Álvaro Siza e Eduardo Souto de Moura: Pavilhão no Ibirapuera, em São Paulo, deverá abrigar debates sobre relações entre as arquiteturas portuguesa e brasileira

Discrição é a nova visibilidade

A ideia é que o pavilhão temporário concebido por Álvaro Siza Vieira e Eduardo Souto de Moura abrigue, no parque Ibirapuera, uma importante retrospectiva sobre a arquitetura lusitana dos últimos 15 anos, e suas relações com a cultura arquitetura brasileira. Debates entre arquitetos dos dois países fazem parte da programação do evento

A dobradinha dos Pritzker é um dos atrativos, mas não o único do evento, que tem como motes as transformações do território e o saber fazer português na área.

Intitulado Arquitetura Portuguesa - Discrição é a Nova Visibilidade, o evento será formulado a partir da análise de cem projetos, construídos ou não, que têm como marco inicial a Exposição Universal realizada em Lisboa em 1998, e à qual São Paulo se candidata para sediar em 2020. 

No passado recente, portanto, os portugueses vivenciaram demandas e promessas de incremento das cidades por causa de eventos que atraem uma legião de turistas - em 2004, o país foi sede da Eurocopa, o mais importante campeonato europeu de futebol, com dez estádios construídos ou reformados -, situação agora bastante familiar aos brasileiros.

Trabalhos públicos e de grande escala, com o desenvolvimento imobiliário de novas regiões agregado a melhorias no espaço comum e na infraestrutura urbana, são, assim, uma parte significativa dos projetos da mostra, selecionados por curadoria e por concorrência pública.

Pedimos ao arquiteto Nuno Sampaio, curador geral da exposição - ele é o fundador do Estratégia Urbana/Laboratório de Inovação, do Porto, que concebeu o evento -, para selecionar três trabalhos representativos do espírito do evento.

Um deles, a renovação da praça do Toural (2009-2012), em Guimarães, concebido pela arquiteta Maria Manuel de Oliveira com a equipe do Centro de Estudos da Escola de Arquitetura da Universidade do Minho (criada a pretexto deste projeto), tem como cenário a escolha da cidade do norte de Portugal como Capital Europeia da Cultura em 2012.

A pedido da Câmara Municipal, eles reordenaram a praça central, que, vizinha da muralha medieval de Guimarães, carecia à época de espaço para pedestres.

Reordenando fluxos de automóveis e favorecendo os acessos a sistemas públicos de transporte (houve o corte de cerca de 40% da área carroçável de veículos particulares), foi criado um passeio público ao longo da fortaleza antiga, reincorporado o chafariz quinhentista e implantado um projeto de arte urbana.

Trata-se do grafismo do piso da praça, feito com basalto e quartzo, que reproduz a planta de um setor da cidade.

De natureza similar, há o teleférico de Vila Nova de Gaia, inaugurado em 2011, pertencente à região do Porto, no norte de Portugal. Concebido pelos arquitetos Francisco Vieira de Campos e Cristina Guedes, do escritório Menos É Mais (ele, ex‑colaborador de Souto de Moura; e, ela, de Siza Vieira), o projeto é representativo da necessidade recorrente no país de vencer grandes desníveis e atravessar o rio, no caso o Douro, conectando margens opostas.

A proposta está inserida em região de elevado fluxo turístico, sobretudo relacionado à degustação de vinhos das caves do Porto, e organizada em dois núcleos: as estações alta e baixa.

A primeira é uma construção em encosta que, a despeito da presença marcante na paisagem - como não perceber uma grande edificação contraposta ao casario da margem do rio? -, desenvolve-se em altura através de gomos escalonados.

Já a estação baixa é um edifício ortogonal e elevado do solo - duas escadas laterais dão acesso à bilheteria -, feito com estrutura metálica apoiada sobre o embasamento de concreto.

O trabalho foi premiado na Bienal Ibero-Americana de Arquitetura de 2012, em Cádiz, na Espanha, e, segundo Nuno Sampaio, é um bom exemplo da sinergia que há em Portugal entre os vários agentes da arquitetura: arquitetos, construtores e engenheiros (leia nesta edição entrevista com o engenheiro Rui Furtado, um dos responsáveis pelo desenvolvimento do projeto do pavilhão da mostra).

Por fim, na escala doméstica, a discrição que nomeia a exposição portuguesa em São Paulo - marcando o término do Ano de Portugal no Brasil - tem a forma do apartamento da rua das Janelas Verdes, em Lisboa, projeto de Pedro Domingos que Nuno Sampaio selecionou duplamente, para a mostra e para esta reportagem.

Trata-se da reconstrução parcial de um edifício do século 19 em Lisboa - a meio caminho entre o Chiado e a região em que está implantado o Museu dos Coches, de Paulo Mendes da Rocha, MMBB e Ricardo Bak Gordon -, mantendo-se a parte íntegra da construção (fachadas, empenas e estrutura) e reconstruindo‑se todo o seu interior e a laje de cobertura.

Os cômodos são distribuídos em quatro pavimentos e organizados em torno do núcleo funcional de madeira laqueada branca (com escadas, banheiros e armários), de modo a liberar as porções nascente e poente para a inserção de salas ou dormitórios. Uma parede interna de concreto, com sete centímetros de espessura, reforça a estrutura das fachadas.

O evento contará com projetos de Siza e Souto de Moura (entre eles o da Torre do Burgo, que Rui Furtado menciona na entrevista desta edição como aquele que despertou o seu apreço pela arquitetura), mas, como sinalizam os três trabalhos aqui expostos, tem como mérito explicitar a produção de arquitetos de outras gerações.

Para Sampaio, o principal é estabelecer um diálogo com a arquitetura brasileira, o que deverá contar com o reforço de uma intensa programação de debates, em preparação pelos organizadores.



Texto de Nanci Corbioli| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 399
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