Entrevista

16ª Bienal de Arquitetura de Veneza

Curadores do pavilhão brasileiro na 16ª Bienal de Arquitetura de Veneza falam sobre a mostra Muros de Ar


Foto: Rafaella Crepaldi

Desde 1995 a Fundação Bienal de São Paulo é a responsável pelas representações brasileiras nas Bienais de Veneza, cabendo aos atuais 44 conselheiros da instituição a escolha dos curadores das mostras de arte e de arquitetura. Muito tardiamente, então, é que em 4 de dezembro de 2017 a fundação confirmou a participação do Brasil na 16ª Bienal de Arquitetura de Veneza, anunciando que ela seria comandada por um quarteto de jovens arquitetos: dois brasileiros e duas mexicanas atuantes no Brasil, que, embora não tivessem trabalhado juntos anteriormente, tinham já as suas afinidades profissionais.

Esse é um dos assuntos da entrevista a seguir, feita em 21 de maio, em Veneza, com Gabriel Kozlowski, Marcelo Maia Rosa, Sol Camacho e Laura González Fierro, três dias antes da abertura da Bienal para jornalistas e arquitetos. Estavam em curso alguns ajustes de iluminação e de sinalização, mas o corpo principal da mostra estava pronto - dez mapas de grande dimensão, 3 por 3 metros, e os painéis de desenhos acoplados às maquetes dos 17 projetos escolhidos através de chamamento público. A primeira reunião presencial do grupo - Kozlowski mora em Boston, onde leciona no MIT (Massachutes Institute of Technology), Laura divide seu tempo entre Nova York e São Paulo, cidade em que vivem também Maia Rosa e Sol - ocorreu no início de novembro de 2017.

“Começamos um processo de imersão para chegarmos no conceito da mostra em uma semana”, relata Maia Rosa, o que pode ser comprovado pelo teor do anúncio dos curadores em 4 de dezembro, já explicativo do que seria a exposição Muros de Ar. Rapidamente, o quarteto decidiu pela organização da mostra em dois núcleos, iniciando a batalha das aprovações pelo comissário e da produção do conteúdo, ainda sem verba alguma disponível inicialmente e com pouco tempo à disposição.

“Essa mostra é resultado da generosidade de muitas pessoas”, reflete Laura sobre o grande time de voluntários que reuniram, tanto os autores de textos e entrevistados/entrevistadores do catálogo, quanto as pessoas que coletaram os dados e as que produziram os mapas. A lista ainda inclui os arquitetos que submeteram seus projetos (289 no total) ao processo de chamamento público, entre dezembro de 2017 e janeiro de 2018. Um dos méritos da exposição é levantar questões importantes, ainda que não tão óbvias, sobre a urbanização brasileira, cujas informações disponíveis são muitas vezes originárias de outros campos do conhecimento.


Houve concurso para a curadoria do pavilhão brasileiro em Veneza?
Gabriel Kozlowski Foi um convite espontâneo. Os membros do conselho da Fundação Bienal sugerem os nomes que serão discutidos entre eles. A Sol [Camacho] e eu já tínhamos trabalhado juntos antes, e também ela e a Laura [González Fierro]. O MIT tem uma aproximação com a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) em torno do tema da moradia popular, motivo pelo qual trabalhamos em Paraisópolis, onde a Sol atua também. Os conselheiros, então, certamente sabiam dessa nossa afinidade, mas trabalharmos, todos juntos, essa é a primeira vez. Ficamos surpresos com o convite. Acho que ele que representa um ar novo.
Laura González Fierro Que rompe com o conceito de curador único.

Consideraram não aceitar o convite, por causa do pouco prazo para trabalho?
Marcelo Maia Rosa Começamos um processo de imersão para chegarmos no conceito da mostra em uma semana, que, no final, era o de querermos tudo.
Sol Camacho Acho que fizemos umas dez sessões de “brainstorming”, de manhã à noite. Cada um de nós já tinha visitado a Bienal e a pergunta inicial era sobre o que gostávamos e o que não gostávamos de ver.
LF E que fosse elegante. SC A base de tudo é o Freespace [tema da Bienal de Veneza]. LF Queríamos aproveitar essa plataforma, que é a Bienal, para abrir um debate interessante. Não apenas mostrar projetos que, por mais relevantes que sejam, estão disponíveis na internet.
SC Duas coisas básicas que decidimos, então, foi fazer um chamamento de projetos e produzir conteúdo novo. O espaço físico do pavilhão convida a isso.

