Entrevista

Elizabeth de Portzamparc

A brasileira Elizabeth de Portzamparc vive atualmente o auge da sua carreira. Com importantes obras e projetos de arquitetura e urbanismo em andamento na França, onde vive desde o final dos anos 1960, e fora dela, a profissional - formada em sociologia urbana pela Universidade de Paris 5, em desenvolvimento e planejamento urbano pela Paris 1 Sorbonne e titulada arquiteta, por mérito da obra, em 2006, por uma comissão especial do Ministério da Educação e Cultura da França - venceu nos últimos anos importantes concursos públicos internacionais para a criação de uma gama variada de projetos


Elizabeth de Portzamparc (Foto: Steve Murez)


Desde equipamentos culturais, como o Museu da Romanidade, em Nimes, que publicamos na edição 444 da PROJETO (setembro/outubro 2018), e a Grande Biblioteca Documental de Aubervilliers, ao norte de Paris, pertencente ao campus universitário Condorcet de Aubervilliers (em construção), até de transporte - como a estação regional de trem Le Bourget que, atualmente em obras, será a porta norte de entrada do Grand Paris Express, o conjunto de linhas de trem e metrô que está sendo implantado na região de Île-de-France - e também torres, como o Centro de Operação de Inteligência Taichung, em Taiwan.

Até 2022, assim, está programada uma série de inaugurações de projetos de sua autoria que, por sua escala, diversidade de contextos e programas, são representativos da criatividade polivalente e da competência de Elizabeth de Portzamparc, incluindo nessa lista a abertura, em 2018, do já mencionado museu de Nimes.

Arte e sociologia foram as suas portas de entrada no universo do urbanismo e da arquitetura, a primeira por motivação inicial de Iberê Camargo que, na juventude, aconselhou a família a inscrevê-la em um curso livre de desenho ao reconhecer o seu potencial expressivo, e depois por determinação pessoal - apenas chegada em Paris, ela dirigiu uma galeria de arte.

Do confronto de ambas as áreas de conhecimento com a arquitetura e o urbanismo, desde o início da carreira Elizabeth de Portzamparc - sobrenome herdado da sua união, pessoal e às vezes profissional, com o arquiteto Christian de Portzamparc - esteve atenta “às consequências sociais do meu trabalho”, preocupação esta canalizada na constituição de um arcabouço teórico-conceitual que garanta a qualidade de todas as suas realizações, tenham elas a estética que for - “a estética é uma consequência”, reflete ela sobre a arquitetura que pratica.

Em palestras, artigos em revistas, entrevistas e inclusive na monografia sobre o seu trabalho - escrita por Philip Jodidio e lançada em 2018 na França - Elizabeth de Portzamparc, assim, fala sobre as dez regras da sua arquitetura sob os preceitos do Novo Urbanismo, esboçadas na entrevista a seguir, realizada em fevereiro, por telefone, poucos dias depois do anúncio do convite para que ela integrasse o comitê de honra do congresso mundial de arquitetos, o UIA 2020 RIO.

Esta entrevista será publicada após o recente anúncio da sua participação no comitê de honra do UIA 2020 RIO, o congresso mundial de arquitetos. O que significa para você essa aproximação com o seu país de origem?

O Brasil é a minha raiz, pessoal e profissional. O fio condutor dos meus projetos foi a influência de ideias da arquitetura moderna brasileira. Não a estética, mas a espacialidade dessa arquitetura, que representa, em um paralelo que eu não vi em outro lugar do mundo, a nossa cultura. O que chamo de espacialidade é a riqueza e a diversidade de vida coletiva que a arquitetura moderna brasileira propõe, seja na obra do Niemeyer, com as suas lajes que são verdadeiros belvederes, ou de um modo muito mais urbano nos trabalhos da Lina Bo Bardi e do [Affonso Eduardo] Reidy. Penso no Sesc Pompeia, na laje elevada do Masp, que é uma praça pública formidável criada pela Lina em São Paulo e pelo Reidy no MAM [Museu de Arte Moderna] do Rio de Janeiro. Os limites que possam existir entre a arquitetura e o espaço público são abolidos pelos dispositivos espaciais desses projetos.

Quando essa influência começou a se manifestar no seu trabalho?

