoas tenham liberdade na visitação, escolham seu roteiro, voltem várias vezes”, explica Cardia, que, com esse objetivo, articulou elementos para um percurso pausado.

Fotografias, desenhos, objetos e projeções audiovisuais estão lado a lado no museu
Fotografias, desenhos, objetos e projeções audiovisuais estão lado a lado no museu
Parte desses elementos diz respeito à tecnologia avançada e tem vínculos diretos com a própria linguagem de modernidade do edifício. Acesso sem-fio e personalizado ao conteúdo dos vídeos; aparelhos portáteis, como iPods, para manipulação de conteúdo virtual; sonorização ambiente de extremo conforto e qualidade; iluminação, de Peter Gasper, computadorizada e desmembrada em células autônomas, os pixels; esses itens, entre outros, levaram a equipe de projeto a pesquisas em terrenos nacionais e internacionais .
Mas não é só de tecnologia que trata o museu. Boa parte dos elementos que o conformam tem a ver também com arte, com o papel da criatividade pessoal na história da comunicação humana. “Não tem mais sentido enfatizar a tecnologia como objeto de deslumbre. Hoje, é preciso trazer conteúdo aos projetos visuais ”, propõe o designer, que assina a curadoria, design, coordenação geral, arquitetura, cenografia, desenho gráfico, direção de vídeos e a produção executiva do espaço. Atribuições que demandaram 12 meses de dedicação e a colaboração de pelo menos 50 profissionais.
A excelência do projeto está em extrair da arquitetura e do design o mesmo conceito de exposição, a mesma narrativa de hipertexto. É a procura por novas janelas de informação que está por trás das cores, materiais, móveis, painéis, luzes, ambientes interativos, vídeos e encenações exibidos no museu.
Com a arquitetura, Cardia imprimiu certo grau de mistério e descontração ao ambiente. A entrada, por exemplo, ocorre pelo que ele denomina cabine de descompressão, para descontextualizar o visitante em relação ao exterior e evitar a apreensão imediata do espaço, o que deu vida a paredes espelhadas, assimétricas, com iluminação azul e projeção aleatória de palavras isoladas. Os textos se misturam aos múltiplos reflexos das pessoas nos espelhos, numa intencional confusão.
Na Linha do Tempo, o visitante pode selecionar...
... o conteúdo sobre determinados períodos da comunicação
 
À direita da entrada, a área de vídeos tem piso espelhado...
Já no interior, pisos, tetos, ambientes e móveis expositores têm aspecto descontraído e neutro, oferecendo percursos intuitivos, não predeterminados. Em algumas partes até os vidros de proteção foram suprimidos, de forma a incentivar a proximidade do visitante com a exposição. A exceção é a sala que acolhe a projeção sobre as redes tecnológicas de comunicação. O ambiente tem paredes pretas, piso espelhado, iluminação por leds e esfera central onde é exibido o filme.
No design, Cardia transformou antigos documentos em divertidas animações bidimensionais. Através de computação gráfica, algumas figuras foram recortadas, ganharam lento movimento e destaque através de cores, por exemplo. Tem-se a impressão de planos paralelos em movimento relativo, uns estáticos e outros em sutil deslocamento, o que reforça o critério de percurso pausado.
...iluminação de leds e esfera central para projeção de imagens
À direita da entrada, a área de vídeos tem piso espelhado, iluminação de leds e esfera central para projeção de imagens
 
Na saída, o visitante passa por sala especial, que exibe vídeo de Lennart Nilsson sobre o corpo humano
Além disso, com o design de interação foram criados processos de acesso individual a conteúdos virtuais , como na área da Linha do Tempo. O visitante escolhe, entre 40 datas pré-selecionadas, imagens e sons que relatam importantes momentos da história da comunicação humana.
O resultado é um “museu que se destaca não pelo show cenográfico, mas pela humanidade de sua arquitetura e design ”, conclui Cardia. O Museu das Telecomunicações é uma realização do Instituto Oi Futuro.

Texto resumido a partir de reportagem
de Evelise Grunow
Publicada originalmente em PROJETO DESIGN
Edição 326 Abril de 2007
Intitulada Profetas do Futuro, a sala exibe encenações e depoimentos de personalidades atuais e antigas.
O vídeo é projetado em cabeça cenográfica
 
A história visual dos cartões telefônicos
também está exposta
Grafismos, objetos e projeções multimídia...
Com projeto de Cardia, o salão de entrada do centro cultural é utilizado como uma espécie de biblioteca virtual e interativa
... convivem lado a lado nas peças em exposição
Exposição centra esforços de informação no hipertexto
Quadros dos vídeos dirigidos por Gringo Cardia. Destaca-se o tratamento gráfico dado aos documentos históricos, que se transformaram em animações de linguagem bidimensional

Texto de | Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 326

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