Um projeto ambicioso.
MMR Mas tivemos tanta segurança e determinação na proposição que não paramos diante dos vários nãos que fomos recebendo. Não ao chamamento, não ao catálogo, não aos mapas junto com o chamamento. 
GK Ainda sem nenhum dinheiro na mão, conseguimos fazer o chamamento em uma semana apenas. 
SC Essa mostra é fruto do trabalho de 200 colaboradores, todos voluntários. As pessoas entendem a importância da Bienal de Veneza. Nossa exposição é crítica sem ser partidária. Demos voz a todos. 
GK Sendo políticos, no sentido de decidirmos como nos portar diante dos assuntos. 


Que assuntos estão representados nos mapas?
MMR Assuntos que tangenciam questões muito delicadas sobre a urbanização do país. E eles não foram escolhidos simplesmente porque havia informação disponível, mas de modo a gerar tensão sobre eles.
GK Temos do pichador à juíza. As diferentes visões que constroem as cidades. É uma conversa sobre urbanização, sobre paisagem, sobre questões da escala do território brasileiro, mas sempre falando dentro do universo do arquiteto. Formamos um comitê multidisciplinar com representantes dos assuntos dos dez mapas, um cineasta, um geólogo, um cientista social, um matemático, um advogado, e assim por diante. E no desenvolvimento do trabalho, a ideia foi fazer junções não óbvias entre as pessoas.
SC Mas a todo momento fomos refletindo em paralelo sobre a expografia. Primeiro pensamos em 15 mapas, depois em 12 e finalmente chegamos em dez.
GK Já no início decidimos não ocupar o espaço central do salão grande do pavilhão. Em consequência, para usar as paredes, tínhamos que crescer em escala, o que foi a origem da ideia dos mapas gigantescos.

E qual é a conexão deles com a sala de projetos?
MMR A escala da cidade é uma ponte direta para a escala do objeto, que é do que tratam os projetos do chamamento. Recebemos 289 propostas e aprendemos muito com elas, porque não tínhamos de antemão um recorte específico para a nossa escolha. Acho bonita essa reciprocidade do aprendizado.
SC Tanto a pesquisa quanto o chamamento foram um grande processo de reaprendizado.

Como visitar o pavilhão?
GK Tem modos diversos de leitura, desde uma visita rápida até outra mais aprofundada. É fácil entender a maquete e, depois, se pode entrar na descrição de cada projeto. Já o mapa é lindo visualmente e informativo também. Temos chaves sequenciais para a sua leitura: o título, o subtítulo, uma pergunta que o estrutura, um texto de 250 palavras e, então, as informações em si.
GK Acho que o ponto de partida é o mapa da urbanização, porque nele há um pouco das informações de todos os outros mapas. Para quem não conhece o Brasil, por exemplo, já dá para ter uma ideia de quais áreas são as mais urbanizadas e também dos momentos históricos que definiram a formação geopolítica do país.

Em compensação, o mapa da paisagem é bastante abstrato, formado por manchas de cor.
SC O mapa do Brasil não está desenhado, ele vai surgindo a partir da distribuição das informações, como dos tons de azul relativos às umidade atmosférica. Mostramos o fenômeno dos “flying rivers” [rios voadores, a movimentação da umidade do ar pela ação dos ventos e dos acidentes topográficos], que acontece em alguns lugares do mundo, como da Rússia em direção à Europa. Desmataram a Europa e isso não afetava o clima da região porque a umidade continuava presente, vinda da Rússia. Serve de alerta sobre o desmatamento da Amazônia, que além do mais irá afetar o clima das cidades do sudeste do Brasil.
MMR Dá para ver no mapa as usinas e reservas hidrelétricas junto aos rios e o impacto que elas causam na paisagem. Nós, cidadãos, não estamos habituados a refletir sobre os nossos impactos.
LF Esse é o valor de cada um desses mapas. Fizemos certas conexões para que as pessoas reflitam sobre o que está acontecendo no Brasil e no mundo, hoje. A arquitetura precisa romper barreiras e trocar informações com outros campos de conhecimento.
GK A Nasa é que tem o melhor mapeamento da umidade atmosférica na escala global. Como acessar essas informações? E cruzá-las com as do Global Forest Watch, por exemplo, que tem o melhor mapeamento da emissão de carbono? Isso nos levou a fazer parcerias para termos as informações na escala que precisávamos.
MMR E outras conexões estão por vir. Os dados aqui podem abrir associações inusitadas.