Desde sempre, mas de forma mais evidente no Museu Nacional da Coreia [do Sul], o primeiro grande concurso internacional que ganhei na minha vida, em 1992. Propus levar o espaço público para as salas através da criação de ruas urbanas, às vezes mais largas, às vezes mais estreitas. Creio que foi um projeto que marcou os espíritos, ainda que infelizmente não tenha sido construído. Ficou, porém, o modelo teórico. Três anos depois, no Museu da Bretanha (1995-2006), tive a oportunidade de realizar aquele conceito. Mais tarde, na Grande Biblioteca de Quebec [2000, não construída], eu o apliquei novamente, e agora, no meu projeto de Nimes, aquela abertura deixa o espaço público penetrar, participando da arquitetura. O mesmo ocorre na minha torre de Taichung [concurso vencido em 2017] . O interessante é que de uns dez anos para cá tenho visto essa influência brasileira, da arquitetura urbana que atravessa o edifício, também em projetos de outros países, como no museu de Kagawa [Teshima Art Museum], do Sanaa, no Japão, no Louvre de Abu Dhabi [projeto de Jean Nouvel] e na Fundação Prada [projeto do OMA], de Milão. A sua espacialidade é uma herança direta do Sesc Pompeia.

Na introdução da monografia sobre a sua obra você assina o texto “New Architecture”, discorrendo sobre o os desafios da arquitetura e do urbanismo neste novo século. Qual a importância da formulação teórica para o seu trabalho?

A formação tradicional na arquitetura, seus parâmetros e reflexões, não nos prepara para os desafios que surgiram no mundo nos últimos anos. São problemas de outra ordem, como o alto nível de densificação das cidades e a explosão demográfica absurda, que nenhuma política urbana consegue dar vazão. Também ninguém estava preparado para enfrentar os desafios climáticos e as novas crises econômicas, o desenvolvimento tecnológico sem precedentes. Se concebermos projetos de um modo clássico, como normalmente fazemos, corremos o risco de passar ao largo de questões essenciais, sobretudo tendo em vista os prazos de desenvolvimento - muito mais críticos nos concursos. Me pareceu indispensável fixar parâmetros, ideias fortes, que devem estar presentes nos meus projetos, e assim é que foram surgindo as regras que eu menciono no “New Architecture”. Comecei a pensar na flexibilidade das construções, em todas as suas relações com o contexto e, aos poucos, foi tudo fluindo. Claro que existem escritórios especializados em engenharia sustentável, mas a minha ideia não era utilizar técnicas e sim refletir sobre a inserção de cada projeto no seu cenário climático. Foi um eletrochoque trabalhar no Brasil em 2008 [no concurso para o Centro Cultural Francês, em Florianópolis, projeto não construído]. Todos os dispositivos que usamos aqui [na França], como a geotermia, não funcionam no Brasil, onde a temperatura do solo é muito quente. Eu tinha que inventar parâmetros próprios, descobrir quais seriam as qualidades específicas do lugar. Me deu outra visão. Essa comparação norte e sul, de trabalhar em vários países, com várias culturas, é muito estimulante para a criação. Te obriga a não se aproveitar sempre dos mesmos conhecimentos adquiridos. Nesse sentido é que criei um guia para ação.

Quando começou esse processo e como ele se aplica no cotidiano do seu escritório?

É bastante recente, desde 2008 naquele projeto de Florianópolis. No início, eu trabalhava sozinha a questão, mas há uns seis anos comecei a formar o nosso ateliê sustentável, que é uma equipe pluridisciplinar que passa por cada projeto verificando a aplicação das regras. Cada obra, então, torna‑se a ocasião para se aprofundar ainda mais essas ideias, que funcionam como um fio condutor que vai se diversificando, sofisticando, melhorando no decorrer dos anos e dos trabalhos. Torna-se um método, não apenas uma bagagem teórica, que organiza o meu pensamento, me obriga a escrever e se torna um pouco como uma escola. Vou formando discípulos, que poderão seguir no futuro aplicando o método em outros projetos. Não posso transmitir a minha criatividade, mas uma competência, uma formação, um pensamento, sim.

Qual o papel da estética na arquitetura?

No que me concerne, acho que a estética é uma consequência. Claro que todo arquiteto procura fazer o melhor possível para atender aos objetivos da sua arquitetura, o contexto etc, mas isso com a estética adequada a cada situação. No passado, a estética era talvez o objetivo número um para a maioria dos arquitetos; nos anos 1980 se tornou até um tique, com a superficialidade do pós-modernismo e o fato de a maioria dos clientes entender o valor simbólico da arquitetura que, assim, entrou em um processo que não existia antes, de consumo. E essa arquitetura de espetáculo, que só se preocupava em surpreender, foi se tornando direcionada à obsolescência. Claro que a arquitetura tem valor simbólico, mas se você coloca lado a lado só projetos simbólicos, um assassina o outro. A arquitetura média das cidades mais racionalistas valoriza os poucos edifícios simbólicos que as cidades precisam ter, sem exageros.