Como a que vocês fizeram, entre a umidade do ar e o valor da terra.
GK Interessante a coincidência do melhor clima com o maior valor imobiliário. Nós quadriculamos o mapa do Brasil e deformamos a malha baseados no PIB de cada região. A malha, então, diminui na Amazônia e no Nordeste, enquanto que em São Paulo e Rio de Janeiro viram uma barriga gigantesca. Em cima disso, mapeamos o valor da terra.
SC E associamos o levantamento à seguinte questão: as agendas do mercado e a do arquiteto estão em sinergia? Quantos centros culturais versus shopping centers há nas cidades? São indicativos também do mapa, relacionados à pergunta sobre o espaço público de lazer disponível nas diversas áreas.

O que, por sua vez, tem a ver com a distribuição dos empreendimentos do programa Minha Casa Minha Vida, tema de outro mapa da mostra.
GK O mapa evidencia a localização dos empreendimentos do MCMV em áreas periféricas de todo o país, uma divisão social que se dá no espaço. Inserimos também outros programas similares antecedentes, como aquele que deu origem à Cidade de Deus, no Rio de Janeiro. É um alerta, para pensarmos nas consequências dos planos.

Há um grande trabalho de coleta e cruzamento de informações, que parece mais um ponto de partida para reflexões futuras do que a demonstração de conclusões a que vocês chegaram.
SC
 Acho que isso é o melhor. Não pensamos em darmos respostas, o que seria muito arrogante. Temos algumas possíveis respostas, mas o resto está aberto para discussão. Como a relacionada à comparação entre os mapas da imigração e o da fronteira continental brasileira, não acessível em quase metade da sua extensão. Esse foi um dos primeiros mapas em que começamos a trabalhar e a nossa ideia era promover a viagem de um artista, um fotógrafo, ao longo dos mais de 16 mil quilômetros da fronteira. A Fundação Bienal não aceitou porque achava que seria uma viagem de muito risco, mas o planejamento logístico está representado graficamente na base do mapa.

E quais outras associações vocês destacariam?
GK Há três mapas muito claramente relacionados entre si. O que fala do muro na escala do Brasil, que é esse da fronteira, o do muro na escala da cidade e o do muro na escala da arquitetura. Mostramos quais são as barreiras, as intransponíveis e as de acesso restrito, existentes dentro das cidades brasileiras mais emblemáticas. Identificamos lugares de ruptura do tecido urbano e associamos a eles imagens de satélite.
MMR Isso veio de um banco de dados de um grupo de pesquisa da FAU-USP [o Quapá]. GK É um estudo extensivo, de mapeamento de blocos urbanos, dos quais selecionamos aqueles que significavam ruptura ou divisão. Por exemplo, o conjunto residencial fechado, o cemitério, as áreas industriais, entre outros, são obstruidores do território.

Se o tom geral da mostra é neutro, ainda que de alerta, a atenção que vocês dedicam ao picho é um ponto destoante, não é?
MMR Os muros significam para o picho o suporte de mensagens criptografadas, endereçadas a grupos específicos. A comunicação é fechada e realizada sobretudo em áreas centrais e emblemáticas das cidades, que possuem maior visibilidade, onde os edifícios e a terra são mais valorizados.
GK Não importa se é arte ou não, o que importa é que o picho é tanto a manifestação de uma barreira [social] quanto a identificação de zonas de poder nas cidades. Mapeamos as entradas no Instagram com a hashtag pichação, picho em São Paulo, “sharpie” e outras que eles adotam, e inserimos bolinhas azuis no mapa indicando aonde e com qual intensidade elas ocorreram. Elas estão sobrepostas com a informação sobre o valor de venda das construções nesses lugares.

Texto de | Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 444
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