Como pensa em contribuir com a pauta dos eventos de 2020, no Rio de Janeiro, relacionados a arquitetura, patrimônio, cultura e sociedade de um modo mais geral?

É ainda muito recente o convite [para o UIA 2020 Rio], que foi uma grata surpresa para mim. Antes, eu já havia sido convidada pelos organizadores para participar de uma das mesas-redondas do evento, com o tema norte-sul/globalização. Sou uma arquiteta que constrói em vários países. Mas estar na companhia do Paulo Mendes [da Rocha] e do Jaime Lerner [ambos igualmente membros do comitê de honra], dois mitos, é uma honra enorme. Acho que o que estão esperando de mim é um papel mais radical, justamente por causa das minhas teorias, da New Architecture, ainda que o Jaime Lerner seja o precursor das cidades sustentáveis. Porém essa nova visão, relacionada às crises, é uma colaboração pessoal possível.

Na sua opinião, que oportunidade se abre para a cultura arquitetônica brasileira com o congresso de 2020?

No Brasil falta o básico, como o saneamento por exemplo, além de haver o problema das imensas desigualdades sociais, do desnivelamento dos equipamentos públicos. Isso chega em um momento em que o papel do poder público está sendo ignorado no país, o que é muito perigoso. Acabamos de assistir a catástrofes enormes, ecológicas, como Mariana e Brumadinho, ciclovias desabando, tudo isso por causa da ausência de um poder público forte, controlador. Ele é essencial no mundo todo. O Brasil enfrentou nos últimos anos desafios importantíssimos, mas parece agora dar um passo atrás. Sendo que a função desse congresso é preparar o futuro, nós arquitetos temos que salientar a importância do papel predominante do Estado no controle das cidades e das políticas habitacionais, públicas etc.

Mesmo enfrentando o problema do tempo político, sempre de curta duração, para fazer valer projetos de desenvolvimento.

Isso é um problema universal. A maioria das políticas urbanas estão ditadas pelo curto prazo, mas aqui na França, por exemplo, há ministérios que têm poder plurianual, não vinculado aos mandatos. Como havia, em São Paulo, com a Emplasa. Não sei como evoluiu.

Você vivencia essa realidade nos seus projetos?

Eu faço muitos projetos públicos. A Grand Paris, por exemplo, é uma sociedade pública que foi criada com o objetivo da construção do metrô. Tem uma meta de longo prazo mesmo que, é claro, existam instâncias departamentais, regionais, com cronogramas mais populistas. Há também a política regional de descentralização das universidades para a construção da Grand Paris, de modo a se ocupar diferentes regiões. Há vários anos iniciaram as desapropriações e o lançamento de concursos etc, sendo que as inaugurações começarão a ser feitas pelo terceiro presidente no poder desde então. Ou seja, há uma continuidade interessante, ainda que não seja impossível que um novo presidente decida cancelar um projeto já lançado. Mas quando se trata de projetos que já tiveram financiamentos públicos consequentes, nenhum presidente ousa afrontar a opinião pública.

Atuando em vários países e em projetos com escopos tão diversos entre si, como você faz a gestão do seu escritório?

São experiências diversas, mas o interessante é que, sobretudo nos projetos públicos, nós encontramos o mesmo fio condutor. A base da torre de Taichung, por exemplo, deveria ser uma base clássica, com uma galeria dedicada à arte numérica. Minha ideia foi não impactar o solo, criando o passeio que leva até o alto da torre. Um percurso animado com uma série de eventos ligados à arte, e a qualquer momento o visitante pode entrar ou sair da torre ou, simplesmente, permanecer nesse passeio. Quanto ao cotidiano do escritório, eu estou sempre muito presente em cada etapa de evolução dos projetos. Quando participamos de concursos, por exemplo, eu praticamente abandono tudo e me concentro na concepção, que é a fase mais importante, onde defino o conceito, os parâmetros, a estética, a organização de cada projeto. O desenvolvimento, então, é feito por cada equipe, que sabe que tem que manter aquela linha conceitual. Depois, fazemos revisões periódicas de projeto, em ritmo variado - semanalmente, quinzenalmente ou mensalmente -, dependendo das necessidades.

Texto de Evelise Grunow| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 447
  • 0 Comentários

ENVIE SEU COMENTÁRIO

Assine PROJETO e FINESTRA!
Acesso completo grátis para assinantes


Quem assina as revistas da ARCO pode acessar nosso acervo digital com mais de 7 mil projetos, sem custo extra!

Assine agora